Quando sai da delegacia todos já tinham ido, estavam em um bar próximo, estava conversando, rindo e bebendo, pareciam felizes. Era uma coisa que nunca tive, o mais próximo de um amigo que tinha era Shaw, que na verdade, era como um pai para mim.
*Ligação On*
- Alô?
- Alice, como foi o primeiro dia? - perguntou Shaw.
- Complicado, mas tudo bem.
- Acredito que já tenha se recordado de Jesse Stockler?
- Por que me lembraria dele?
- Isso será muito bom, admito que queria estar vendo vocês dois.
- Shaw como assim? Sei que ele não é estranho para mim.
- Vai se lembrar. Estamos lidando com a Bielorússia com ajuda de alguns aliados que temos lá, mas não está sendo fácil.
- Contanto que não cheguem aqui.
- Eles não sabem onde está. Faça seu trabalho.
- Boa noite Shaw.
- Boa noite Alice.
*Ligação Off*
Cheguei em casa exausta, tomei um banho e fui preparar meu jantar. Sentei no balcão da ilha e tentava me lembrar de onde conhecia Jesse, minha cabeça estava quase explodindo. A companhia tocou e eu olhei pela câmera, era Parker, como sabia onde morava?
- Que faz aqui? - perguntei assim que abri a porta e ele levantou a mão com um vinho.
- Oi para você também - ele sorriu e entrou.
- Como sabia onde moro? - ele já estava na minha cozinha e abriu o vinho.
- Vi você nos olhando no bar e depois te segui até aqui.
- Daria um bom agente - falei e ele sorriu. - não devia estar em casa com sua esposa?
- Ela está visitando a mãe em Oregon. - assenti. - Olha, não liga para o Jesse, ele sempre foi o mais certinho entre nós.
- Eu sei como é. - peguei uma taça de vinho e ele fez o mesmo.
- Comandante, sério? - ele perguntou rindo e eu assenti. - Você derrubou Henry com facilidade absurda.
- Quando entrei no exército me empenhei muito, melhorei ainda mais quando passei agora a agência. - falei e ele assentiu.
- O que estava preparando?
- Massa ao alho e óleo. - ele raspou as mãos uma na outra. - senta, eu sirvo nós dois.
Ele se sentou e eu peguei dois pratos, nos servi e ele parecia ter adorado a massa. Era legal ter um amigo para conversar e Parker não agia indiferente comigo, falava como se eu fosse qualquer pessoa é isso era muito bom.
- Sabe, antes de chegar estava enlouquecendo tentando me lembrar de onde conheço o Jesse. - ele me encarou.
- Você conhece o Jesse de antes? - perguntou curioso.
- Sim, quando fui prender Russel, bati os olhos no Jesse e sabia que o conhecia de algum lugar. Mas ainda não consigo lembrar de onde. - falei decepcionada e ele riu.
- Bom, quando descobrir, por favor me conte. - ele riu e voltou a comer.
- É legal ter alguém pra conversar - falei tranquila e ele me olhou.
- Imagino que não tenha muitos amigos? - perguntou e eu assenti. - Acho que é uma das piores consequências ser agente.
- Talvez, mas um pouco sempre foi culpa minha. Sai muito nova de casa e era a mais nova a ter entrado no exército, nunca fui muito comunicativa e não são boa em fazer amizades.
- Bom, já que somos parceiros no trabalho, não vejo razão para não sermos amigos.
- Obrigado Parker. - sorri e ele assentiu.
- Não me agradeça, logo minha esposa vai querer conhecer você e de brinde tem meus filhos. - acabei rindo e ele balançou a cabeça.
- Eles devem ser um amor. - sorri.
- São a melhor coisa na minha vida. - disse ele tranquilo e o encarei.
- Imagino que sejam.
Logo depois que terminamos o jantar Parker foi para casa e eu me sentia mais tranquila que o normal. Me deixei e adormeci rapidamente, o que não acontecia com frequência, normalmente pensava muita coisa antes.
Acordei no dia seguinte mais cedo que o normal, então aproveitei para ir correr antes de ir para o trabalho. Voltei para casa, tomei um banho e vesti um jeans, botas, uma camiseta de botões e peguei minha jaqueta.
