capitulo 14 Continuação

2490 Words
O silêncio que se seguiu ao abraço da minha mãe era tão pesado quanto o ar saturado daquela casa, uma mistura tóxica de mofo, arrependimento e a presença invisível do monstro que roncava no quarto ao lado. Afastei-me devagar, sentindo cada fibra do meu corpo em frangalhos, a revolta borbulhando sob a pele como lava prestes a romper. Eu precisava de um banho, mas não um banho comum; eu precisava arrancar a camada de sujeira invisível que parecia ter grudado em mim. O cheiro de uísque barato do meu pai, o odor gélido do medo da minha mãe e aquele cheiro de asfalto e borracha queimada da viatura do Ricardo... tudo aquilo me sufocava. — Vai descansar, Mari. Eu vou... eu vou ver se ele precisa de alguma coisa antes de apagar de vez — ela murmurou, desviando o olhar para os próprios pés, os ombros curvados como se carregasse um chicote invisível. Ela já estava voltando para aquele papel de sombra, de capacho, que desempenhava com uma perfeição trágica. — Ele não precisa de nada, mãe. Ele precisa de um choque de realidade que a senhora nunca teve coragem de dar, nem quando ele começou a vender os móveis, nem quando ele levantou a mão para a senhora pela primeira vez — respondi, minha voz saindo gélida, cortante como o vidro quebrado na cozinha. Entrei no meu quarto e bati a porta com uma força que fez o batente estremecer. O som do ferrolho correndo foi o único alento de sanidade naquela noite; era a minha pequena fronteira contra o caos. Joguei a mochila num canto, as alças surradas batendo no chão, e me despi com movimentos mecânicos. Entrei no chuveiro minúsculo, o box apertado parecendo uma cela. Deixei a água cair no máximo, quente o suficiente para ferver, para me queimar, para fazer minha pele arder até que eu não sentisse mais o rastro das mãos do Ricardo no meu braço ou o olhar de gado sendo avaliado daquele Daniel Bittencourt na faculdade. Saí do banho, o vapor embaçando o espelho rachado, vesti uma camiseta velha e me joguei na cama. O sono era uma necessidade física, mas minha mente era um tribunal em chamas, um campo de batalha onde as peças não faziam sentido. Sete milhões. Daniel Bittencourt. Como um homem que dita o futuro de uma universidade de elite, que caminha por corredores de mármore, se envolvia com um dejeto humano como o Francisco Lacerda? A conta não fechava, a lógica jurídica que eu tanto estudava parecia uma piada de mau gosto. Deitei, mas o teto parecia descer sobre mim, sufocando cada tentativa de respirar. Fechei os olhos e a imagem do Ricardo, aquele desgraçado fardado, surgiu com a nitidez de um pesadelo lúcido. O sorriso torto dele, a mão descansando no coldre com uma i********e obscena, a certeza absoluta de que o Estado era o seu capacho particular. Como um verme daqueles, que jurou proteger a sociedade, usava a farda para caçar a mulher que ele mesmo quebrou por dentro? A justiça no papel diz que ele é um agente da lei. Na vida real, ele é só um predador com licença para matar e um distintivo que serve como escudo para sua sociopatia. Eu sentia o desespero da Beatriz vibrando em cada terminação nervosa minha. Ela estava escondida naquele apartamento caindo aos pedaços, tremendo cada vez que um pneu cantava na curva, enquanto ele desfilava por aí com a moralidade de um juiz. No Brasil, medida protetiva é confete, é só um pedaço de papel que homens como o Ricardo usam para limpar a bota antes de entrar na casa da vítima para terminar o serviço. — Eu preciso tirar ela daqui — sussurrei para a penumbra do quarto, as palavras saindo pesadas, densas. — Preciso mandar a Bia para longe. Para fora dessa jurisdição, para fora desse estado, para fora desse país se for preciso para ela não virar estatística. Mas como? Eu não tinha um centavo furado. Minha bolsa de estudos, o único pilar que sustentava minha dignidade, estava por um fio de seda. Minha casa era uma ruína jurídica penhorada numa dívida de sete milhões. Meu pai era um viciado que me olhava como se eu fosse um cheque em branco de última instância. Eu era uma estudante de Direito que m*l conseguia advogar em causa própria, quanto mais organizar uma fuga contra um sistema aparelhado por agressores. Afastei os lençóis com um movimento brusco, sentindo a pele dos meus pulsos arder como se o metal ainda estivesse apertando. A luz da lua, pálida e indiferente, atravessava a cortina encardida e iluminava as marcas circulares que o aço do Ricardo tinha deixado em mim. Não eram apenas hematomas roxos; a pele estava em carne viva, esfolada, com crostas de sangue seco que desenhavam perfeitamente o arco da algema. Olhei para os meus braços e senti uma náusea violenta subir pela garganta. Aquele metal frio não tinha prendido apenas o meu corpo no asfalto quente; tinha tentado prender a minha voz, a minha vontade. Cada vez que eu fechava os olhos, sentia o tranco no ombro, ouvia o clique seco da trava e o sussurro venenoso dele prometendo acabar com a minha carreira antes mesmo de eu pegar a OAB. — Ser forte sempre dói — murmurei, e as lágrimas finalmente transbordaram, quentes e ácidas, descendo pelo meu rosto e pingando sobre as feridas abertas nos pulsos. — Dói pra c*****o. Eu não estava chorando de medo. O medo tinha morrido no momento em que eu vi o Ricardo levantar a mão para a Bia. Eu estava chorando de ódio. Um ódio puro, límpido, concentrado, que fazia meu peito doer mais do que o joelho ralado ou o couro cabeludo que ainda latejava onde ele tinha puxado meu cabelo. Como eu ia tirar a Bia daqui? Como eu ia enfrentar um sistema que coloca armas na mão de covardes? A noite não foi de descanso; foi de vigília, um ensaio mental de todas as tragédias possíveis. Acordei muito antes do despertador, muito antes do sol riscar o céu de cinza de São Paulo. Meus pulsos latejavam a cada batida do meu coração, um lembrete pulsante de que o tempo era meu maior inimigo. Lavei o rosto com água gelada, tentando desesperadamente esconder o inchaço dos olhos e a palidez cadavérica de quem não dormia direito há semanas. Vesti minha melhor roupa a única que ainda parecia "de doutora", a menos gasta, a que me dava uma armadura de seriedade. Cobri os hematomas dos pulsos com as mangas longas de um casaco de lã leve, ignorando o mormaço que já começava a subir do asfalto. Eu não ia cair sem lutar. Eu ia morder de volta. Cheguei à faculdade com o estômago embrulhado, o café amargo parecendo ácido. O pátio, que antes eu via como um templo de oportunidades, agora parecia um campo de minas. Cada passo que eu dava em direção à diretoria era um esforço hercúleo. Eu tinha os argumentos, tinha a justificativa legal do imprevisto por força maior, tinha meu histórico impecável de quatro anos sem uma única falta injustificada. O Direito é sobre justiça, certo? Pelo menos era nessa mentira que eu tentava acreditar enquanto subia as escadas de mármore. Parei diante da porta de carvalho maciço da diretoria. A placa de latão polido brilhava com o nome do Diretor. Respirei fundo, sentindo o ar queimar os pulmões, e bati. — Entre — a voz do Diretor reverberou, seca, desprovida de qualquer matiz de cordialidade. Entrei na sala ampla. O cheiro de livro caro, cera de móveis e o ar-condicionado no máximo criavam uma redoma de privilégio. O Diretor estava atrás de uma mesa de jacarandá, analisando papéis com a intensidade de um inquisidor. Ele não levantou os olhos de imediato. Deixou-me ali, parada, tentando mostrar uma firmeza que meu corpo trêmulo quase traía. — Senhor Diretor, bom dia. Sou Mariana Lacerda, do oitavo período. Vim tratar sobre a prova de Direito Civil de ontem. Houve um imprevisto grave, uma questão de força maior envolvendo uma ocorrência policial que me impediu de chegar no horário. Gostaria de solicitar formalmente a segunda chamada, conforme previsto no estatuto — disparei, as palavras saindo rápidas, mas precisas, como eu aprendera nos núcleos de prática jurídica. Houve um silêncio longo, pontuado apenas pelo zumbido do ar-condicionado. Ele finalmente ergueu o rosto, mas não havia empatia ali. Havia aquela frieza burocrática de quem já preencheu o formulário da sua execução. — Senhorita Lacerda. Estava justamente analisando o seu prontuário e a ata da prova de ontem — ele disse, fechando a pasta com um baque surdo que ecoou no meu peito. — Infelizmente, o sistema já processou a sua nota. O professor responsável seguiu a orientação institucional e lançou ausência definitiva. — Mas eu tenho direito a um recurso administrativo! — rebati, dando um passo à frente, a voz mais afiada. — Eu posso provar que fui impedida por uma situação excepcional. O regulamento prevê exceções para casos de urgência comprovada. O senhor não pode ignorar o fato gerador do meu atraso! O Diretor deu um suspiro cansado, recostando-se na cadeira de couro que rangeu sob seu peso. — O regulamento também prevê que a manutenção da bolsa integral, senhorita Lacerda, depende de um desempenho irretocável e do cumprimento rigoroso de todas as normas. Sua nota em Civil agora é zero. Isso não apenas mancha seu histórico, como joga seu coeficiente de rendimento para baixo do limite mínimo permitido pelo programa de bolsas da mantenedora. Senti um calafrio percorrer minha espinha. Minhas mãos, escondidas sob as mangas, começaram a suar, fazendo o tecido arder contra as feridas dos pulsos. — O que o senhor está querendo dizer com isso? — perguntei, a voz um tom abaixo, mas ainda firme. — Estou dizendo que, conforme a cláusula de desempenho e frequência, sua bolsa foi suspensa com efeito imediato por decisão do conselho. A partir deste mês, a mensalidade será cobrada integralmente. E