A subida daquela ribanceira foi um teste pra ver se o meu coração ainda aguentava o tranco. O barro escorregadio, a chuva fina castigando a minha cara e os espinhos rasgando a p***a da minha pele não eram nada perto da tempestade que tava destruindo a minha mente. Quando eu finalmente alcancei o acostamento da Linha Amarela, pulei a mureta de concreto e montei na XT 660. Bati na chave, o motor roncou grosso cortando o silêncio da madrugada, e eu rasguei o asfalto de volta pra Nova Esperança. O vento gelado batia no meu peito, mas por dentro eu tava fervendo, mermão. O sangue fervia igual água no fogo. O Benjamim tava vivo. Fodido, quebrado, talvez com o pé na cova, mas vivo. Alguém puxou a carcaça do Rei daquela areia e levou pra algum buraco. E se ele tava vivo, o jogo não tinha acabado.

