LÁ VEM A NOIVA!

3820 Words
–– Eu sou Sophia Vasconcellos. – Me limitei. –– Sophia Vasconcellos Dutra, amiga. – Sol bateu seu ombro no meu, acrescentando o nome que não me pertencia. –– Para de graça, Solange! – Resmunguei. –– Olha, foi muito bom jogar com você, mas agora precisa devolver as minhas fichas. Tome aqui as suas coisas... – Devolvi seu cartão, chave e relógio. –– Claro. Meu funcionário irá entregar suas fichas com todo prazer, mas, depois que terminarmos com o nosso trato. Levantou o dedo para um homem que devia estar escondido entre as pilastras – porque eu não o havia percebido até o momento –– e ele veio rapidamente em nossa direção. –– Qual trato? – Lembro-me da sua proposta sem fundamento. –– Ah, qual é? Você estava falando realmente sério? –– Muito sério! O homem de terno preto colou no patrão e cochichou algo em seu ouvido. Aaron apenas balançou a cabeça afirmativamente. –– Mas isto é ridículo. Nós nem nos conhecemos... não sabemos nada um do outro. Pelo amor de Deus, você não vai querer ser meu marido. –– Isto só eu poderei dizer – ele ignora minha argumentação. –– O pedido está feito, não vou voltar atrás! –– Você tem um jeito bem estranho de pedir. –– Olha vamos ser práticos, eu te devolvo suas fichas e você entrega um documento válido ao meu funcionário, ele irá providenciar nossa licença em uma capela para realizar a cerimônia. Você tem dinheiro o bastante para providenciar um vestido, mas se quiser eu posso conseguir para você – me examinou dos pés a cabeça. –– Embora seus trajes sirvam perfeitamente para a ocasião... Me senti nua e invadida. –– Para, para... que loucura é essa? Sophia, você não vai fazer isso, vai? Você tem aversão ao casamento... – Nanda nos interrompeu. –– Mas nós não seremos um casal de verdade. Seremos? – Tentei amenizar, buscando a confirmação nele. –– Eu quero dizer, se casarmos aqui, nosso casamento não terá validade em nosso País ou em qualquer outro lugar, será apenas uma cerimônia dessas que vemos nos filmes... tudo encenação. Nada de verdade, apenas faz de conta! – Comecei a ponderar a hipótese. –– Com a licença poderemos fazer valer em nosso País ou em qualquer outro lugar no mundo. Claro que vai depender apenas de você... –– Engraçadinho! –– Sophia, você vai aceitar? – Sol estava ansiosa. –– Sou uma mulher de palavra meninas, se este é o único jeito de acabarmos com essa loucura e tirarmos esse cara do nosso caminho de uma vez por todas, então... sim, eu me caso com ele! – Anunciei. **** Deixei que Aaron levasse minha habilitação porque era antiga e já estava quase na hora de renová-la, voltamos para nossa suíte e eufóricas começamos uma megaprodução. –– Só temos uma hora meninas. Vamos logo com isso... a carruagem da noiva chega daqui a pouco. – Sol anunciou enquanto corria de um lado para o outro procurando roupas, sapatos, maquiagens e não sei mais o quê. –– Eu não estou acreditando que você, a nossa solteirona convicta, avessa a casamentos irá ser a primeira de nós a mudar de time! – Nanda me olhava incrédula enquanto ajeitava o meu cabelo. –– Não seja boba amiga, isto é apenas uma brincadeira estupida. Depois de pagar essa aposta ridícula ele segue o caminho dele e eu o meu. Fim! – Desdenhei. –– Será que ele vai se contentar apenas com esse casamento de mentirinha? –– Espero que sim! – Retoquei o rímel. –– Foi só o que combinamos... –– Mas todo casamento exige a noite de núpcias. De verdade ou não, vocês têm que consumar! – Sol parou de supetão entre nós. –– Está louca Solange? –– O que é? Vai dar uma de Virgem Santa pra cima de mim? – Estalou a língua. –– Não vai estar indo para a cama com qualquer um... ele será seu marido. –– Ele não será meu marido. Eu não irei para a cama com ele e essa história acaba assim que sairmos daquela maldita capela, entenderam? – Coloquei os pontos no "i". –– Ok, sra. Dutra, não está mais aqui quem falou!             Entrei dentro do vestido de noiva mais simples que encontramos na loja do hotel, serviu como uma luva e eu sequer pedi para ajustarem. Era liso, branco, modelo tomara que caia e com um véu curto, sem muitos detalhes. As meninas roubaram algumas flores de um vaso que estava dando sopa pelo corredor e fizeram um arranjo para meu cabelo, que mantive solto, apenas preso parcialmente, o suficiente para segurar o véu.             Se minha mãe visse o que estava prestes a fazer, certamente morreria de novo.             Como combinado, a limousine de Aaron nos pegou na porta do Caesar as 2h da manhã. Atravessei os corredores e saguão do hotel acompanhada de minhas madrinhas quase que despercebida. Afinal, mesmo vestida de noiva, acredito que era a pessoa com traje mais normal em todo o lugar, principalmente por que noivas, eram as coisas mais comuns de serem vistas transitando por lá.             O porteiro abriu a porta de saída com um sorriso simpático e me desejou felicidades. Agradeci estranhamente nervosa e me dirigi até o carro.             Preciso acabar logo com isso e voltar para a vida real. Aquela onde sou senhora de mim, dona do meu nariz e não precisarei me apresentar como mulher de ninguém. Mas antes... preciso fazer uma última parada!             –– Moço – cutuquei o motorista –– por favor, pare em qualquer lugar que venda souvenir! – Pedi. As meninas não entenderam nada, então encolhi os ombros e sorri encabulada. –– A aliança do noivo, gente!             Em frente a Capela Graceland, perdi a coragem de levar a história adiante e me recusei a descer da limousine.             –– Vai amarelar agora, Sofis? – Sol deu um tapinha em meu joelho.             –– Você não entende! – Respondi tremula –– não quero desistir... simplesmente não consigo sair daqui.             –– Isto é normal com qualquer noiva. – Olho para Nanda e ela se retrai. –– Bom, pelo menos foi o que me disseram.             –– Eu não sou uma noiva, Fernanda. – Estava contrariada. –– Eu estou uma noiva! É diferente.             –– Diferente em quê? – Sol replica. –– Casamento é casamento, amiga. Anda, vamos lá mostrar àquele t***o de pessoa, que você também é durona e não vai deixar ele levar essa.             –– Estou sentindo palpitações. – Me abanei, uma quentura subiu pelas costas. –– Parece que meu coração vai sair pela boca, estou a ponto de sufocar.             Sol joga-se para trás no banco.             –– Noivas! – Resmungou.             Alguém bateu no vidro e Nanda o abriu até a metade, o suficiente para o tal funcionário de Aaron colocar sua cara de m*l-encarado nela.             –– Senhoritas. O sr. Dutra já as aguarda lá dentro. Em cinco minutos começa a cerimônia de vocês.             –– CINCO MINUTOS! – Minha voz foi mais aguda que a da Celine Dion.             –– Sim. Foi difícil conseguir esse encaixe. – Ele explicou sem querer ser simpático com uma mulher a beira de um ataque de ansiedade.             –– Encaixe? c*****o, quantas pessoas devem se casar neste lugar, em plena madrugada? – Solange assoviou.             –– Se nos atrasarmos, perderemos a vaga e o dinheiro da reserva – o homem continua a falar sem o mínimo de interesse em nossa aflição. –– E eu preciso dizer que o sr. Dutra detesta perder tempo... e dinheiro.             –– Eu percebi! – Nanda pareceu resignada.             –– Só precisamos de três minutinhos e eu estarei lá! – Respondi com uma falsa coragem.             Ele assentiu e saiu sem mais uma palavra, mas, assim como eu, estava visivelmente contrariado.             Do lado de fora do carro me recompus enquanto as meninas ajeitavam meu vestido.             –– Tudo certo, amiga! – Nanda me encorajou.             –– Certo!             Repeti, respirando pausadamente.             –– Vamos – demos alguns passos em direção a entrada, e parei repentinamente. –– NÃO! – Gritei.             –– m***a! – Sol colocou as mãos na cintura.             –– Você não vai desistir, Sophia. Eu te proíbo! – Nanda decretou com firmeza. Depois olhou para a caixinha de veludo vermelho em formato de coração que eu segurava. –– Me dá aqui essa porcaria de anel, eu serei sua dama de honra! – Algo me disse que ela não estava feliz em assumir o papel.             Olhei a volta.             –– E o buquê, gente? Cadê o buquê? – Perguntei agoniada.             –– De onde você tirou essa ideia uma hora dessas?             –– Você nem queria se casar poucos minutos atrás – Nanda me segurou pelos braços. –– Agora está preocupada com um raio de um buquê?             Balancei a cabeça afirmativamente.             –– Os noivos da outra cerimônia já saíram. – Com a cabeça, Sol aponta um casal que passava por nós, abraçados e cheios de sorrisos.             Eu os observei caminhar até outra limousine que acaba de estacionar atrás da de Aaron. Mais uma dupla de loucos motivados pela magia do lugar.             Será que ao menos sabem os nomes um do outro? Me peguei pensando.             Ele todo de branco, com um terno que acentuava bem suas costas em "V", os cabelos loiros cortados bem baixos e a barba por fazer lhe davam um ar de bad boy, mas seu rosto angelical contrastava, dizendo que ele era apenas um bom rapaz, lindo e apaixonado. Ela de vestido de seda curtinho deixando a mostra as diversas tatuagens das pernas assim como as das costas expostas devido ao decote profundo, saltos altíssimos, muitas pulseiras e um cabelo modernamente cortado pouco a baixo da nuca dizia que era uma mulher segura e moderna, além de linda também. Um típico casal dos filmes de Hollywood.             Mas ela tinha algo a mais, algo que me fez prestar atenção neles. Ela tinha um buquê. Pequeno, mas m***a, era um maldito buquê.             –– Sofis. – Sol estalou os dedos nas minhas vistas. – Tique-taque, tique-taque... olha o tempo. Não vai querer deixar seu futuro marido nervoso antes mesmo de casar.             –– Pior. – Nanda reclamou. –– Sem casamento, sem pagamento de aposta e sem pagamento da aposta, sem devolução do dinheiro! – Ela fez questão de me lembrar do por que estou cometendo esta loucura.             Voltei minha atenção para elas.             –– Eu caso. – Disse. –– Mas me recuso entrar naquela capela sem um buquê! – Estava irredutível, ou quem sabe, apenas apelando para qualquer desculpa. –– Quem está indo pra forca sou eu. Se vou participar dessa palhaçada, tem que ser como manda o figurino. Eu lá sou mulher de fazer algo pela metade?             –– Anda... encontre um buquê para essa louca, agora! – Nanda saiu empurrando a irmã.             –– Ai meu Deus. – Sol se desesperou. –– Mas onde é que vou achar esse treco?             — Vem, vamos entrar na Capela. – Nanda puxou a irmã pelos braços. — Lá dentro deve ter flores, arranjos, sei lá... algo que podemos usar como buquê!             Elas saíram em disparada, mas antes de entrar, ouvi Nanda gritar em minha direção.             — Se você fugir... eu mato você! Eu juro!             Quando me virei novamente para a rua, dei de cara com a noiva que acabara de sair da capela.             — Take it! – Ela me estendeu seu buquê, falando em inglês, embora eu tivesse a impressão de que ela entendeu toda a nossa conversa. — A woman don't be a really bride without her bouquet. – Sorriu.             — Mas... – fiquei sem reação. — É seu. Não posso aceitar!             Nervosa e surpresa, não me dei conta que respondia em português.             — Não te preocupes. Para a minha surpresa, ela respondeu em uma espécie de “portunhol” enrolado, porém compreensível.             — Eu já me casei e estava mesmo preocupada em ter alguém para pegá-lo, quando eu o jogasse. – Colocou o pequeno arranjo de flores na minha mão. — Ainda bem que já encontrei a próxima felizarda.             — Valeu mesmo! – Aceitei grata.             Agora não tenho mais desculpas para não entrar na bendita capela ou receber a benção matrimonial de Elvis.             A noiva platinada e generosa analisava-me curiosa.             — You are brazilian! Aren't you?             — Sou sim! Dá pra perceber pelo sotaque ridículo? – Fiz piada sem graça e fora de hora.             — No es eso! – Fez careta, amenizando. — Tiengo una amiga brasileña, bom... ella vive en México desde niña, pero la beleza de las mujeres do Brasil é realmente inconfundível e inigualável. – Falou pausadamente, tentando se fazer clara dentro de sua completa bagunça misturando português com espanhol.             — Ah, entendi. Obrigada. – Corei com o elogio. — Bem, desejo que seja feliz... quero dizer, no seu casamento!             E sem que eu pudesse me preparar, recebi um abraço forte da mulher desconhecida.             — I’ll, certainly! – Beijou meu rosto. — And you, too!             — Amor! – O marido de parar o trânsito, chamou pela esposa. — Vamos, la limusina esta aguardando. – Seu sotaque entregava a procedência latina.             Ela acenou para ele e depois me olhou com seus grandes olhos verdes brilhosos. A felicidade irradiava por seus poros e o homem que a esperava não parecia diferente.             Não Sophia, eles não são uma dupla de loucos como você e Aaron. Eles se amam e se forem loucos, só pode ser de amor!             — Necessito ir. Mi mexican boy está ansioso. – Ergueu os braços e soltou um gritinho. — Honeymoon, baby! I love Vegas!             