o valor acumulado dos descontos deste semestre será revertido em débito. — NÃO! — Minha voz saiu num grito gutural que eu nem reconheci. O som ricocheteou nas paredes daquela sala luxuosa. — O senhor não pode fazer isso! Eu conheço o regimento interno dessa instituição melhor do que muitos docentes aqui! O senhor está me penalizando por um evento isolado de força maior, ignorando quatro anos de dedicação absoluta e notas máximas! Isso é uma aplicação desproporcional e ilegal da norma interna! É uma afronta ao princípio da razoabilidade! Apoiei as mãos na mesa dele, os dedos pressionando a madeira gelada. O atrito do casaco nas feridas dos pulsos enviou uma descarga de dor que me deu o foco necessário para não desabar. — Eu não aceito essa suspensão. Eu sou bolsista integral porque não tenho como pagar um único mês dessa mensalidade absurda! Se o senhor tirar isso de mim agora, está me expulsando do curso a dois semestres da formatura. Está jogando minha vida no lixo por causa de dezessete minutos de atraso causados por questões pessoais em casa! Eu exijo que meu recurso seja levado à congregação imediatamente! O Diretor largou a caneta de ouro e se levantou. Ele me olhou por cima dos óculos, e o que vi ali foi pior que raiva: era uma indiferença gelada, o olhar de um lacaio que apenas cumpre ordens de um senhor feudal. — Senhorita Lacerda, controle-se. Sua "exposição jurídica" não tem lugar aqui. A razoabilidade foi aplicada quando decidimos não desligá-la por mau comportamento no portão da faculdade. Outros alunos teriam sido jubilados por causar aquele tumulto. — Deixar eu continuar matriculada para me cobrar uma fortuna que o senhor sabe que minha família não possui não é razoabilidade, é deboche! É extorsão! — retruquei, o queixo erguido, os olhos fixos nos dele, recusando-me a baixar a guarda. — A senhorita está sendo insolente, o que só reforça a decisão do conselho. O conselho administrativo da mantenedora já revisou o caso ontem à noite, de forma extraordinária. Eles foram enfáticos: a regra de desempenho é o que mantém a credibilidade do nosso programa de bolsas. Não abriremos precedentes para "atrasos pessoais", seja qual for a natureza. — Ontem à noite? — Travei. O sangue sumiu do meu rosto, deixando-me gélida. — Como o conselho revisou isso ontem à noite se a prova foi ontem de manhã? O sistema nem teria tempo de processar um recurso que eu nem tinha protocolado! Vocês agiram de ofício para me ferrar? — A instituição preza pela celeridade nos processos que envolvem investimentos privados, Mariana. — Ele se inclinou sobre a mesa, o tom de voz baixando para um sussurro de advertência. — Escute bem, menina. Eu não sou seu inimigo, mas não sou eu quem dita as regras do jogo aqui. A faculdade sobrevive de doações e de investimentos pesados. Se um dos nossos principais mantenedores, alguém que injeta milhões aqui todos os anos, exige rigor absoluto na disciplina e no cumprimento de metas, nós simplesmente aplicamos. — Quem? — perguntei, sentindo um gosto metálico de sangue na boca. — Quem exigiu esse rigor todo especificamente comigo? Quem é o dono da coleira que o senhor está usando hoje? O Diretor desviou o olhar para uma pasta preta que estava no canto da mesa, uma pasta de couro caro que não pertencia aos arquivos comuns da universidade. Nela, eu vi o timbre que eu temia: Grupo Bittencourt. — O senhor segurança pode acompanhá-la até a saída se a senhorita não se retirar por conta própria. A decisão é irrevogável. O boleto de cobrança integral já foi gerado. O fiador do seu contrato de matrícula — seu pai, se não me engano — já foi notificado da inadimplência iminente e da perda do benefício. Passar bem, senhorita Lacerda. Saí da sala sentindo que o chão era feito de névoa. Tudo balançava. Fiador notificado. O nome do meu pai estava vinculado ao meu contrato. Corri pelo corredor, o coração batendo na garganta como um animal desesperado tentando escapar da gaiola. Se o meu pai recebesse aquele aviso de cobrança, ele ia surtar. Ele já estava no limite, vivendo sob a sombra dos agiotas e dos "homens do centro" por causa dos sete milhões. Se ele descobrisse que a bolsa a única coisa que ele ainda usava para fingir que nossa família tinha algum futuro tinha caído, ele ia me destruir. Ele ia me usar para pagar cada centavo, de um jeito ou de outro, para não ter o nome sujo enquanto tentava novos golpes. Parei no meio do pátio, ofegante. O sol de São Paulo estava começando a queimar, e eu me sentia sufocada, enterrada viva dentro daquele casaco. Olhei para os lados e vi o movimento normal dos alunos, gente rindo de vídeos no celular, gente reclamando de lanche... ninguém ali fazia ideia de que eu estava sendo triturada por uma engrenagem invisível e implacável.
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