TEMPO PERDIDO

2178 Words
                Dias atrás descobri que por pelo menos duas semanas antes, já dava sinais de estar querendo acordar: abria os olhos mas continuava alheia, mexia os dedos, então os médicos decidiram que era hora de me deixarem à própria sorte e despertar por mim mesma. Já fazia um tempo que não estava entubada e os medicamentos foram diminuídos até serem suspensos. Mas minha consciência, minha noção do que acontecia a minha volta, essa só despertou há poucos dias. ****             Há uma semana, para ser precisa, eu abri os olhos conscientemente pela primeira vez em muito tempo. Sendo ainda mais honesta, essa foi a vez que eu realmente me lembro, pisquei algumas vezes até me certificar de que não estava em um sonho.             A primeira imagem familiar que identifiquei, não era tão familiar assim e também não era bem uma imagem, mas sim um rosto.             O rosto diabolicamente lindo... do meu marido!             Ele estava paralisado, como uma pintura. Seus olhos arregalados, abatidos em um semblante cansado.             Com certa dificuldade na fala, porque minha garganta doía parecendo estar inflamada, perguntei a ele o que fazia ali e onde estavam minhas amigas. Ele respondeu algo que eu já sabia: estava em um hospital e junto com as meninas, se revessava para me acompanhar. Aquele era o seu turno.             Ainda zonza e completamente perdida, com a cabeça pesada e s*******o de nada, quis saber quantas horas fiquei desacordada e ele estranhou minha pergunta. O que me surpreendeu grandemente.             — Horas?             — Caramba, devo ter apagado por dias. – Cocei a cabeça me situando. Ele continuava observando-me curioso, mas não disse nada. — Bom, pelo menos não morri... – mesmo desnorteada e com a fala mole, tentei fazer piada para deixá-lo mais tranquilo.             — Você se lembra... se lembra do acidente? – Foi cauteloso ao me perguntar.             — Claro que eu me lembro... – sei que fui atropelada por que me descuidei. Mas naquele momento me sentia bem, apesar do desconforto, dor de cabeça e confusão mental. — Bom, não tão claro assim... ainda consigo lembrar das meninas me chamando do outro lado da rua, daqueles carros vindo de todos os lados e a imagem mais forte na minha cabeça é o barulho da freada brusca antes do carro me atingir. Nossa, só de lembrar, me dói a cabeça!             — Mas aquilo... – ele demonstrava estar tão confuso quanto eu. Algo em sua atitude me dizia que meu acidente não foi tão simples. — Aquilo foi em Vegas! – Levantou-se afoito.             — Óbvio! – Será que ele foi atropelado também? — Onde mais poderia ser? Afinal de contas onde é que nós esta...             Meus olhos pairaram por meus braços e pararam em uma pulseira de identificação no meu punho direito.             Há algo de muito errado no País das Maravilhas!             Percebi, pelas inscritas em alguns utensílios, que estava internada no Instituto Doutor Adolfo Vieira em São Paulo, imediatamente minha cabeça começou a latejar. Aflita, olhava por todo o quarto quando notei tudo escrito em português.             — Aaron... – umedeci os lábios, estava fatigada. — Aaron o que que está acontecendo? Por que eu estou em um hospital no Brasil? Quanto tempo eu dormi? – Instintivamente comecei a passar a mão pelo corpo em busca de algo que me desse repostas. — Eu... e-e-eu quebrei alguma coisa? Tive alguma sequela grave? O que está acontecendo? – Desesperada comecei a gritar.             Aaron desesperou-se junto comigo e sem saber como me acalmar, correu para o meu leito e me cobriu com seu abraço tentando conter-me. Meu escândalo foi tamanho que uma enfermeira entrou no quarto.             O homem que me segurava com angustia, pediu para que a moça me fizesse companhia, mas com a ressalva de que não me desse nenhuma informação enquanto ele não voltasse.             Antes que pudesse me soltar a enfermeira trocou a bolsa de soro e meus olhos começaram a ficar pesados, rapidamente minha visão estava turva. ****             — Ei dorminhoca, acorde! – Sol passava a mão sobre a minha.             — Soooool... – balbuciei sonolenta demais para abrir os olhos.             — Sim, minha linda – a voz dela fraquejou. Mesmo sem vê-la, eu sabia que estava segurando as lágrimas. — Sou eu! – Sorriu.             Lentamente abri os olhos ainda preguiçosos, queria ver minha amiga, olhei em volta e percebe que além dela, também estavam Nanda, Aaron e um homem o qual eu deduzi ser um médico.             