NARRAÇÃO: MARIANA LACERDA O sol de São Paulo não pedia licença; ele atravessava as frestas das cortinas de seda cinza-chumbo como se também tivesse sido contratado pelo Daniel para me vigiar, denunciando cada partícula de poeira e cada fragmento da minha dignidade que se estilhaçava naquele quarto. Acordei com o corpo pesado, uma ressaca emocional que nem o lençol de mil fios egípcios conseguia aliviar. Eu ainda estava de camisola uma peça de seda n***a e gélida, cavada e insolente, que Mercedes havia deixado sobre o meu travesseiro como uma farda de luxo quando a porta do quarto foi atingida por três golpes secos, rítmicos e absolutamente autoritários. Antes que eu pudesse sequer processar o som ou cobrir os meus ombros nus, a maçaneta girou com uma petulância imperial. A invasão era o

