Capítulo 2

1888 Words
Minha cabeça doía como nunca, o dia já tinha raiado no céu á muito tempo, o sol brilhava do lado de fora enquanto eu sofria horrores aqui dentro. Mas apesar do meu sofrimento, eu não podia me permitir ficar daquele jeito, não podia me dar ao luxo de perder meus empregos, se não eu não iria conseguir me sustentar e iria morrer de fome. Suspirei, sentada na minha cama, sentindo meu rosto inchado de tanto chorar, sabendo que aquilo não iria passar tão rápido como eu queria, fui até meu armário em busca de remédio para dor de cabeça e na tristeza engoli ele a seco mesmo. O que eu não recomendo. Coloquei a maquina de café para trabalhar e fui para o banho. Eu precisava daquilo, precisava deixar tudo de r**m sair, mesmo sabendo que demoraria muito tempo pra isso acontecer. Eu chorei tanto depois de voltar pra casa de madrugada, que já não tinha lagrimas pra derramar quando amanheceu. Passei pelo blazer do desconhecido jogado no sofá e fiquei encarando aquilo por um momento. Tinha sido um momento tão aleatório da minha vida que eu facilmente acreditaria ter sido um surto da minha mente magoada, se aquilo não tivesse ali no meu sofá. Eu nunca tinha visto ele por essa região, nunca, e olha que eu conheço quase todo mundo por aqui. Não fiquei pensando muito nisso, fui logo pro banheiro tomar banho, um banho quente e demorado, sentindo a dor da temperatura alta queimando minha pele sensível aos poucos. Eu sentia vontade de me punir por algo que não tinha sido minha culpa. Eu tinha consciência que não tinha feito nada de errado, e mesmo assim aquele sentimento me corroía. Sai do banho rápidamente e fui me vestir, me sentia fraca e precisava comer alguma coisa, não tinha feito isso á umas boas horas e eu sabia que não era saudável. Passei pelo meu celular diversas vezes, vendo ele vibrar desde ontem a noite, cheio de mensagens do Ramon. Eu estava sentindo ranço dele, não queria saber mais desse ser na minha frente, por isso eu estava ignorando completamente o celular. O sentimento amargo que tomou posse de mim por lembrar de todos os momentos que passamos juntos, todas as juras de amor falsas, me subia um calafrio. Iria mudar meu número o quanto antes e se conseguir, me mudar de casa, não duvido muito que ele começaria a vir ficar me atazanando em casa. Suspirei fundo e fui pegar um café, tomei puro, precisava colocar minha vida no eixo. Eu podia não ser a garota mais durona do mundo, quando eu precisava chorar deixava tudo sair de uma vez, e quando decidia seguir em frente, por mais recente que o fato tenha acontecido, eu seguia. Minha mãe me dizia que eu era muito sangue frio para essas coisas, e eu até discordava dela, se fosse assim por que eu sofria tanto? Por que doía tanto? Balancei a cabeça e afastei esses pensamentos ruins, não precisava deles no momento, voltar a chorar era a última coisa que eu queria fazer naquele momento. Encostei no batente da porta com o café em mãos e fiquei encarando o blazer jogado no sofá. Ele não iria sentir falta daquilo? Como eu faria pra devolver pra ele? Quem ele era? Qual seu nome? De repente a curiosidade falou mais alto e eu lembrei que não tinha olhado os bolsos daquilo. Até por que eu estava ocupada demais chorando para pensar em procurar alguma coisa da vida daquele estranho. Um estranho gato, charmoso e bem gentil. Tomei um belo gole do meu café e deixei ele na mesa do centro, sentei no sofá e comecei a procurar dentro do bolso daquilo. Não encontrei nada além de um cartão de visita. Madanni Interprises LTDA Bem, ele tinha cara de Madanni, um sobrenome bem sofisticado pra uma pessoa como ele, mas poderia ser de outra pessoa, da qual ele guardou ali. Tinha um número atrás, mas como era um cartão empresarial, não me atrevi a ligar, o máximo que eu conseguiria era falar com alguma secretária metida a b***a. E no final das contas, o que eu ia dizer? Bem, ele não deve sentir falta disso, já que deu pra uma completa estranha, as duas da manhã. Olhei para o relógio na parede e em algumas horas eu teria que ir trabalhar, acabei dormindo demais. Pelo menos agora eu não precisava me preocupar com ninguém. Soltei uma risada amarga, enquanto olhava as diversas fotos que tínhamos pela parede. Precisava jogar tudo aquilo fora, e eu faria aquilo naquele momento. Não tinha perdão o que ele fez, se tinha algo no mundo que eu não suportava era traição. ----------------/------------------- Eu estava pronta para o trabalho, dessa vez havia caprichado na maquiagem para esconder a vermelhidão dos meus olhos por causa do choro. Estava decendo as escadas, com uma sacola cheia de coisas do Ramon, desde as fotos, quanto algumas roupas. Joguei no latão de lixo e a raiva que eu sentia era tanta que acabei tacando fogo ali, só tinha minhas coisas mesmo. Assisti a chama consumir o saco aos poucos, queimando tudo que eu tinha daquele filho de uma mãe. E tentei deixar aquela chama consumir também o sentimento r**m que permanecia em mim, mas não era tão fácil assim, não é? Suspirei, e virei as costas. Eu sabia que se o pessoal da segurança do prédio soubessem que foi eu que coloquei fogo no lixo, eu ficaria na rua. Segurei forte minha bolsa e fui até a esteção de trem pra chegar até a boate, onde eu trabalhava. Eu