Pelas roupas trocadas e alinhadas de Aaron e sua barba feita, notei que devo ter dormido de um dia para o outro.             Voltei meus olhos para Sol. Seus cabelos estavam compridos. Estranhamente compridos, tipo, cobrindo os s***s. Solange costumava ter cabelos rebeldes e num vermelho gritante, cortados modernamente no máximo até a altura dos ombros há muitos anos.             — Boa tarde, sra. Dutra, eu sou o dr. Roberto Alonso – o completo desconhecido começou a se apresentar, me tirando a atenção de minha amiga. — Sou responsável pelo seu caso, acredito que você tenha inúmeras perguntas à serem respondidas e estou a sua disposição para que não tenha nenhuma dúvida. – Sua fala era calma e lenta. Será que ele pensa que desenvolvi alguma demência? — O que peço neste momento é um pouco de paciência e tranquilidade, tudo será esclarecido. O mais importante é que agora você está bem, órgãos funcionando devidamente, nenhum osso fraturado, reflexos perfeitos, recuperação rápida e satisfatória, a movimentação e dores no corpo serão algo que só se normalizarão com alguns dias e a ajuda de fisioterapias frequentes devido ao período que esteve imóvel e inconsciente, mas isso é normal. A dificuldade na fala também será resolvida com um acompanhamento junto a um profissional de fonoaudiologia. As dores na garganta são resultadas do tempo de intubação que acabam machucando um pouco e incomodando, mas tudo voltará ao normal em breve...             Período que fiquei imóvel? Fisioterapia? Fonoaudiologia? Mas que bosta aconteceu comigo?             — Porém, agora que você está de volta precisamos fazer alguns exames de praxe para assegurar que não há sequelas ou qualquer outro problema que não foi possível detectar enquanto estava desacordada.             Um silêncio enervante pairou no quarto. Todos me olhavam ansiosos. Compreendi que eles esperavam por uma reação minha. Algum alerta para que eles pudessem ter certeza de que eu estava realmente entendendo o que me ocorreu.             — Em coma, o senhor quer dizer? – Falei com uma pontada de esperança em estar completamente errada.             — Exatamente! – O doutor foi seco e cortante.             — Tudo bem. – Balancei a cabeça para cima e para baixo. Os olhos das meninas não se moviam. — Eu entendo que algo de muito sério e grave deva ter me acontecido. Mas no momento eu só queria saber quanto tempo eu fiquei em coma, e por que na minha pulseira está com data de internação de 17 de setembro de 2013, se eu sofri o acidente no dia 14 de fevereiro de 2013?             Todos se entreolham, Sol e Nanda fizeram cara de choro com medo e pavor, Aaron parecia ressabiado e o médico aparentava esperar que alguém se manifestasse.             As expressões das minhas melhores amigas me preocuparam, eu busquei nos olhos delas a resposta que não queriam me dar. As conhecia bem o suficiente para saber que algo de muito sério havia acontecido.             O temor também se alastrou em mim, mas para que não me dopassem novamente, me deixando sem saber o que me aconteceu, segurei a respiração e fingi controle emocional.             Neste meio tempo uma enfermeira apareceu, pedindo que o médico a acompanhasse e ele se retirou, avisando que voltaria o quanto antes para terminarmos aquela estranha conversa.             — O que foi gente? Que dia é hoje? Não tenham medo de me dizer a verdade, seja qual for, eu preciso saber... tenho esse direito e quero que vocês me contem – perdi a paciência e o controle forçado foi para o espaço. — Agora!             — É melhor esperarmos o doutor voltar. – Nanda enfim abriu a boca.             — Sophia, você não sofreu um acidente naquele dia...             Como se minha voz tivesse o impulsionado para fora de um estado catatônico, Aaron começou a falar, mas foi impedido por Sol que entrou em sua frente.             — Ele está certo, Sofis. Não houve acidente nenhum naquele dia – ela pausou rapidamente, acredito que o fez mais para se preparar do que a mim. — O que houve foi um atropelamento causado por um i*****l irresponsável, completamente bêbado e drogado que te jogou do outro lado da rua, fazendo você bater a cabeça em cheio na guia. Aquele maldito, o cara que te atropelou, fugiu e sequer prestou socorro e por isso não estamos falando de um mero acidente. Estamos falando de um incidente. Um crime!             Processei a informação. O barulho dos freios volta à minha mente.             — Nossa! Deve ter sido uma cacetada e tanto, por que sinto dores pelo corpo até agora.             — Meu amor, foi praticamente um strike! Mas já passou e graças a Deus, você está de volta... inteirinha! – Nanda comemorou modestamente.             — Nós... estamos no Brasil, certo? – Tentei me situar e ter certeza de que estava no lugar certo.             — Sim! – Aaron respondeu — nós a trouxemos para cá, alguns meses depois do acidente, quando já era seguro fazer a remoção para o País, por isto a data de internação neste hospital é do mês de setembro.             Investiguei a expressão nos olhos de cada um. Todos pareceram de acordo.             — Mas se eu só vim pra cá em setembro isto significa que estou em coma há... sete meses? – Cobri a boca em estado de choque.             — Na verdade... foram quase onze meses! – Aaron corrigiu. — Estamos em janeiro, lembra? Você despertou ontem, no dia 6 de janeiro.             — Feliz ano novo amiga... – Sol vibrou baixinho, contendo os movimentos. ****             Aaron que havia pedido licença para nos deixar mais a vontade, voltou alguns minutos depois acompanhado do médico que agora parecia contrariado, o rosto já não era tão amistoso como quando apareceu mais cedo no quarto, profissionalmente ele confirmou tudo que eles já haviam me dito e fez inúmeras recomendações e explicações a cerca do que aconteceria dalí para a frente.             — Bom, acho que vocês têm muito o que pôr em dia. Vou deixá-los a sós por mais alguns minutos – o médico finalizou. — Lembrem-se, ela acabou de acordar de um longo período de coma e após um forte trauma, evitem assuntos desnecessários, grandes emoções e revelações fortes ou coisas do gênero. Ainda não sabemos se há algum risco com o qual devamos nos preocupar.             O médico voltou a me orientar a descansar e todas aquelas conversas fiadas com palavras técnicas que só eles entendem e nos deixam ainda mais apreensivos.             Esperei alguns segundos para ter certeza que a porta não voltaria a se abrir.             — Agora quero que sejam honestos comigo.             Segui falando baixo e pausadamente, pois o cansaço começou a me pegar e eu queria saber de tudo sem ter que tomar outro sossega leão ou desmaiar por mais um dia.             — Há algo que tenha acontecido em todo este tempo que eu deva saber? Se houver, desembuchem logo...             — Não querida. Imagine. Onze meses? – Sol olha para cima, fingindo puxar alguma lembrança. — O que iria acontecer em apenas onze meses?             — Seu cabelo, por exemplo! – Observei Solange. — Cresceu pra burro! E a cor? Amei que voltou ao natural.             — Fora isto, nada de muito emocionante... – ela olhou receosa para Aaron que a correspondeu.             — Mas o médico fez uma recomendação muito séria antes de sair... parece até que ele estava querendo dizer a vocês que não devem me contar algo.             — Coisa de médicos né, Sophia? Eles morrem de medo de ter seus pacientes surtando bem nos seus horários de plantão. Relaxa. Nada de tão bafônico aconteceu em todo esse tempo – ela se apressou em remendar. — E claro, você dormiu tanto, Bela Adormecida, com certeza o homem está louco para ver sua b***a branca longe daqui!             — Sofis, me diz uma coisa: Como você consegue lembrar assim com tanta segurança a data do seu acidente, digo, incidente? – Nanda, que apenas me observava, enfim se manifestou.             Estranhei que Nanda era a pessoa que menos falava, mais demonstrava preocupação e não parecia nada feliz por me ver de volta, mas não estava disposta a confronta-la naquele momento. Achei melhor deixar minhas pirações de lado e tratar do que era fato e eu tinha certeza, até aquele momento.             — Por que foi o dia do meu casamento, ué? – Dei os ombros.             Lembrei-me de Aaron colocando suas fichas sobre a mesa de jogos e profetizando nosso matrimônio, enquanto me desafiava.             — Érr... senhoritas, acho que já incomodamos demais a nossa paciente. – Aaron pigarreou. — Vamos seguir a orientação do médico e deixá-la descansar um pouco. Ainda teremos bastante tempo para as atualizações! – Cortou o assunto, parecendo não ter gostado de ouvir o que eu disse.             Se arrependeu de ter feito a aposta, sr. Dutra?             Não era preciso conhece-lo a fundo para saber que sim.              
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD