Eu não sabia que sentimento era aquele que tomava conta de mim, era novo e eu nunca tinha sentido antes.
Ramon foi o primeiro namorado que eu tive na vida, e era aqueles romances bem água com acuçar. O sentimento que eu tive por ele foi bom, mas nada que me trouxesse uma sensação de queima.
E bom, era assim que eu estava sentindo naquele momento, era como se Viego tivesse jogado gasolina e acendido um fosfóro e jogado em mim. E eu nunca tinha sentido antes, e por mais que a brisa da madrugada começasse a ficar gélida, parecia que meu corpo pegava fogo.
Suspirei, era muito, muito, cedo pra aquele tipo de sentimento. Eu estava confusa, vendo coisas, sentindo coisas, absurdas. Era coisa do meu subconsciente tentando escapar do sofrimento que Ramon me causou.
Eu estava vendo coisas não é? Por que um homem como aquele me daria bola?
Suspirei, olhando o relógio que já indicava a madrugada. As sextas eu ficava até quase o amanhecer, não parava de chegar cliente, então eu ficaria aqui até Chris me dispensar finalmente. A música ao fundo animada, as conversas e as risadas, nada disso condizia com meu momento.
Finalmente criei coragem para olhar o meu celular, e lá estavam mais de 300 mensagens e pelo menos 50 ligações perdidas. Ah Ramon, se você tivesse se empenhado de verdade no nosso relacionamento assim como você se empenhou em me pedir desculpas pelo celular, teria sido diferente.
Mas o sentimento que se apossava de mim enquanto olhava as diversas mensagens dele, tentando explicar o inexplicável: "Foi só essa vez" "Mas eu amo você" "Ela não é nada pra mim" " Me perdoa, por favor", não passava de pena. Eu sentia pena.
Por que apesar de saber que eu não era a mulher mais bonita que ele conheceu, nunca ele encontraria outra como eu. E é isso que eu repetia para mim como um mantra, tentando acreditar nas minhas próprias palavras.
- Luna.. - Chris me chamou, aparecendo de repente e me assustando. - Desculpe bonequinha, hora do seu intervalo.
Eu assenti, precisava sair um pouco mesmo de perto daquela música.
- Obrigada Chris, vou comer alguma coisa. - Falei, pegando minha bolsa.
- Precisa de dinheiro? - Perguntou gentilmente e eu neguei, abrindo um sorriso gentil para ele. - Você conhece os rapazes da área vip?
Meu coração gelou no mesmo instante, será que eu iria levar bronca por algo que eu nem fiz?
- Não, Chris. Porquê?- Me fiz de sonsa, o que não era totalmente mentira, eu não o conhecia.
- Um dos rapazes me perguntou se você estava para locação.- Meu coração na mesma hora quase saiu do meu peito, e meus olhos arregalaram instantaneamente.
- O quê? - Perguntei perplexa. Ele realmente achava que eu era uma stripper?
- Eu disse que não, é claro, mas se você tiver interesse, saiba que ele não é o único que pede. - Chris alertou, e um calafrio subiu toda minha espinha só de pensar em quantos velhos tarados tinham ali dentro. Claro que tinha noites de vantagens onde tinha rapazes lindos, geralmente em despedidas de solteiro, mas no geral só tinha velhos. Eu não prestaria esse papel.
- Fez bem Chris, não tenho interesse. Ainda não estou passando necessidade para chegar á esse ponto. - Murmurei, tentando não parecer rude, mas ele me conhecia, e sabia que eu não estava falando nada para magoar a pessoa que ele é.
- Fico aliviado, bonequinha. - Ele sorriu gentilmente. - Você é nosso tesouro, não gostaria de te ver naquele lugar.
- Obrigada Chris. De verdade.
- Agora vai lá comer alguma coisa. - Praticamente me expulsou enquanto me empurrava pra fora da boate, deixando um beijo no topo da minha cabeça.
