O silêncio que se seguiu ao abraço da minha mãe era tão pesado quanto o ar saturado daquela casa, uma mistura tóxica de mofo, arrependimento e a presença invisível do monstro que roncava no quarto ao lado. Afastei-me devagar, sentindo cada fibra do meu corpo em frangalhos, a revolta borbulhando sob a pele como lava prestes a romper. Eu precisava de um banho, mas não um banho comum; eu precisava arrancar a camada de sujeira invisível que parecia ter grudado em mim. O cheiro de uísque barato do meu pai, o odor gélido do medo da minha mãe e aquele cheiro de asfalto e borracha queimada da viatura do Ricardo... tudo aquilo me sufocava. — Vai descansar, Mari. Eu vou... eu vou ver se ele precisa de alguma coisa antes de apagar de vez — ela murmurou, desviando o olhar para os próprios pés, os omb

