CAPITULO 9: Máscaras Perfeitas

1337 Words
ROKSANA... Assim que me aproximei deles, Simon foi o primeiro a agir. Claro que foi. Ele sempre soube representar. Talvez tenha sido exatamente isso que me fez apaixonar por ele no passado. Ou talvez tenha sido exatamente isso que me cegou. Aquele sorriso surgiu imediatamente nos lábios dele. O mesmo sorriso que durante anos me pareceu sincero. O mesmo sorriso que agora eu sabia ser apenas mais uma máscara. — Oi, amor. A palavra quase me deu náuseas. — Como estás? Fiquei preocupado. Liguei-te várias vezes. E Nem as chamadas da Evelyn atendeste. O que aconteceu? Porque sumiste assim? Enquanto falava, aproximou-se e abraçou-me. Forte. Apertado. Como se fosse um namorado preocupado. Como se me amasse. Como se eu não tivesse visto o que vi. O meu corpo inteiro ficou tenso. Instintivamente. Por um segundo senti vontade de empurrá-lo. De gritar. De perguntar se tinha vergonha na cara. Mas não. Ainda não. O espetáculo principal aconteceria daqui a duas semanas. Por isso sorri. Apenas sorri. Então Evelyn aproximou-se. A minha querida melhor amiga. Ou melhor. A mulher que eu considerava irmã. A mulher que me traiu. Ela segurou a minha mão com carinho. Com naturalidade. Como se nada tivesse acontecido. E isso foi quase pior. Porque Simon tinha-me traído como namorado. Mas ela tinha-me traído como amiga. E aquela ferida doía muito mais. — É verdade, Rox. Estávamos preocupados. Liguei até para a tua mãe. Ela disse que viajaste de última hora. Porque não avisaste? A preocupação na voz dela era perfeita. Tão perfeita que qualquer outra pessoa acreditaria. Mas eu já conhecia a verdade. E quando conhecemos a verdade... As máscaras tornam-se visíveis. — Ah... desculpem. Dei de ombros. — Tive algumas pendências para resolver. Foi tudo muito rápido. Nem tive tempo de atender ninguém. — Mas estás bem? — perguntou Simon. — Estou ótima. E pela primeira vez percebi que não estava mentindo. Eu estava mesmo melhor. Muito melhor do que estava há alguns dias. Porque agora já não chorava. Agora planeava. Os olhos de Simon desviaram-se para o estacionamento. Mais especificamente para o meu carro. E eu vi. Vi exatamente o brilho que apareceu neles. Ganância. Desejo. Encantamento. — Amor... aquele carro é teu? Perguntou. — É. — Uau... Ele parecia uma criança diante de uma loja de brinquedos. — É exatamente o modelo que eu te mostrei. — Eu sei. — E a cor também. — Eu sei. Por dentro quase ri. Porque ele nem imaginava. Nem fazia ideia. Que havia comprado para ele... — Comprei nesta viagem. Mentira. Uma mentira pequena. Mas útil. — Incrível. Ele continuava olhando para o carro. Não para mim. Para o carro. Interessante. Muito interessante. — Posso dar uma volta depois das aulas? Perguntou. — Quero muito experimentar. Eu deveria ter recusado. Qualquer pessoa normal recusaria. Mas eu não era uma pessoa normal naquele momento. Eu era uma mulher preparando uma armadilha. — Tudo bem. Vi o rosto dele iluminar-se. Evelyn entrou imediatamente. Como eu já sabia que entraria. — Eu também posso ir? Claro que podes. Porque vocês dois são tão previsíveis." pensei" — Quero muito ver como é. Sorri. — Tudo bem. Podem ir os dois. Os olhos dela brilharam. — Obrigada! Por dentro pensei: Agradece enquanto podes. — Eu fico na biblioteca depois das aulas. Quando terminarem tragam o carro para cá. — Combinado! Ela parecia genuinamente feliz. Aquilo quase me fez rir. Porque eles continuavam acreditando que eu era a mesma Roksana ingénua de antes. Mas essa versão de mim morreu naquele apartamento. E eles ainda não perceberam isso. O resto da manhã passou lentamente. Eu assisti às aulas. Tomei notas. Conversei com colegas. Fingi normalidade. Mas a verdade? Metade da minha atenção estava focada no plano. E a outra metade... Em Pietro. Sempre Pietro. Quando as aulas terminaram Simon apareceu. Pontual e Ansioso. — Amor, a chave? Sorri e Entreguei. — Divirtam-se. — Obrigado. Evelyn surgiu ao lado dele. — Voltamos daqui a pouco. Claro que voltam. Observei os dois afastarem-se. Entrarem no carro. E desaparecerem. Então peguei nas minhas coisas. E fui para a biblioteca. Algumas horas depois estava concentrada num livro quando o telemóvel vibrou. O nome apareceu no ecrã. Pietro. E automaticamente sorri. Apenas aquela palavra era suficiente. Atendi imediatamente. — Oi. A imagem apareceu. E durante alguns segundos esqueci completamente o que estava lendo. Meu Deus!... Aquele homem devia ser proibido. Estava sentado num escritório. Terno cinza. Camisa branca. Os últimos botões abertos. O cabelo impecável. A barba perfeitamente alinhada. E aqueles olhos. Os mesmos olhos que continuavam aparecendo nos meus pensamentos. —Tu me estás a ignorar?... Disse ele... Me fazendo sair dos meus devaneios... — Não estou. — Estou falando há quase um minuto. Pisquei. — O quê? Ele começou a rir. — Exatamente. Meu rosto aqueceu imediatamente. Maldição. — Estavas distraída!... — Talvez. — Observando alguma coisa? — Talvez. O sorriso dele aumentou. — Posso mandar-te algumas fotos minhas se quiseres. Assim podes admirar com mais calma. Tapei o rosto imediatamente. — Pietro! Ele gargalhou. E aquilo foi ainda pior. Porque eu adorava ouvi-lo rir. E acabei de descobrir que era muito melhor ver do que ouvir... — Desculpa. Disse ele. Sem parecer minimamente arrependido. — És impossível. — Mas bonito. — Muito convencido. — Obrigado. — Isso não foi um elogio. — Eu decidi que foi. Comecei a rir. E durante alguns minutos esquecemos tudo. A distância. Os problemas. O mundo. Era apenas nós. Conversando. Como se estivéssemos na mesma sala. Em determinado momento ele ficou em silêncio. Observando-me. A intensidade daquele olhar fez meu coração acelerar. Porque era exatamente o mesmo olhar daquela noite. O mesmo. — O quê? Perguntei. — Nada. — Pietro. — Estava com saudades. Pronto!... Acabou comigo. Simples assim. Sem aviso. Sem preparação. Apenas aquelas três palavras. E eu percebi que sentia o mesmo. Muito mais do que queria admitir. — Eu também. Confessei O sorriso dele tornou-se mais suave. Mais sincero. Mais perigoso. — Vou ver-te daqui a duas semanas. — Mesmo? — Sim. — Tens certeza? — Tenho. — E o trabalho? — Continuará existindo. Sorri. — Estarei esperando. — Gosto de ouvir isso. Mais alguns minutos passaram. Até que ele precisou voltar ao trabalho. — Posso ligar-te esta noite? — Sim. — E mandar mensagens? — A qualquer hora. — Fico feliz por ouvir isso. Meu coração acelerou novamente. — Tu também podes. Ele sorriu. — Então falamos mais tarde. — Falamos. — Beijo. A chamada terminou. E durante alguns segundos continuei olhando para o ecrã. Sorrindo como uma completa i****a. Uma hora depois. Simon e Evelyn voltaram. E bastou Simon sentar-se ao meu lado para eu sentir o perfume dela impregnado nele. Aquilo destruiu instantaneamente o meu bom humor. — Amor... Começou ele. Evelyn permaneceu em pé à minha frente. Sorrindo. — O carro é uma nave. Disse Simon. — Nunca conduzi nada parecido. — É verdade. Acrescentou Evelyn. — Parece um carro de filme. Observei os dois. Os dois pareciam felizes. Confortáveis. À vontade. Demasiado à vontade. — Posso conduzi-lo mais vezes? Perguntou Simon. — Talvez para sair com alguns amigos? Antes que eu respondesse, Evelyn entrou novamente. — Na verdade acho que esse carro combina mais com ele. Quase me engasguei. — O quê? — É muito masculino. Talvez devesses emprestá-lo ao Simon. Ah!. Então era isso. A coragem daquela mulher era impressionante. Queria que eu entregasse o carro ao meu namorado. Para que provavelmente saíssem juntos nele. Como um casal. No meu carro. Comprado com o meu dinheiro, Para o homem que me traiu. Extraordinário. Mas mantive o sorriso. Porque às vezes a melhor vingança é deixar as pessoas acreditarem que venceram. — Por mais que eu quisesse... Meu pai e o Bruno nunca permitiriam. Virei-me para Simon. Segurei a mão dele. — Entendes, amor? Vi a decepção atravessar os olhos dele. Apenas por um segundo. Mas vi. — Claro. Disse ele. Forçando um sorriso. — Não tem problema. — Obrigada por entender. levantei-me e peguei minhas coisas e fui embora
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