Eu ri com sua atitude, claro, Christian era quase o pai que eu nunca tive. Se preocupava bastante comigo e até me protegia de alguns velhos tarados daquele lugar quando eu precisava. Eu gostava dele.
Sai em direção á um fast food da avenida e comprei um sanduíche pra comer, assim como um refri. Não era a comida ideal pra mim mas era suficiente pra matar a fome. Peguei para viagem e fui até meu lugar de costume, o beco da boate.
Ali era silencioso, vazio e escuro, ninguém me pertubava. A maior parte das pessoas que passavam por ali me conheciam, e por isso eu não tinha medo.
Me sentei numa caixa de madeira velha que eu usava como banco e comecei a comer meu almoço, se eu podia chamar assim.
Não costumava pensar muito no futuro, só sabia que eu queria ter uma casa e família um dia, mas como eu conseguiria isso, nunca de fato pensei direito. Pra mim, os planos com Ramon seriam para sempre, iamos casar, ter filhos e uma casa juntos. Nunca pensei em trabalho melhor, ou outro tipo de planos, e agora vejo que eu estava sendo ingênua demais.
Ouvi a porta da boate se abrindo mas nem me importei em ver quem era, geralmente era alguns babacas indo embora pelo fundos com uma garota que não a namorada, ou alguns fumantes que m*l passavam 2 minutos ali. Fiquei quietinha no meu canto, pra não chamar atenção, se eu não fizesse barulho ninguem ia me notar ali, como sempre foi.
Mas eu estava completamente enganada, como sempre.
- Luna? - Aquela voz familiar preencheu meus ouvidos e no mesmo momento eu senti uma repulsa enorme. Olhei pra cara do Ramon que vinha andando pra minha direção e suspirei. O que ele estava fazendo ali? - Estou tentando falar com você o dia inteiro.
- E eu ignorei todas as vezes, isso não é um sinal pra você? - Falei levantando da caixa que eu estava sentada, perdendo todo o apetite que eu estava sentindo e ganhando um nojo tão grande olhando pra cara dele, toda vez que eu olhava pra ele, lembrava da cena dos dois juntos.
- Você não me ouviu, Luna, vamos conversar, por favor. - Ele se aproximou, tentando pegar minha mão e eu recuei, não querendo sentir seu toque.
- Não temos nada pra conversar Ramon, nada, vai embora. - Pedi ainda educadamente.
- Vai ser assim? vai jogar tudo que a gente tem fora? - Ele jogou a pergunta no ar, me pegando de surpresa. No mesmo instante as lágrimas insistentes começaram a aparecer, junto com meu sorriso cinico, por que eu estava me sentindo uma palhaça.
- Eu que joguei nossos anos de relacionamento fora, Ramon? - Perguntei retoricamente, com raiva na voz. - Foi eu que me deitei com seu melhor amigo, na sua cama?
- Você está colocando as coisas num ponto muito maior do que deveria. - Eu tive que rir, não era possível que ele estava falando aquilo pra mim. - Vamos pra casa, vamos conversar.
- Não se aproxima de mim, não quero mais ver você, Ramon. - Apontei o dedo no seu rosto, mas ele não parecia nem um pouco intimidado. Me encurralou na parede, e eu não conseguia recuar, por que eu sentia repulsa, só de ele estar com o rosto perto do meu.
- Para com isso Luna. Você sabe que me ama. - As lágrimas desciam pela minha bochecha, raiva, decepção, não sabia o que sentir. Eu não conhecia mais esse cara, será que eu conheci ele algum dia de verdade?
- Vai embora, Ramon. - Pedi, baixo, sem abrir os olhos, sem olhar pra ele. Meu coração batia tão rápido que parecia que eu ia m0rrer de infarto a qualquer momento. - Por favor.
Naquele momento eu estava implorando pra ele sair de perto, não estava me importando mais com que tom eu estava falando com ele, eu só queria que ele sumisse da minha vida.
- Você ouviu o que a senhorita disse? - Uma terceira voz preencheu meus ouvidos, de longe, e eu sabia quem era. Ah eu sabia bem quem era, não tinha como errar a rouquidão da voz dele.
- E você quem é? - Ramon, respondeu incrédulo.
- Ela disse pra você ir embora, eu acho bom você ir. - Eu abri os olhos devagar, só pra vê-lo de longe e ter certeza de quem eu estava ouvindo. E eu não tinha errado.
Ramon começou a se afastar de mim, mas não por que ele pediu, mas por que ele queria enfrentar o outro.
Os olhos dele se encontraram com os meus e o conforto do qual ele me passou foi tão surreal. Por que ele estava fazendo isso?
- Você acha mesmo que eu vou perder uma briga pra um playboy como você? - Ramon falou cinicamente, e eu só conseguia pensar no quanto eu não conhecia ele. Nunca tinha visto esse seu lado r**m, nunca.
- Você quer mesmo tentar?
Ramon não pensou duas vezes e foi pra cima, meu coração na mesma hora apertou, e não por causa do meu ex babaca, mas por medo do Viego se machucar por minha causa, por separar uma briga que não era dele. Mas foi tudo diferente do que eu imaginava, quem levou uma surra foi o Ramon.
E que Deus me perdoe, mas eu gostei de ver ele apanhando, ele merecia.
- Isso é pra você aprender a respeitar o não de uma mulher. - Viego dizia, enquanto socava seu rosto.
- Chega, por favor. - Pedi, vendo que a briga já estava desbalanceada e que Viego podia acabar se encrencando por causa disso.
Ele me olhou, dentro dos olhos, e tenho certeza que viu o quanto eu estava aflita. Atendeu o meu pedido e soltou Ramon no chão, se contorcendo de dor. Arrumou a camisa e começou a andar em minha direção, e a cada passo que ele dava, mais meu coração se acelerava.
- Tudo bem com você? - Perguntou baixinho, trazendo a mão até minha bochecha e limpando a lágrima que tinha escorrido ali. Eu assenti, fechando os olhos enquanto senti seu toque na minha bochecha.
Por que aquilo parecia tão familiar? Por que era tão bom? Por que quando ele aparecia o mundo ao redor parecia não existir?
- Obrigada. de novo. - Agradeci baixinho, voltando a abrir os olhos e encontrar suas íris escuras me encarando. Seus olhos eram profundo, um misto de emoções misturadas que não dava para entender o que ele sentia. Mas sem nem conhecê-lo eu com certeza me jogaria no abismo que seus olhos eram.
Ele não falou mais nada, continuou a olhar dentro dos meus olhos, como se estivesse procurando algo no meu rosto, seu semblante era preocupado, como se ele me conhecesse e soubesse pelo que eu estivesse passando. Eu estava hipnotizada por seu olhar, e não conseguia desviar.
Percebi ele molhando os lábios com a língua e aquilo me deixou sem fôlego. O que estava acontecendo ali?
Meu celular começou a alarmar, indicando o fim do meu descanso, tirando nós dois da bolha que estávamos. Eu nem tinha percebido que eu tinha bloqueado todos os barulhos ao redor, e que estava envolto de silêncio.
- Eu tenho que ir.. - Sussurrei, sabendo que ele estava me ouvindo. Ele estava estático, me olhando.
Como se eu fosse a ovelha e ele o leão. Como se ele fosse me devorar.
- Posso ver você de novo? - Ele perguntou e eu fui pega de surpresa. O que ele tinha visto em mim?
- Se quiser anotar meu número.. - Falei, timida.
- Eu sei te encontrar. - Ele abriu um sorriso pequeno, sacana, e eu estremeci, enquanto dava alguns passos para trás, sentindo borboletas no meu estômago. Vendo a imagem dele ali parado, me olhando, e ao fundo Ramon no chão, se contorcendo de dor.
Eu só assenti. Não tinha entendido o que ele quis dizer com aquilo mas também não me importava.
Ele despertava em mim um sentimento que eu gostava, fazia eu esquecer da dor.
Eu gostava disso.
Dele....