era atendente de lá, pelo menos ainda restava alguma dignidade, e meu trabalho era limpo, sem precisa vender meu corpo pra ninguém. Ramon nunca gostou muito do meu trabalho, mas como ele estava apenas estudando, alguém tinha que bancar os passeios que ele tanto gostava de fazer. Ele morria de medo de que eu fosse largar ele por algum rapaz bonito e rico que aparecia direto na boate. Quem me dera ter feito isso. Teria sofrido menos. Ele tinha tanto medo porque era ele quem fazia isso comigo. Tudo fazia sentido pra mim agora, assim como muitas atitudes que ele tinha durante o nosso relacionamento. Se eu podia chamar assim. Respirei fundo assim que o trem parou na minha estação e eu segui meu caminho até a boate, que não era tão longe. Diferente do bairro que eu morava, ali era agitado, era pessoas para todos os lugares, alegres, bêbados. De segunda a segunda. Queria muito ter tanto dinheiro na vida para nunca mais precisa me preocupar que dia da semana era. Seria tão fácil. Mas enquanto eu não ganhava na loteria, eu tinha que trabalhar. - Boa noite Luna. - Meu chefe, sempre sorridente, me cumprimentou assim que eu cheguei no caixa. Era sexta feira, o dia que ele mais gostava, o dia que mais tinha gente, e o dia que ele mais ganhava dinheiro, assim como as dançarinas. As vezes eu me pegava pensando em desistir de tudo e me tornar uma, pelo menos elas ganhavam dinheiro á beça. - Chris. Boa noite. - Cumprimentei ele de volta, com um sorriso murcho, não é como se eu estivesse no meu melhor dia. - O que houve minha bonequinha? - Ele reparou no meu semblante triste. - Terminei com o Ramon, Chris. Não estou em um dia muito bom. - Falei a verdade, felizmente ali todos nós éramos amigos o suficiente para não precisar mentir. Até que trabalhar ali não era r**m, só queria ganhar mais. - Se anime, bonequinha, hoje é sexta e vamos ter bastante movimento, lhe darei um extra pra você se alegrar, tudo bem? - Eu abri um sorriso pequeno para ele, que piscou pra mim e saiu do caixa pra eu entrar. - Coloque o sorriso lindo que você tem no rosto, você é jovem, ainda vai amar muito. - Se eu pudesse evitar... - Falei baixinho, mais para mim do que para o Chris. Ele não me ouviu claro, mas estava tudo bem, não era para ele. O mesmo foi ajudar as meninas lá dentro, e eu arrumei o meu cantinho da solidão. Não demorou muito pra começar a chegar os homens, e até algumas mulheres, para festejar ali. O tanto de dinheiro que entrava naquele lugar era impressionante. Inteligente era quem fazia esse tipo de negócio, uma das industrias que mais lucravam. Apesar de não estar bem eu estava sorrindo, precisava, se eu perdesse esse emprego seria meu fim. Eu sabia que Chris não me demitiria assim por nada, mas eu sabia que ele não podia deixar o negócio parar, e se eu empacasse seu negócio, com certeza não teria amizade que salva-se. Nada fora do mundo até a madrugada começar a entrar. Um grupo de rapazes chegaram todos animados, nunca tinha visto eles ali, bem vestidos e animados, com certeza era o tipo que gastava bem. Arrumei a minha postura e coloquei o sorriso amarelado de sempre no rosto. E esperei para cobrar a entrada deles. Mas um rosto comum entre eles me chamou atenção. O cara da madrugada anterior estava entre eles. Mas diferente de seus amigos, ele estava mais sério, expressava algumas expressões para as piadas dos amigos, mas aparentemente ele era bem fechado, isso até ele olhar pra mim, a surpresa também apareceu em seus olhos. - Oi florzinha, seis entradas por favor, área vip. - Um dos amigos dele pediu pra mim, e eu assenti, toda nervosa, tremendo. Por que eu estava tremendo? - São $1200. - Falei, olhando para o rapaz e desviando meu olhar algumas vezes para o cara de ontem, que por sinal me encarava de volta. Minhas bochechas coraram automaticamente e eu desviei o olhar. - Passa no crédito, por favor. - Ele me entregou o cartão e eu assenti, me sentindo estranha. Meu corpo estava reagindo ao olhar do cara que eu nem sabia o nome. Era uma sensação estranha, estar sob o olhar dele. Fiz o meu trabalho e abri um sorriso, entregando o cartão do rapaz de volta. - Podem entrar, ao chegar na entrada da área vip basta informar seu nome e que eles são seus amigos, que vão autorizar a entrada. - Falei as instruções e eles nem sequer se importaram em ouvir, só foram entrando. Meu coração batia rápido, e eu nem sabia o por quê, mas o cara da noite anterior parou da minha frente, deixando seus amigos irem na frente. - Você. - Foi o que ele disse, e aquilo estranhamente arrepiou todo o meu corpo. Parei para olhá-lo bem dessa vez, e ele era muito, muito, lindo. O cabelo perfeitamente cortado e penteado, a barba bem feita, o sorriso sacana que eu já conhecia mas que nele parecia um charme. Ele tirou os olhos do meu e baixou, até o meu crachá. - Luna.. Meu nome deslizou em sua voz num tom ronco que fez minhas pernas tremerem. - Eu. - Foi a única coisa que eu consegui dizer de volta, encarando o rosto dele. - Não sei o seu nome. Ele abriu um sorriso, aqueles que derrete qualquer mulher, e piscou para mim, se afastando aos poucos. Mas antes de sumir pra dentro da boate, ele murmurou seu nome. - Sou o Viego, muito prazer.
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