JOSH...
Se alguém me perguntasse qual foi o maior erro da minha vida, provavelmente responderia que foi acreditar que a convivência podia substituir o amor. Durante muito tempo achei que duas pessoas não precisavam amar-se para construir um casamento funcional.
Respeito. Paciência. Compreensão. Responsabilidade. Achava que isso bastava. Hoje sei que não.
Porque quando apenas uma pessoa está tentando construir uma ponte, ela acaba desabando.
Nos primeiros meses após o casamento, eu realmente tentei. Tentei conhecer a Jennifer. Tentei aproximar-me dela. Tentei criar uma rotina tranquila. Uma vida estável. Não estava apaixonado por ela. Mas queria paz. Queria que pelo menos conseguíssemos viver como duas pessoas civilizadas. Jennifer não queria isso. Ela encontrava problemas em tudo. No horário das reuniões. Nas viagens.
Nas decisões da casa. Na comida. Nos empregados. No clima. Ate quando eu respirava.. Em tudo. No início pensei que fosse apenas adaptação. Depois pensei que fosse infelicidade entao tentei leva-la para sair mais vezes... Mas nada adiantava... Mais tarde percebi que ela simplesmente não queria estar ali. E talvez nunca tivesse querido. Mesmo assim continuei tentando. Porque quando assumimos responsabilidades, aprendemos a carregá-las até o fim.
Foi o que meu pai me ensinou. Foi o que a Máfia me ensinou. Foi o que a vida me ensinou. Então continuei. Até a gravidez. Quando Jennifer anunciou que estava grávida, sinceramente não soube como reagir. Parte de mim ficou feliz. Outra parte ficou assustada.
Porque eu sabia que não tinha tido um pai carinhoso. E tinha medo de repetir os mesmos erros. E a nossa convivencia nao era a saudavel...
Mas quando coloquei a mão na barriga dela pela primeira vez... Algo mudou. Pela primeira vez comecei a imaginar uma família.
Uma verdadeira família. Não perfeita. Mas real. Ate cheguei a pensar que a Jennifer ficaria mais sensivel... Mas, no entanto, parecia cada vez mais distante. Cada vez mais irritada. Cada vez mais ressentida. E durante a gravidez as discussões tornaram-se constantes.
— Estou gorda olha para mim.
— Estás grávida.
— Não é a mesma coisa.
— Jennifer...
— Não me digas para me acalmar.
— Nem sequer disse nada.
— Mas ias dizer.
Aquilo era praticamente a nossa rotina. E quanto mais a gravidez avançava... Mais ela parecia odiá-la. Odiar cada mudança. Odiar cada sintoma. Odiar cada consequência. Até que finalmente Alice nasceu. E eu pensei que tudo mudaria, pelo menos agora... Ah! Estava errado. Completamente errado. Porque a primeira vez que Jennifer segurou a nossa filha... Não vi amor. Não vi emoção. Não vi encanto. Vi apenas obrigação. Apenas isso. Obrigação.
E aquilo assustou-me mais do que qualquer inimigo que já enfrentei. Pensar que a nossa filha seria rejeitada...
Os primeiros meses foram difíceis. Muito difíceis. Jennifer recusava-se a amamentar.
— Vai estragar ainda mais o meu corpo.
Foi exatamente o que ela disse. Nunca esquecerei. Estávamos no quarto. Alice chorava. E Jennifer olhava para o espelho.
— Jennifer...
Chamei ja irritado...
— Não.
— Ela está com fome.
— Existem biberões para alguma coisa.
Olhei para ela sem acreditar.
— É tua filha, como podes ser tao indiferente?...
— E eu não sou ama de leite....
A resposta saiu tão fria que senti um arrepio. Nesse momento percebi algo terrível. Ela nunca quis ser mãe. Nunca. Talvez nem sequer quisesse ter sido minha esposa. E Alice era apenas mais uma consequência de uma vida que ela não escolheu.
Quando a nossa filha completou quatro meses, Jennifer fez uma cirurgia estética. Disse que precisava recuperar o corpo.
Que a gravidez tinha destruído tudo. Eu não concordei. Mas também não proibi. Porque cada pessoa tem direito ao próprio corpo.
O problema foi o que aconteceu depois. Ela começou a sair. Primeiro uma vez por semana. Depois duas. Depois quase todas as noites. E as desculpas tornaram-se cada vez mais absurdas. Jantares. Eventos. Amigas. Compras...
Sempre alguma coisa. E durante algum tempo aceitei. Eu pensei que talvez aquilo a fizesse feliz... Até porque eu também trabalhava muito. Mas havia algo estranho. Algo que não encaixava. E quando algo não encaixa no meu mundo... Eu investigo. Sempre. Foi assim que descobri. O homem. O passado dela. A história inteira...