Cheguei na delegacia antes do pessoal, fiz um café e me servi, sentei em minha mesa e tinha uns e-mails de Shaw na caixa de entrada. Era sobre Bielorrússia e meu último caso lá, muitas pessoas foram mortas e a agência estava atolada até o pescoço tendo que apagar os rastros.
- Bom dia, comandante Hank. - disse Parker rindo e eu o encarei f**o.
- Me chama assim de novo e te ponho numa cela. - falei firme, Kyera e Matthew entraram atrás rindo. - Sabe que é apenas Alice.
- Acho que vai ser difícil pro Sr. certinho - disse Parker olhando para Jesse que saia da cozinha.
- Cala boca Parker. - rugiu ele soltando apenas um sorriso.
- Tudo bem? - perguntou Kyera percebendo que estava com olhar sério para o computador e todos me olharam.
- Tudo certo - forcei um sorriso e fechei a aba dos e-mails.
Eles ficaram conversando sobre baboseiras das quais não me prestei a dar atenção, então comecei a organizar minha agenda e fazer o que queria fazer a um bom tempo, escrever para minha irmã.
- Calma… - gritou ao telefone Parker. - fala devagar May… - o encarei e todos o olhavam preocupados. - Tá, vou ver se consigo ir. - ele desligou o telefone e veio até mim.
- Vamos junto Parker, no caminho você me conta. - falei tranquila e ele apenas sorriu. - O resto pode arrumar o que fazer, qualquer coisa chamo vocês.
Todos fizeram manifestações de querer ir juntos, demonstraram grande insatisfação quando disse para que ficassem e Parker e eu descemos para o estacionamento, entramos no carro e dei partida.
- o que aconteceu? - perguntei.
- May estava um pouco assustada no telefone. Só entendi que tinha uma garota, sequestrada e muito machucada no hospital. - apenas assenti.
- Por que ela estaria assustada? - ele me olhou aflito e voltei minha atenção para o trânsito.
- Acho que é a sobrinha da May, ela foi sequestrada a uns anos em Nova York. Tinha recentemente se mudado por causa da universidade, fizemos todo o possível para encontrá-la. - suspirou.
- Tudo bem.
Acelerei o carro e chegamos em menos de meia hora no hospital. Saltamos do carro e já tinham inúmeros repórteres querendo entrar no hospital. Entramos com dificuldade e segui Parker até o encontro de May, ela era uma mulher muito bonita e parecia bem jovem, loura e abriu um sorriso quando viu Parker, tinha os olhos vermelhos.
- May essa é a Alice, de quem eu falei.
- Foi com você que meu marido jantou ontem então - falou séria e depois riu. - Cheguei hoje de manhã e ele me contou, é um prazer te conhecer.
- Prazer May - sorri e ela retribuiu. - Então, o que aconteceu?
- É a Genevieve - ela olhou para Parker. - a ambulância a trouxe hoje mais cedo, disse que receberam uma ligação e quando chegaram no local só encontraram ela. - May dizia entre lágrimas e tentava se concentrar. - Ela tá muito machucada, tem vários ferimentos, ossos quebrados e sinais claro de a***o.
- E psicologicamente? - perguntei suave e ela apenas assentiu em prantos.
- May acha que ela falaria conosco? - perguntou Parker.
- Acho que sim, mas ela não falou nada desde que chegou. - respondeu com a voz embargada.
- Alice eu sei que não… - começou Parker e eu o interrompi.
- Vamos pegar essa caso. - falei firme.
- Levo vocês até ela.
May nos conduziu pelos corredores que estavam lotados, as pessoas andavam se acotovelando. Passamos pela sala de espera cheio de familiar uns aflitos, outos dormindo e alguns pareciam até despreocupados, seguimos para esquerda e entramos no elevador, ela apertou o andar 2º, Parker tentava acalma-lá e eu me mantive em silêncio, apenas observando. Saímos do elevador e acredito que era a emergência, estava lotada e com enfermeiros correndo por todos os lados.
- Sala 4 - disse May para nós.
- Não vai junto? - perguntou Parker.