A recém-casada correu para os braços do marido que a recebeu num abraço apertado. Ele a envolveu em seus braços fortes, ergueu-a e a rodopiou.             Eu ri sozinha, aquela foi a conversa mais louca e surreal que já tive. Mesmo se atrapalhando com os idiomas, aquela mulher me transmitiu uma sensação boa e acolhedora.             De repente senti uma pontinha de inveja, mas uma inveja boa, de querer sentir ou viver algo assim tão intenso e verdadeiro.             Em instantes, um lampejo de juízo interrompeu meu momento de vislumbre.             m***a. Eu sequer perguntei o nome dela!             — Hey! – Gritei para o casal que acabará de entrar no carro. — You don't said me your name!             Com a cabeça para fora da janela e um enorme sorriso nos lábios, ela respondeu orgulhosa.             — Hillary, the newest Mrs. Gutierrez! But, you can call me Hillie. – Lança-me uma piscadela.             Enquanto o veículo se afastava, ela acenava dando tchau.             — Belo casal! – Aaron se materializou ao meu lado.             — São sim! – Suspirei. Mas então estalei, disfarçando o susto. — Epa! – Virei de costas. — Cai fora, agora!             — Como é? – Ele estranhou minha reação.             — Isso mesmo. Caia. Fora. – Repeti quase que soletrando. — Nunca ouviu dizer que dá azar o noivo ver a noiva antes da hora?             Ele riu, acredito que de alívio.             — Como minha futura esposa, você deve saber que eu não acredito em azar! – Ergueu os ombros. — Eu acredito apenas em apostas m*l estudadas e jogadas malsucedidas.             — Ah. – Respondi seca. — Isso quer dizer que...             Ele se aproximou malicioso e com o indicador ergueu meu queixo. O que me possibilitou apreciar melhor sua beleza.             Esse ordinário é lindo pra burro!             — Eu já ganhei esse jogo, sra. Dutra. – Afirmou com propriedade. — Nada dará errado – sem prévio aviso pousou um suave beijo bem no canto da minha boca. — Te espero lá dentro. No altar! – Sussurrou próximo ao meu ouvido.             Uma onda de arrepios brincou pelo meu corpo.             Endireitei as costas, segurei meu buquê. Fiz o sinal da cruz e olhei para o céu.             Seja o que Deus quiser! Respirei fundo e me dirigi à porta que me levaria ao meu futuro marido. **** Vinte minutos depois, eu estava de volta ao lado de fora da capela, mas agora, ostentando um pesado anel de brilhantes que alimentaria pelo menos cinco famílias de dez membros na Etiópia. — Aposta paga, sr. Dutra! – Disse satisfeita com minha coragem de encarar tamanha loucura. Nem foi tão difícil assim! E eu não vou negar que tirei uma casquinha quando o Reverendo Elvis disse que ele poderia beijar a noiva. Aaron inclinou meu corpo como acontece no cinema e me tascou um beijaço que deixaria as atrizes de Hollywood chorando de inveja. Minhas amigas pelo menos choraram. — Você realmente é uma mulher de palavra, sra. Dutra! – Respondeu em aprovação. — Agora que estamos quites, você pode passar minha grana pra cá. – Tirei o anel de brilhantes. — E isto aqui, é seu! – Peguei sua mão e depositei aquela riqueza nela. O homem com olhos de cor indefinida observou a aliança na sua palma, deixou escapar um meio sorriso e então a fechou, fazendo o anel sumir de minhas vistas. — Sabe de uma coisa? – Me encarou. — Diga-me. — Para um casamento ser completo, ele precisa de uma festa. – Seu rosto se iluminou. — Eu ouvi: festa? – Sol apareceu ao nosso lado. — Ouviu sim. – Nanda respondeu por nós. — Pra mim já deu, gente. – Levantei as mãos. — Sério. Estou cansada e essa brincadeira já foi além do esperado! — Eu tenho uma suíte presidencial no Bellagio! – Meu recém-futuro-ex-marido não deu a mínima para o que eu disse. — E um serviço de quarto completo. Podemos comemorar esta data especial lá... ou você pode sugerir outro lugar... esposa! — Tá de brincadeira? – Resmunguei. Ele continua a me devorar com os olhos. — Eu acho que ele não está brincando não, Sofis! – Sol agarrou minha mão e me puxou para a limousine. **** Não aceitei ir para a suíte dele. Casar com um completo desconhecido ainda vai, mas fazer festinha em seu quarto, não mesmo. Quem ele pensa que eu sou? Achou que iria me levar junto com minhas melhoras amigas para o seu matadouro e consumar nosso casamento em grupo? De jeito nenhum, lindo!             Ao contrário disto, fomos à uma boate e lá, me senti a vontade para tomar um porre e dançar feito louca no balcão do bar. Jogando meu buquê para os estranhos que participavam da minha festa. Afinal, era meu casamento e eu estava comemorando-o até a última gota.             