Jennifer tinha namorado um rapaz da faculdade. Antes do nosso casamento. Apaixonada por ele. Obcecada por ele. Mas os pais dela recusaram. Porque ele era apenas um homem comum. Sem influência. Sem poder. Sem sangue mafioso. E naquele mundo isso bastou para destruí-los. Ou pelo menos era o que todos acreditavam. Porque afinal eles continuaram juntos. Escondidos.
Durante todo o nosso casamento. Quando recebi as fotografias da investigação fiquei sentado sozinho no escritório durante quase uma hora. Observando. Em silêncio. Não senti tristeza. Não senti ciúmes. Não senti o coração partir. Porque nunca a amei. Mas senti outra coisa. Raiva. Uma raiva enorme. Porque apesar de tudo eu tinha tentado respeitá-la.
Tinha tentado construir alguma coisa. Enquanto ela me transformava num i****a. Nessa noite esperei por ela. Quando chegou, encontrou-me sentado na sala. As luzes apagadas. O silêncio pesado. E ela imediatamente percebeu.
— Josh...
— Senta-te.
Ela empalideceu. Mas obedeceu. Coloquei as fotografias sobre a mesa. Uma por uma. Sem dizer nada. Até que ela viu. E ficou imóvel.
— Explica.
Foi a única palavra que eu disse. Ela ficou alguns segundos em silêncio. Depois começou a rir. Rir. Como se tudo aquilo fosse uma piada.
— Explicar o quê?
— Jennifer... Falei frio...
— O nosso casamento é uma mentira.
Pisquei.
— O quê?
— Nunca te amei Josh, tu sabes disso.
As palavras saíram como facas. Mas não porque me feriam. Porque confirmavam aquilo que eu já suspeitava.
— Eu amava outra pessoa.
— Então porque casaste comigo, porque nao fugiu com ele?
Ela soltou uma gargalhada amarga.
— Porque não tive escolha. Achas que é facil fazer algo assim?
Silêncio.
— Nem tu tiveste escolha.
Aquilo era verdade. Mas não justificava a traição.
— És a minha esposa.
— Apenas no papel.
— E ainda assim me traiste?
Ela levantou-se. Os olhos cheios de raiva.
— Porque eu nunca quis esta vida!...
— E eu nunca pedi para nascer nela.
Foi a primeira vez que gritei. A primeira. E talvez a única. Porque naquele momento já estava cansado. Cansado de tentar.
Cansado de compreender. Cansado de justificar tudo. Quando finalmente me acalmei, lembrei-a de algo importante... Que eu nunca uso quando estou em casa...
— Sabes quem eu sou.
Ela ficou imóvel
— Sou o Dom.
Ela ficou em Silêncio. Enquanto eu me aproximava dela olhado bem para o seu rosto com frieza...
— E sabes qual é a punição para traição no nosso meio?...
O medo apareceu nos olhos dela. Pela primeira vez.
— Josh... Ela falou com a voz falha...
— Não vou fazê-lo.
Ela piscou.
— O quê?
— Não vou punir-te desta forma. Porque apesar de tudo...
Olhei para a fotografia da pequena Alice sobre a estante.
— És a mãe da minha filha. E porque os teus pais não merecem isso.
Ela ficou em silêncio.
—Mas que nunca se repita, porque nao serei tao bom quanto agora, e vou esquecer completamente quem tu es...
Foi a última discussão séria que tivemos. Depois disso tornou-se estranhamente calma. Demasiado calma. E deveria ter percebido. Porque Jennifer nunca era calma. Nunca. Um mês depois aconteceu o acidente. Ou o suposto acidente. Ainda hoje não sei como chamá-lo. Recebi a chamada durante uma reunião. Carro incendiado. Sem sobreviventes. Quando cheguei ao local restavam apenas cinzas. Fumo. Metal retorcido. E um corpo irreconhecível. Não havia rosto. Não havia pele. Não havia nada. Apenas uma aliança.
A nossa aliança. No dedo daquela pessoa queimada... Foi assim que declararam Jennifer morta. Mas durante meses recusei acreditar.
Durante meses esperei. Uma chamada. Uma mensagem. Um sinal. Qualquer coisa. Porque parte de mim acreditava que aquilo era apenas mais um jogo. Mais uma fuga. Mais uma tentativa de me atingir. Mas os meses tornaram-se quase dois anos. E ela nunca apareceu. Nunca.
Então comecei a aceitar a verdade. Talvez aquele corpo fosse realmente dela. Talvez Jennifer estivesse morta. Talvez tudo tivesse acabado naquele dia.
Agora quase dois anos depois... Olhei para Alice adormecida naquela cama da clínica. Pequena. Frágil. Inocente. E fiz a mesma promessa que faço todas as noites. Tu nunca vais sentir-te rejeitada. Nunca. Porque já vi o que a ausência de amor faz às pessoas.
E não permitirei que aconteça contigo. Nem enquanto eu respirar. Foi então que levantei os olhos. E vi novamente a médica. Yasmin.
Movendo-se pelo quarto. Checando a Alice... Nao sei porque ela mexe comigo... Acabei de a ver, nem aconheço bem...