YASMIN...
A pequena Alice recebeu alta no dia seguinte. E para minha surpresa, senti uma pontada estranha ao perceber isso. Não porque estivesse preocupada com a saúde dela. A menina estava ótima. Corada. Cheia de energia. Faladora. Curiosa. Praticamente transformou a ala pediátrica num parque de diversões improvisado. Não. O motivo era outro. E eu sabia exatamente qual era.
Ou melhor... Quem era. Josh Walter.
Eu estava terminando alguns documentos quando bateram à porta do consultório. Quando levantei os olhos encontrei os dois.
Alice segurava um coelhinho de peluche contra o peito. E Josh segurava a mão da filha.
— Doutora Yasmin!
A pequena Alice exclamou imediatamente, falando do jeito dela tropeçando nas palavras, mas como eu trabalho com crianças eu entendo a linguagem delas... Sorri.
— Olá, princesa.
Já estás melhor?
— Sim!
Ela abriu os braços.
— Sem febe!
Comecei a rir.
— Ainda bem.
Alice sorriu orgulhosa. Como se tivesse vencido uma batalha. Enquanto isso, o pai observava a cena. Silencioso. Aquele homem tinha uma presença impossível de ignorar. Mesmo parado. Mesmo sem dizer nada. Era alto. Muito alto. Os ombros largos. A postura firme. Aquele ar de homem acostumado a liderar. Mas quando olhava para a filha... Tudo mudava. Os olhos suavizavam.
E isso era perigoso. Muito perigoso.
— Obrigado por tudo.
Disse ele. E euVoltei minha atenção para ele.
— Não foi nada.
— Foi muito mais do que isso.
A forma como disse aquilo fez meu coração falhar um compasso. Porque parecia sincero. Profundamente sincero. Entreguei alguns papéis.
— Aqui estão as recomendações.
Ele pegou os documentos. Nossos dedos tocaram-se por um breve instante. E por algum motivo aquele pequeno toque pareceu durar mais do que deveria. Muito mais. Então chegou o momento da despedida. Estendi a mão.
— Foi um prazer conhecer-vos.
Ele segurou-a. Firme. Quente. Os olhos dele encontraram os meus. E permaneceram ali. Um segundo. Dois. Três. Tempo suficiente para eu esquecer completamente o que estava fazendo.
Tempo suficiente para algo estranho acontecer dentro do meu peito. Então...
— Papá!
A voz da pequena Alice quebrou o feitiço. Pisquei disconcertada... Josh também. E ambos nos afastámos ao mesmo tempo.
— Adeus, doutora.
Disse Alice.
— Adeus, princesa.
Eles saíram. E eu continuei parada. Observando. Sem perceber. Até que desapareceram no corredor. Mas mesmo depois disso...
Continuei olhando. Porque infelizmente a minha dignidade tinha tirado férias. Observei as costas dele afastarem-se. Os ombros largos. O caminhar seguro. Aquela altura absurda. E pela primeira vez em muito tempo... A minha imaginação resolveu trabalhar contra mim. Por alguns segundos imaginei aquele homem me puxando para perto. A voz grave junto ao meu ouvido. As mãos grandes segurando minha cintura. Meu Deus!...
Abanei a cabeça imediatamente. E falei comigo mesmo num sussurro...
— Não.
Outra vez.
— Não.
Passei a mão pelo rosto. Sentindo as bochechas quentes.
— Ai, Yasmin...
Comecei a rir sozinha.
— Precisas tirar as teias de aranha antes que fiques maluca.
A enfermeira que passava pelo corredor olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido. Talvez tivesse mesmo.
Dois dias depois...
JOSH...
A reunião com os Lombardi correu exatamente como eu esperava. Profissional. Objetiva. Eficiente. Enrico Lombardi era exatamente o homem que sempre ouvi o meu pai descrever. Inteligente. Respeitado. Perigoso quando necessário. Ao lado dele estavam Pietro e Matteo e Alexander... Os dois homens mais novos( Pietro e Alexander), que futuramente assumiriam ainda mais responsabilidades dentro da organização. As negociações duraram horas. Mas no final o acordo foi fechado. Bilhões. Projetos. Expansão. Tudo correu perfeitamente.
Quando a reunião terminou, Enrico surpreendeu-me.
— Domingo fazemos um almoço em família.
Sorriu.
— Gostaria que viesse.
Assenti.
— Será um prazer.
Então pensei em Alice.
— Posso trazer a minha filha?
O sorriso dele aumentou.
— Claro.
— Ela vai gostar.
Disse Pietro.
— Aqui nunca faltam crianças.
E naquele momento não fazia ideia do quão verdadeiras aquelas palavras eram. Chegou o domingo. Alice estava animadíssima.
— Piscina?
— Talvez.
— Gelado?
— Talvez.
Ela bateu palminhas. Como se tivesse acabado de ganhar a lotaria. Quando finalmente atravessámos os portões da Mansão Lombardi fiquei impressionado. Era enorme. Mas curiosamente tinha algo acolhedor. Algo vivo. Não parecia apenas uma mansão sombria de Mafiosos... Parecia um lar. Ao aproximarmo-nos da área de lazer ouvi gargalhadas. Música ao fundo... Conversas animadas.
O cheiro de churrasco. Família. E era enorme... E então eu a vi. Yasmin. De pé junto de outras mulheres. Vestido simples. Cabelo solto. Sorriso fácil. Linda. Ainda mais linda do que na clínica. E aquilo causou uma reação completamente irracional dentro de mim.
Uma pergunta. Uma única pergunta me passava pela cabeça. Será que ela está comprometida? Franzi o cenho. Empurando aquelas perguntas... Porque aquilo não fazia sentido. Eu só a tinha visto uma vez.
Uma única vez. Mas mesmo assim... A ideia de outro homem ao lado dela incomodou-me. Antes que pudesse pensar mais, Enrico aproximou-se.
— Josh!
Cumprimentou-me calorosamente.
— Bem-vindo.
— Obrigado.
— Sente-te em casa.
Foi nesse instante que as mulheres se viraram. E Yasmin finalmente me viu. Os olhos dela arregalaram-se. Visivelmente surpresa.
E eu não consegui impedir o sorriso que surgiu nos meus lábios. Porque aparentemente... O mundo era muito menor do que imaginávamos.