Capítulo 10 continuação

3429 Words
Ele hesitou. Foi uma fração de segundo, uma micro-expressão de dúvida. Ele sabia que, se chamasse a central, deixaria rastros. Ele queria o medo, não o papelório. — Você está se metendo onde não deve, Mariana Lacerda — ele murmurou. — Não. Eu estou impedindo um abuso. E você sabe que eu tenho razão. Ricardo pareceu tomar uma decisão. Não foi um impulso de raiva, foi um cálculo frio. Ele percebeu que eu era o obstáculo lógico entre ele e o controle sobre a Beatriz. Num movimento bruto e inesperado, ele me empurrou com força de verdade desta vez. Eu não estava preparada para o impacto direto no peito. Meu pé falhou no meio-fio e eu caí de lado no asfalto quente da tarde. Senti o impacto rasgar a pele do meu cotovelo e o ar sair violentamente dos meus pulmões. O mundo girou por um segundo. O gosto de ferro sangue subiu na minha boca quando mordi a bochecha na queda. Mas eu ouvi. Eu ouvi o som do tecido da roupa da Beatriz sendo puxado com violência. Ouvi o desespero na respiração dela. Quando levantei o rosto, o asfalto arranhando minha bochecha, vi Ricardo arrastando Beatriz pelo braço em direção à porta aberta da viatura. Ela tropeçava, as pernas falhando, tentando inutilmente fincar os calcanhares no chão. — PARA! — ela gritava, a voz subindo uma oitava, carregada de puro pânico. — ME SOLTA, RICARDO! POR FAVOR! Ele abriu a porta traseira com mais violência ainda e tentou empurrá-la para dentro daquele cubículo de metal. Alguma coisa primitiva, algo que residia na parte mais profunda do meu ser, acordou. O medo foi substituído por uma adrenalina ácida. Eu não pensei nas consequências. Eu não pensei na farda. Eu só gritei com toda a força dos meus pulmões, um som que pareceu vir do fundo da terra. — SOCORRO! ELE ESTÁ SEQUESTRANDO ELA! SOCORRO! POLICIAL AGREDINDO MULHER! AJUDA! Minha voz ecoou pela rua inteira, rebatendo nos prédios. Eu me levantei mesmo com o joelho ardendo e a palma da mão em carne viva, e corri na direção deles como uma louca. — SOLTA ELA! — eu gritei para os vizinhos que começavam a aparecer nas janelas. — ELE NÃO ESTÁ EM OCORRÊNCIA! ELE É O EX-MARIDO DELA! ELE ESTÁ FORÇANDO! As pessoas começaram a virar o rosto. A inércia da rua foi quebrada. Uma mulher na padaria do outro lado da rua saiu para a porta com um rolo de massa na mão. Um homem parou a moto no meio do asfalto, tirando o capacete. Celulares a arma moderna contra o abuso começaram a aparecer nas janelas e nas calçadas. Ricardo percebeu o movimento. O braço dele apertou ainda mais o de Beatriz, os nós dos dedos dele brancos. — Cala a boca, sua v***a! — ele rosnou para mim, o rosto transfigurado. Eu não calei. Eu avancei mais, apontando para as pessoas ao redor. — GRAVA! GRAVA ISSO! — eu gritei para o garoto da moto. — ELE ESTÁ LEVANDO ELA À FORÇA! OLHA O QUE ELE ESTÁ FAZENDO! Aquilo foi a rachadura na armadura dele. Ele era um oficial. Ele vivia da imagem de herói da ordem. Ele não podia bancar o agressor armado em público com dez câmeras de celular ligadas. A fúria dele era imensa, mas o instinto de autopreservação de carreira falou mais alto por um momento. Ele empurrou Beatriz contra a lateral da viatura, tentando controlar a situação, tentando parecer que estava apenas "contendo" uma crise. Eu me joguei entre eles de novo, usando meu corpo como escudo humano. Ricardo, cego de ódio, me segurou pelo cabelo desta vez. A dor foi imediata e aguda, como se ele fosse arrancar meu couro cabeludo. Ele me puxou para perto, colando o rosto no meu. — Você quer brincar de mártir, Mariana? — ele sussurrou no meu ouvido, a respiração quente e podre de ódio. — Eu posso destruir você de formas que você nem imagina. Posso acabar com sua família. Posso sumir com você. Eu senti a lágrima de dor escapar, mas cuspi a resposta na cara dele. — Você já tentou destruir ela, Ricardo. Comigo o buraco é mais embaixo. Ele me soltou com uma brutalidade que me fez bater as costas na viatura. Mas eu aproveitei aquele milésimo de segundo de desorganização dele sob os olhares da vizinhança. Enfiei minha mão entre o braço dele e o de Beatriz, puxando-a com cada grama de força que eu ainda possuía. — CORRE! — eu gritei no ouvido dela. Bia hesitou por um segundo de terror puro. Eu a empurrei com as duas mãos, dando o impulso que faltava. — CORRE, BIA! ENTRA NA PADARIA! AGORA! Ela saiu cambaleando para trás, afastando-se da viatura e correndo em direção à multidão que se formava. Ricardo tentou avançar atrás dela, mas agora tinha gente perto demais. Um senhor de cabelos brancos se aproximou com um olhar severo. — O que está acontecendo aqui, oficial? Por que essa agressividade com as moças? Um garoto jovem, de boné, apontava o celular direto para o rosto de Ricardo, a poucos metros de distância. Ricardo viu a luz vermelha da gravação. Viu o desastre de relações públicas em que sua vida estava prestes a se tornar. E aquilo mudou tudo. Ele respirou fundo, fechando os olhos por um segundo, tentando forçar a máscara de oficial exemplar de volta ao rosto. Arrumou a farda com movimentos bruscos. Fechou a porta traseira da viatura com uma calma forçada que era mais aterrorizante que seus gritos. Depois, ele se virou para mim. O olhar dele não era mais explosivo. Era frio. Um gelo absoluto. Calculado. Perigoso de um jeito silencioso. Ele se aproximou devagar, invadindo meu espaço pessoal até ficar a poucos centímetros do meu nariz. Falou baixo, num tom que só eu e o microfone do garoto ao lado poderíamos captar. — Você não tem a menor ideia do erro catastrófico que acabou de cometer, Mariana. Eu sustentei o olhar dele, mesmo sentindo cada músculo do meu corpo tremer como se estivesse sob um choque elétrico. — O erro foi seu desde o momento em que achou que o distintivo te dava posse sobre a vida dela. Ele inclinou levemente a cabeça, um gesto quase predatório. — Você gosta de plateia, não é? De palco. De discurso bonito sobre direitos humanos. Mas a vida real, garota, não funciona com artigo de lei decorado. A vida real funciona com força. E a minha é maior que a sua. Ele manteve os olhos cravados nos meus. Sem pressa. Sem levantar a voz. A rua inteira parecia ter parado de respirar ao nosso redor. E então, ele sorriu. Não foi um sorriso de alegria, foi o sorriso de quem acabou de encontrar a brecha técnica para o bote. Ele falou alto o suficiente para que todos ouvissem, sua voz agora projetada com a autoridade de um comandante: — Senhorita Mariana Lacerda, você está presa em flagrante por desacato à autoridade, resistência ativa e obstrução de ação policial em andamento. A palavra “PRESA” caiu como um bloco de concreto no meio da calçada. O ar pareceu sumir da rua. Beatriz, que tinha parado a alguns metros, engasgou com o próprio choro. — Não! — ela gritou, tentando voltar. — Você não pode fazer isso! Ricardo, para! Ele nem sequer olhou para ela. O foco dele era eu. A vingança dele era eu. A mão dele já estava no coldre lateral, onde ficavam as algemas. O som metálico, o tinido do aço sendo puxado, ecoou seco e definitivo. Clique. Aquele barulho me atravessou mais que o empurrão anterior. Era o som da perda da liberdade. Eu ergui o queixo, lutando para manter a voz firme, embora minhas entranhas parecessem estar se dissolvendo. — Com base em quê exatamente, Ricardo? — perguntei. — Qual ocorrência você estava atendendo? Qual protocolo você acionou no rádio antes de me abordar? Onde estão seus direitos lidos? Ele deu meio sorriso lateral, um brilho de puro sadismo nos olhos. — Você quer formalidade? Eu vou te dar toda a formalidade que você aguentar, "Doutora". Ele segurou meu braço. Dessa vez não foi um empurrão explosivo. Foi um movimento preciso, treinado, técnico. A pressão foi aplicada no ponto exato do meu pulso para causar uma dor aguda sem deixar uma marca visível imediata. — Vira de costas. Agora — ele ordenou. Beatriz tentou se aproximar novamente, desesperada. — Não! Mariana, não deixa! Gente, ajudem ela! Ele está mentindo! Eu virei o rosto para ela, o cabelo bagunçado caindo nos meus olhos. — Bia, para! Não chega perto! — eu gritei, temendo que ele fizesse o mesmo com ela. — Eu não vou deixar ele te levar, Mari! É culpa minha! — Vai embora, Bia! — eu falei baixo, rápido, enquanto ele me girava. — Some daqui agora! Se você for presa comigo, ninguém tira a gente de lá! — Não! Ele puxou meu braço esquerdo para trás das minhas costas com uma força desnecessária. Eu senti o ombro reclamar, um estalo seco vindo da articulação. — Vira. Agora. Ou eu vou ser obrigado a usar força física para conter sua resistência — ele disse para a câmera do garoto ao lado, criando o álibi perfeito. Eu resisti por meio segundo. Só meio. Mas senti a tensão no corpo dele mudar de nível. Ele estava torcendo por isso. Ele estava salivando para que eu desse um chute, um empurrão, qualquer coisa que justificasse ele me jogar no chão e usar o joelho nas minhas costas. Eu não ia dar esse prazer a ele. Eu conhecia o jogo. Eu respirei fundo, sentindo o cheiro do asfalto e da farda. Virei de costas. — Estou colaborando — eu declarei em voz alta, projetando para as testemunhas. — Estou colaborando totalmente com a detenção e quero que fique registrado que não há resistência. O garoto da moto ainda filmava, as mãos tremendo levemente. O senhor mais velho estava ali, imóvel, parecendo confuso entre respeitar a farda e condenar a cena. Beatriz soluçava ao fundo. Eu olhei para ela por cima do ombro uma última vez. — Vai embora, Bia. Liga para alguém. Liga para o Dr. Arnaldo. Agora! Ele aproximou a algema do meu pulso. O metal frio encostou na minha pele quente e suada. Era um frio cortante, definitivo. — Você está cometendo um erro grave, Ricardo. — Eu avisei que você não devia ter se metido. — ele murmurou quase no meu ouvido, enquanto o primeiro arco de aço envolvia meu pulso. A primeira argola fechou. Não estava apertada demais ainda, mas o som foi como uma sentença de morte para a minha autonomia. Eu senti um nó na garganta, mas forcei a voz para fora: — Ele está me algemando sem informar o número da ocorrência, sem leitura formal de direitos e sem ter acionado a central de rádio! — gritei para a multidão. Ele apertou a algema um dente a mais. De propósito. Eu senti o metal morder a pele fina do pulso, pressionando o osso. — Cala a boca — ele disse, a voz agora rouca de satisfação. — Eu quero que conste que estou sendo detida após impedir uma agressão física contra uma mulher civil! — continuei, ignorando a dor. Beatriz deu um passo na nossa direção novamente, o rosto vermelho de pranto. — Não! Solta ela! Seu covarde! Eu girei o rosto o máximo que consegui, o pescoço doendo. — BIA, NÃO! SAI DAQUI! Ela parou, o medo finalmente paralisando seus passos. Ricardo fechou a segunda algema no meu pulso direito. Clique. Agora eu estava presa. Os dois pulsos unidos atrás das costas. O mundo, de repente, ficou menor. Mais pesado. Eu perdi o equilíbrio por um segundo, e ele me segurou com firmeza, me virando de frente para ele. O olhar dele era um aviso final de que as regras tinham mudado. — Você gosta tanto de plateia? Então presta atenção, Mariana. Presta bem atenção no que eu vou te dizer. Ele se inclinou, o rosto a milímetros do meu, falando num tom tão baixo que só eu podia ouvir, mas articulando cada sílaba com uma precisão sádica. — Eu posso te levar agora para a delegacia de plantão. Posso registrar tudo como agressão contra agente público. Posso dizer que você tentou tirar minha arma. Posso escrever no relatório que você incitou um tumulto popular contra