Larissa narrando
Eu não consegui conversar com a minha mãe naquela manhã, ela falou na minha cabeça o tempo inteiro, mas eu só queria saber o que tinha sido resolvido pelo meu pai, enterro, as coisas dele, só isso, nada mais me importava naquele momento, eu não queria saber de promessas, de bajulações, e nada além disso.
Eu lembro que eu pedi um tempo a ela, pelo menos um dia, que eu ficaria ali na casa da tia, mas eu precisava passar por todo esse processo de velório, enterro, e tudo mais e tentar botar minha cabeça no lugar. Eu sentia que eu ia ter que lidar com muitas coisas, mas eu não imaginava que fossem tantas coisas assim no mesmo momento.
Ela foi no enterro comigo e a tia, e enquanto eu chorava sobre o corpo do meu pai, me despedia dele, prometia ser uma boa filha, ler todos aqueles documentos com calma, cuidar de tudo, me manter educada, responsável, e nunca perder a essência que ele me criou, eu era amparada e consolada pela tia zefa. Enquanto a minha mãe que teoricamente veio pra me proteger, me amparar, me ajudar, não saía do lado do meu tio que não parava de falar com ela, e ela parecia chocada, assustada, eu não sei bem descrever o que ela parecia naquele momento.
Mas ela era muito diferente de mim, não tínhamos nada em comum, suas roupas vulgares, seu cabelo loiro batendo na b***a, seus ouros nada discreto, uma aliança que tomava quase seu dedo inteiro, maquiagem forte mesmo para um velório, um vestido justo preto, que mesmo que fosse comprido, era extremamente sensual, salto alto, sabe uma pessoa completamente fora de senso, fora de eixo ? Então, ela era a descrição perfeita.
A hora de fechar o caixão eu me desesperei, eu não queria assumir essa nova realidade, uma realidade com uma mulher desconhecida e nitidamente sem valores, e sem o meu Porto Seguro do meu lado. Os meus gritos eram de dor, de desespero, de não querer aceitar que a vida tinha sido tão c***l comigo.
Como eu ia conviver com aquela mulher ? Como eu ia viver sob o mesmo teto que ela ? Como ia ser nossa relação ? Eu não queria aceitar sair do paraíso pro inferno.
Porque eu não fui criada naquela imagem que ela refletia, eu fui criada na calma, no amor, com zelo, zelo esse que não era refletido em ostentação, e eu não conseguia aceitar nada daquilo, era demais pra mim
— filha esse é o advogado do seu pai — a minha mãe se aproxima rápido com o meu tio, quase arrastando o próprio advogado, enquanto ainda fechavam a sepultura do meu pai, e eu estava explodindo de tanta dor de cabeça depois de ter recebido as condolências de tantas pessoas que eu nunca sequer vi a cara
Sobre a sepultura do meu pai tinham várias coroas de flores, vários nomes de empresas grandes que eu nem sabia que meu pai tinha contatos, muitos homens de terno, senhoras de classe vieram me prestar apoio, eu já estava surtando porque aquelas pessoas não eram do nosso convívio mas falavam do meu pai como se o conhecessem e o admirassem de uma forma que eu nem imaginava ver que ele era tão bem querido dessa forma me confortou muito
— mãe, agora não, eu não tenho cabeça pra isso por favor…— eu peço não querendo conversar sobre nada disso agora
— minha filha nós precisamos saber, e seu dinheiro — ela fala e eu já olho irritada pra dona zefa
Po, eu acabei de perder meu pai, e ela quer que eu fale de dinheiro ? O corpo dele ainda nem esfriou cara, que raiva. Em momento algum ela perguntou se eu estava bem, me deu um carinho, não fez p***a nenhuma por mim, e já queria falar de dinheiro ? Mas… vendo os trajes e os modos dela eu não poderia esperar muito de uma pessoa dessa, né ?
— na verdade — o advogado toma a voz e todos haviam percebido a minha irritação — todos os bens do seu pai estão bloqueados até você completar 18 anos, inclusive ações — ele olha pro meu tio — imóveis, contas bancárias, qualquer tipo de movimentação estará bloqueada, e sua tutela é da dona Zefa, você pode morar com a sua mãe, mas legalmente quem responde por você é a sua cuidadora, e você receberá um salário todo mês para se manter, até podermos voltar a conversar sobre o seu patrimônio nada poderá ser tocado — ele é bem incisivo nessa parte o que me angustiava ainda mais ao ver a cara da minha mãe e do meu tio
Eles ficaram muito revoltados, tentaram contestar de todas as formas, ambos ameacaram entrar na justiça, a fazer de tudo, mas o advogado foi claro que o testamento do meu pai era esse e não tinha discussão
— mãe, se você não quiser que eu more com você tudo bem pra mim, eu moro com a dona Zefa, eu dou o meu jeito, eu não quero atrapalhar a sua vida, e nem o seu casamento — eu falo cansada de todo aquele falatório, de toda aquela briga
— não. — minha mãe é firme após levar um cutucão do meu tio — você vai morar comigo, você é minha filha, você vai viver sob o meu teto — ela fala contra gosto nitidamente
— Andressa, ela pode morar comigo, moramos na mesma favela, não tem problemas, nós já estamos acostumadas uma com a outra, fora que pra você talvez gerasse complicações, né ? — a dona Zefa fala com um tom de deboche no final e naquele momento eu vi que ainda iria descobrir muitas coisas sobre a minha mãe…
— ela vai morar comigo, Zefa. Isso não tem discussão — ela fala e eu reviro os olhos
— ok, mas hoje eu não vou pra sua casa, amanhã voltamos a conversar — eu falo séria com ela — doutor, manteremos contato, obrigada por cuidar de tudo — eu falo apertando a sua mão
— disponha, o que precisar, qualquer dúvida, qualquer questionamento eu estou à sua disposição, a partir de hoje eu trabalho para você — ele fala firme e o “você”, foi bem específico sem deixar margens pra discussão
Meu tio saiu de lá sem nem olhar na minha cara, minha mãe foi o caminho todo no celular, e um silêncio enorme de vazio estava dentro de mim naquela hora…
Foi uma surpresa saber que ela esteve sempre tão perto e nunca cuidou ou fez questão de mim, e eu posso ser nova, e ainda não ter entendido muitas coisas que estão acontecendo, mas naquele momento eu soube que minha mãe ia ser um desafio e tanto para eu lidar, e eu tinha que me blindar e me preparar para lidar com qualquer coisa, eu tinha que descobrir quem era o meu pai, aquelas pessoas no velório, o porque de tanto poder que eu nunca entendi, e só uma pessoa poderia me contar tudo isso, dona Zefa…