- Rachel está vindo e preciso acalmar ela. - eles se despediram e fomos até a sala 4,
- Rachel é a mãe da Genevieve. - disse Parker antes de entrarmos.
- Genevieve? - ela nos encarou. Estava bem magra, com cortes visíveis no rosto, tinha os olhos fundos como se não dormisse a dias e um dos braços estava com gesso, tinha cabelos pretos escorridos, mesmo magra e na forma que se encontrava, era muito bonita.
- Genevieve se lembra de mim? - perguntou Parker. Ela apenas se encolheu e assentiu. - Essa é Alice Hank, trabalha comigo na inteligência da delegacia.
- Oi Genevieve, sei que deve ser difícil falar sobre isso agora, mas queremos ajudar você. - falei com a voz suave e ela deixou algumas lágrimas escorrerem.
- Ele, ele. - gaguejou ela e depois ficou em silêncio.
- Queremos te ajudar, mas precisamos da sua ajuda, proteger outras garotas do que ele fez com você. - ela me olhou nos olhos e segurou minha mão firma e eu sorri.
- Promete? - falou com a voz meio falha.
- Prometo. - acariciei sua mão e ela olhou para o Parker.
- Vou avisar o pessoal - disse Parker e saiu da sala assim que concordei.
- Então Genevieve… - ela me interrompeu com a voz mais calma.
- Gen, pode me chama de Gen. - sorri e assenti.
- Tudo bem Gen, você foi sequestrada a quanto tempo? Se lembra? - perguntei tranquila.
- Eu tinha 18 anos, os médicos da ambulância disseram que eu tinha sumido a cinco anos.
- Certo, se lembra onde ou o que estava fazendo quando levaram você?
- Tinha me mudado para Nova York, não lembro lugar que estava e nem o que estava fazendo. - apenas assenti. - Mas lembro quando ele me levou, colocou um pano com cheiro forte no meu nariz, quando acordei estava num lugar escuro.
- Sabe dizer onde era?
- Porta malas de um carro, demorou muito tempo até ele parar o carro e me tirar lá de dentro. Eu gritei, pedi socorro - ela começou a chorar.
- Tá tudo bem Gen, não precisa falar tudo agora.
- Eu quero ajudar, quero que ele pague pelo que fez comigo e com as outras. - a encarei.
- Outras? - ela assentiu.
- Parecia um porão onde ele me largou, tinha outras duas garotas, pouco mais velhas que eu e sumiram acho que uns meses ou um ano depois que cheguei. Quando as duas sumiram, ele apareceu com outra garota, ela era nova, tinha uns quatorze anos acho, logo apareceram mais duas, também eram jovens. - falei olhando para a parede da sala.
- Como você saiu? - ela me olhou rapidamente.
- Logo percebemos que ele descartava quando ficávamos mais velhas, não sei se ele matou as outras duas que estavam antes de mim. Me levou para meio de uma floresta, me fez cavar meu próprio buraco, ele com certeza ia me m***r e enterrar ali… foi um segundo, ele se distraiu um segundo, bati com a pá nele e corri o mais rápido que pude.
- Correu até Nova Jersey? - ela negou.
- Corri sem olhar para trás, era noite e quando clareou o dia que consegui chegar a estrada principal da cidade. Depois acordei aqui.
- Foi muito corajosa Gen - falei tranquila com um sorriso. - as outras continuam lá?
- Acho que sim, ele n******e saber que sobrevivi. - disse ela apreensiva.
- Não se preocupe. Já volta, tá bom?
Ela apenas assentiu e eu sai da sala, Parker vinha acompanhado de Jesse e Jessica.
- Parker precisamos da May. Jesse quero que você e a Jessica consigam dois policiais que confiem muito mesmo, para ficar aqui. - falei firme.
- O que vai fazer? - perguntou Jesse.
- É uma garota que está assustada, precisamos proteger ela e vamos ter que contar a maior mentira pra cidade toda. - falei quase num sussurro.
- Acha que vão acreditar? - perguntou Jessica.
- Vão ter que acreditar, precisamos que achem que ela morreu antes de falar conosco. Ela disse que o homem que a levou tem mais garotas com ele, não podemos arriscar que ele saia da cidade ou seja lá onde estiver.