Quando deixamos o bar, o dia já dava sinais de que iria chegar e eu estava completamente destruída. Precisava urgente de um banho e cama.             Aaron nos deixou do outro lado da rua do Caesar. As meninas já estavam bêbadas o suficiente para despedidas, então reuniram o que sobrou de seus corpos e se arrastaram em direção ao hotel.             Nós rimos do modo como uma tentava manter a outra em pé.             — E aqui é o fim o nosso faz de conta... – cortei o clima de distração.             — Tem certeza que não quer torna-lo vida real? – Perguntou sério, roçando a mão dentro do bolso da calça e então tirou a aliança milionária de lá. — Só que este anel não é faz de conta. – Ele empurrou delicadamente o bambolê de ouro branco e pedras brilhantes de volta ao meu anelar.             Não consegui pronunciar uma só palavra.             Mas ele espertamente entende meu silencio.             — Bom, de toda forma você terá o seu cheque ainda hoje! – Estava frustrado.             Me senti uma tremenda estraga prazeres, mas não podia levar isso adiante. Nem por brincadeira.             — Se faz alguma diferença, saiba que: até que eu gostei de ter sido a sra. Dutra por algumas horas. – Beijei seu rosto, grata. E ostentei meu dedo anelar na frente dele. — Esqueça o cheque. Esta belezinha aqui, com certeza já pagou a conta!             Ele beijou meu dedo e sorriu.             — Isto é um presente. E eu sou um homem que cumpre com o prometido. – Ele falou tão baixo, quase sussurrando, ainda assim pude ouvi-lo.             Nossos olhos perderam-se uns nos outros, segundos talvez, porém, muito intensos. Ainda agarrado aos meus dedos, me pediu:             — Não venda, é seu!             Claro que eu não iria vende-lo. Que tipo de mulher teria coragem de se desfazer de algo tão lindo? Mas é óbvio que eu ainda iria querer meu cheque, apenas joguei um verde. Queria ver qual era a dele, dei a última oportunidade de ele transformar uma noite maravilhosa em um desastre. No fundo eu precisava que ele me decepcionasse para que quando me lembrasse daquele rosto hipnotizador, pudesse sentir raiva ou qualquer coisa negativa que não fosse saudade.             Mas ele tinha acabado de me decepcionar em não me decepcionar.             — Sofis... – Sol gritou do outro lado da rua. — Anda logo! – Disse emburrada. — O dia está amanhecendo e eu estou morta de sono.             Foi a deixa para que eu fugisse daqueles olhos famintos, antes que me arrependesse de não ter aceito o convite de ir conhecer sua suíte.             — Já estou indo! – Gritei para ela.             — Se demorar mais um pouco, vou deixar o corpo desta bebum aqui no meio da calçada! – Nanda resmungou.             — Tenho que ir! – Olhei para Aaron. Algo me fez querer ficar. Mas achei prudente me despedir. Isso não pode continuar, Sophia! — A gente se vê por ai!             — Com certeza que sim! – Me roubou um beijo ardente. De tirar o fôlego.             Minha reação foi me afastar sem prolongar o assunto ou a despedida. Precisava correr para bem longe daquela perigosa tentação.             Este homem podia ser o mais rico, lindo, charmoso e sedutor que cruzou meu caminho... só que eu tinha metas, objetivos e estava decidida a começar a vida sozinha, pois havia perdido minha avó apenas um ano antes, e não seria ele e seu belo par de olhos que iriam me tirar do caminho que havia traçado.             Atravessei a rua correndo sem olhar para trás.             Quase do outro lado, senti o peso da aliança escorrer pelo meu dedo, ao levantar a mão na tentativa de evitar que ela caísse, acabei a arremessando longe.             O tilintar da joia batendo no asfalto me fez ver onde ela havia caído. Não pensei duas vezes, voltei para trás afim de resgatá-la e hoje sei que este foi meu grande erro.             Um carro em alta velocidade veio na minha direção, depois disso, tudo que consigo lembrar é do barulho ensurdecedor, um misto dos gritos de Aaron e minhas amigas junto a buzina e freada seca dos pneus, a luz alta dos faróis que cegaram meus olhos e o impacto do meu corpo sendo arremessado longe.             Essas são todas as lembranças que tenho em minha mente daqueles segundos de horror que vivi há onze meses.
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