uma guarnição em serviço. E sabe o que acontece depois? Processo crime. Audiência de custódia. Mancha eterna no seu nome. Ele inclinou a cabeça, os olhos brilhando. — Sua bolsa de estudos? Cancelada por má conduta. Seu estágio? Negado. Seu sonho de ser advogada? Barrado na investigação social do concurso. Eu acabo com a sua carreira antes dela começar, Mariana. Basta uma assinatura minha. Eu mantive o olhar firme, mesmo sentindo o suor frio escorrer pelas minhas costas e o peso das algemas puxando meus ombros. — E você vai explicar o vídeo que está circulando agora para a Corregedoria e para o Ministério Público? — eu perguntei, a voz estável apesar de tudo. Ricardo travou. Foi por meio segundo. Um lapso quase imperceptível. Mas eu vi. O brilho de pânico cruzou o olhar dele por um instante. Ele olhou de canto de olho para o garoto que ainda filmava com o celular estendido. Olhou para as senhoras nas janelas. A rua estava atenta demais. Havia testemunhas demais para ele simplesmente "inventar" uma agressão sem consequências. Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo com força sob a farda. Num movimento brusco, ele me puxou em direção à porta aberta da viatura. — Anda. Entra logo. Eu cambaleei, as mãos presas atrás das costas mudando meu centro de gravidade. Beatriz começou a soluçar de forma audível. — Mariana! Meu Deus! Eu parei o máximo que consegui antes que ele me empurrasse. — Bia, escuta! — minha voz saiu urgente. — Vai embora agora! Não fica aqui! Liga para a sua irmã, liga para o advogado do seu divórcio! Diz o que aconteceu! Não para de filmar, garoto! Ricardo apertou meu braço com uma força que me fez soltar um arquejo. — Chega de dar instruções. Você não é advogada de ninguém aqui. Eu virei o rosto para ele, os olhos queimando. — Está com medo de quê, Ricardo? De que eu conheça os meus direitos melhor do que você conhece os seus deveres? Os olhos dele ficaram negros de puro ódio reprimido. — Você realmente não faz ideia do tamanho do vespeiro em que meteu a mão, garota. — Eu sei exatamente onde eu meti a mão. Eu estou lidando com um agressor que usa uma farda como desculpa. Ele abriu a porta traseira da viatura por completo. O interior era escuro, cheirando a desinfetante barato e isolamento. Parecia uma jaula de aço. Ele tentou me conduzir para dentro, forçando meu corpo para o banco. Eu firmei os pés no asfalto com toda a minha força. — Eu não vou resistir fisicamente! — declarei alto, para a rua ouvir. — Mas quero que conste para todas as testemunhas que estou sendo levada por um policial que não informou o número da ocorrência e está agindo por interesse pessoal! O senhor mais velho, que estava apenas observando, pigarreou alto e deu um passo à frente. — Moço… o senhor oficial… isso aí está sendo filmado por muita gente. A gente viu que a moça só estava defendendo a outra. O senhor tem certeza que quer levar isso adiante? Aquilo foi a segunda rachadura. Ricardo parou. Ele ficou estático, a mão na minha cabeça para me empurrar para dentro do carro, a outra segurando meu braço algemado. Ele estava respirando pesado. Pensando. Calculando as variáveis. Se ele me levasse, teria que passar por um delegado. Teria que enfrentar os vídeos que apareceriam no YouTube e no i********: em trinta minutos. Ele seria o vilão da história, o policial que prendeu a "heroína" que salvava a ex-mulher. Ele fechou a porta da viatura com um estrondo violento que fez a lataria vibrar. Ficou parado ali por alguns segundos, de costas para a multidão, os ombros subindo e descendo. Ele estava em um beco sem saída estratégico. Ele se virou para mim devagar. O rosto dele estava a poucos centímetros do meu. A máscara de "oficial" tinha caído totalmente; ali estava apenas o homem ferido em seu ego, o predador que teve a presa roubada. — Você venceu essa cena de teatro, Mariana — ele murmurou, as palavras saindo como veneno puro. — Parabéns pelo seu momento de glória no t****k. E então, num movimento brusco e inesperado, ele me virou de costas outra vez. Senti a pressão no meu braço diminuir. Com movimentos rápidos e secos, ele encaixou a chave nas algemas. Clique. A pressão no pulso esquerdo sumiu. Clique. O metal saiu do pulso direito. Minhas mãos estavam livres, mas eu continuei imóvel. Os pulsos tinham marcas vermelhas profundas, o aço tinha deixado sulcos na pele. Ele guardou as algemas no cinto sem pressa, com uma frieza que me deu mais medo do que quando ele estava gritando. — Considerando que houve um tumulto generalizado e uma clara má interpretação da abordagem policial por parte das civis envolvidas — ele declarou em voz alta, a voz projetada para a plateia, voltando ao papel de autoridade — estou liberando a senhorita com uma advertência verbal. Que isso sirva de lição sobre não obstruir o trabalho da polícia. A palavra "advertência" quase me fez rir se eu não estivesse tão apavorada por dentro. Eu massageei meus pulsos discretamente, sentindo o sangue voltar a circular. Ricardo se inclinou mais uma vez, apenas para que eu ouvisse. O tom de voz dele era tão baixo que parecia um sussurro do próprio inferno. — Isso não acabou aqui, Mariana. Você me desafiou, me humilhou em público e me fez perder o controle na frente dessa gentalha. Eu não esqueço. E eu não perdoo. Eu sustentei o olhar, as mãos ainda trêmulas, mas a alma blindada. — Eu também não esqueço, Ricardo. E o vídeo não vai ser apagado. Ele deu um meio sorriso gélido, um olhar que prometia coisas terríveis. — Você tem mãe, não tem? Aquela dona Arlete, não é? O pai é o Francisco… — meu estômago despencou no abismo ao ouvir os nomes da minha família saindo da boca dele. — Cuidado ao atravessar a rua, Mariana. São Paulo é uma cidade perigosa. Acidentes acontecem com pessoas que não sabem onde é o seu lugar. A ameaça ficou suspensa no ar entre nós, palpável como fumaça tóxica. Ele não precisava dizer mais nada. Ele entrou na viatura, fechou a porta e ligou o motor. As rodas cantaram no asfalto quando ele arrancou, desaparecendo no fim da rua em alta velocidade. O silêncio que ficou para trás era pesado, sufocante. A vizinhança começou a se dispersar lentamente, comentando em sussurros. O garoto da moto guardou o celular e me deu um aceno rápido de cabeça antes de partir. Beatriz correu até mim, os olhos inchados de tanto chorar. Ela me abraçou com tanta força que eu quase perdi o equilíbrio novamente. — Meu Deus, Mariana… me desculpa… é tudo culpa minha! Olha o que ele fez com você! Olha os seus braços! Eu respirei fundo, sentindo o ar finalmente entrar nos meus pulmões de forma completa. Minhas mãos ainda tremiam, o joelho ardia e meus pulsos latejavam com o desenho das algemas. Mas eu olhei para ela e forcei um sorriso. — Ele não ganhou, Bia. Você está aqui fora. Você não entrou naquele carro. Ela olhou para o fim da rua, para o rastro de fumaça da viatura. — Ele vai voltar, Mari. Ele prometeu. Ele ameaçou a sua família. Eu olhei para os meus braços marcados pelo metal. O medo estava lá, sim, gélido e real. Mas, pela primeira vez na vida, ele não era paralisante. Ele era combustível. Era o fogo que eu precisava para entender que a lei não era apenas o que estava nos livros; era o que a gente defendia com o próprio corpo se fosse preciso. — Eu sei que ele vai voltar — eu respondi, minha voz saindo firme, forjada naquela tarde de asfalto e aço. — Mas agora ele não vai mais lidar com uma menina assustada. Se Ricardo queria uma guerra silenciosa, fria e estratégica… se ele achava que o distintivo o tornava intocável… ele acabou de escolher a adversária que vai usar cada artigo da lei para destruir o mundo dele, peça por peça.
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