- Isso se não tiver fugido - disse Jesse e eu apenas concordei.
- Vamos. - disse Jessica que saiu acompanhada de Jesse. Parker voltou com a May.
- O que houve? - perguntou May.
- Precisamos falar com a direção do hospital, precisam emitir uma nota urgente alegando que sua sobrinha morreu. - falei com a voz mais tranquila que pude e May me encarou incrédula.
- Porque? - perguntou ansiosa.
- May é para proteger ela e achar quem fez isso com ela.
- Tudo bem - ela disse já saindo quase que correndo.
- Acha que vai dar certo? - perguntou Parker.
- Precisa dar. - falei. - Parker precisamos que alguém fique com Gen aqui e converse com ela para colher o máximo de informação.
- Acho que Jessica lidaria melhor nessa situação. - o encarei. - Ela quem assumia a maioria dos nossos casos quando envolviam mulheres ou casos de estupros.
- Entendi, veja se ela pode ficar quando voltar com os policiais, vou ligar para a polícia de Nova York e ver se consigo cópias do caso da Gen. - falei já puxando o telefone e tinha várias ligações perdidas do Shaw, meu coração acelerou. - Assim que voltarem, preciso que volte para delegacia.
- Tudo bem.
Voltei para delegacia Kyera e Matthew estavam montando o quadro com a foto da Genevieve, e as informações que consegui lhes passar. Falei com o departamento especializado em sequestros e abusos de Nova York, disseram que encaminhariam cópias o mais rápido que pudessem.
Jesse e Parker voltaram juntos do hospital, começou a passar a notícia na TV quanto a falsa morte de Gen. Não fazia ideia de como iríamos conseguir ajudar, mas faria o que fosse necessário para isso.
- Oi - falou Jesse parado minha frente, me perguntei a quanto tempo já estava ali. - Achei legal ter aceitado o caso por causa do Parker. - ele sorriu e como eu me perdi naquele sorriso.
- Faria isso por qualquer um de vocês. - falei tentando ser firme. Ele me olhou indiferente antes de sorrir e assentir.
- Chefe - disse Parker e eu o encarei f**o, ele deu uma risada breve e se aproximou. - Jessica disse que transferiram a Gen para um ala do hospital que é bem reservada. Disse que os repórteres começaram a sair de lá já também e que Gen está mais tranquila. - apenas sorri.
- As cópias chegaram - falou Matthew.
- Vamos todos analisar com cuidado e anotar o que for importante, mesmo que seja algo mínimo. - eles assentiram e foram para suas mesas.
Começamos a olhar as cópias que encaminharam, tinham muitas páginas e com certeza ficaríamos quase o dia ali. Muitas vezes durante o dia fomos colocando mais informações no quadro, que estava a ponto de ficar sem espaço, Jessica mandava notícias de hora em hora, Gen ainda tentava lembrar muita coisa.
Estava exausta, cansada de ficar sentada e não fazer nada, levantei e fui até a cozinha preparar um café forte.
- Tudo bem? - perguntou Jesse entrando na cozinha e o olhei meio distraída. Ele tinha os olhos fundos, parecia tão cansado quanto eu.
- Tudo. Só cansada mesmo, queria fazer algo logo. - suspirei e ele sorriu.
- Acho que percebeu que não gostamos muito quando chegou, você meio que chegou tomando conta de tudo. - o interrompi incrédula.
- Não cheguei tomando conta de tudo. - repliquei e ele riu em silêncio.
- Chegou, mas depois vimos que não foi a intenção. Ficamos mais surpresos na verdade.
- Eu sei, acredite, não foi escolha minha vir para cá. - disparei e ele me olhou confuso.
- É uma pena. - nossos olhares se cruzaram e cada vez mais sentia que o conhecia. Meu coração estava acelerado ainda que eu tentasse o controlar. - Sabe, ainda acho que a conheço, só não lembro de onde.
Apenas sorri, era bom saber que não era só eu que tinha essa sensação. Apesar de que Shaw praticamente já confessará a mim que eu o conhecia, no entanto, era difícil entender porque Jesse mexia tanto comigo e como eu me sentia vulnerável perto dele.