Alícia narrando
O povo quando vê que a gente é preto, de cabelo cacheado ou Black, já acha logo que nós somos favelados.
Nos olham de cara torta e muitos ainda acham que vão ser assaltados por nós, porque pra eles todo preto é favelado e ladrão.
Acabei de passar por uma situação muito chata na faculdade de direito, que ironia, né?
Eu, estudante de direito estou sendo acusada de roubar o iPad da menina da turma.
Isso porque eu fui a última a sair da sala, como pode isso.
Minha cara já está quente, eu tive a minha bolsa revistada e mesmo não sendo encontrado nada, ainda assim eu estou sendo acusada.
— Mas não é possível isso, ela deve ter passado pra alguém.– a Ágata insistia que eu era culpada, me mantive calada.
Já tinha enviado mensagem para a minha cunhada, e ela já estava a caminho com o advogado.
Eu vou botar no cu desses racistas sem vaselina, isso não vai ficar assim.
— O que você tem a dizer em sua defesa Senhorita Alícia, sua colega de classe tem certeza que você é culpa.– eu olhei dentro da cara do reitor, que raiva eu tenho desse homem.
— Eu só vou falar quando meu advogado chegar aqui.– a burguesinha do c*****o começou a rir.
— E desde quando uma pobre como você, tem advogado?
— Desde quando ela tem dinheiro pra bancar um.– minha cunhada chegou com o doutor Juarez, esse cara é a minha inspiração.
Só que diferente dele, eu não quero defender bandido.
— Boa tarde, posso saber o motivo da minha cliente estar sendo acusada desse jeito?– o reitor se ajeitou na cadeira.
— Sua cliente está sendo acusada de furtar o iPad da sua colega de classe.
— Tem alguma prova que liga a minha cliente ao crime que ela está sendo acusada?
— Não, mas ela pode ter passado o iPad antes que eu tenha sentido falta.– a galinha depenada falou.
— Você é estudante de direito, certo ?– ela confirmou com a cabeça.— Então você sabe que é crime acusar uma pessoa sem provas.– ele se virou para o reitor.— Acusar alguém publicamente de um crime sem provas, no artigo 138 do Código Penal Brasileiro é um crime de calúnia. A pena por esse crime pode ser de seis meses a um ano.– o reitor engoliu a seco, eu estava triunfante por dentro.— Antes vir pra cá, eu passei na delegacia e abriu um boletim de ocorrência.– ele tirou um papel da sua maleta que eu tenho certeza que foi caríssima.— Nos próximos dias vocês vão receber uma intimação e preparem o bolso, porque isso isso não vai ficar barato.– ele fechou a maleta.— Vamos senhorita Alícia.– ele estendeu a mão e me ajudou a levantar.
Ao sairmos de lá, agradeci o doutor Juarez, e ele ainda me deu garantias que isso não ficará assim.
Eu tive que ir o caminho inteiro ouvindo minha cunhada falando no meu ouvido .
— Eu te falei Alícia, essa gente acha que nós é tudo ladrão.– ela falava enquanto dirigia.— Teu irmão tá puto, ele queria que os menor desses pra cobrar esse bagulho.– eu neguei com a cabeça.
— Não era pra você falar nada pra ele Suzana.
— Quando tu me ligou, eu estava fazendo chamada de vídeo com ele filha, nem tinha como não falar.– eu bufei irritada.
— Tu vai amanhã na vista dele?– ela fez que não com a cabeça.— Porque não, amanhã não é dia de visita íntima?
— É mona, mas amanhã quem vai é a zero 2.– ela falou p**a.
— Nem sei como você aceita isso, papo reto tu é muito guerreira mesmo.– ela deu de ombros.
— Vou falar pra tu, a Thaís eu até tô acostumada.– ela parou o carro na entrada e abriu os vidros.— Vai demorar muito pra liberar minha entrada?– os meninos rapidinho deram passagem, mas a rua estava fechada de carros.— O que pegando, porque a rua tá fechada?– o gtinho veio correndo fazer fofoca.
— O Mano saiu, o novo gerente geral.
— Ah sim, então hoje tem bailão pra comemorar.– ela fez uma dancinha escrota.— Partiu Cunha pro bailão?– eu não gostava muito de ir pra baile, mas hoje depois de tudo que eu passei na faculdade, seria até bom pra distrair a mente.
— Eu vou, mas não quero ficar na pista.– ela ficou animada.
— Hoje até o Rennan vai marcar presença.– ele fez uma dancinha escrota
— E quando ele não marca ?
— Verdade, Rennan é carteirinha registrada aqui na Penha.– concordamos com ela.— Valeu gtinho, nos vemos mais tarde.
Conseguimos passar e chegamos em casa.
Eu morava com eles aqui na Penha, depois que minha mãe morreu, meu irmão passou a cuidar de mim.
Eu tinha dez anos quando o meu irmão foi preso, eu achei que fosse ficar aqui sozinha, fiquei dois anos sendo cuidada por uma vizinha que era paga pra isso.
Até a Suzana vir morar aqui na Penha, ela conheceu meu irmão através de uma amiga dela.
Essa amiga dela falou que tinha um cara pra ela visitar, que era só pra ir levar umas coisas pra ele comer, e a doida foi, gostou e ainda casou com o meu irmão lá dentro.
E foi assim que ela passou a cuidar de mim como se fosse filha.
Eu sinto muita falta do meu irmão, mas ele nunca deixou ir visitar ele.
Já tem oito anos que não nos vemos, só nos falamos por telefone.
— Chegamos dona Regina.– a Suzana falou assim que entramos em casa.— Cadê a Suelen?– a Suzana tem uma filha de dez anos, quando ela conheceu o meu irmão a Suelen tinha apenas dois anos, meu irmão registrou ela e cria como se fosse filha.
Até a Suelen já foi visitar o meu irmão, mas eu, ele não deixou. Ele fala que não é pra vincular o meu nome a ele.
— Ela está no quarto, chegou agora a pouco da escola.– minha cunhada se jogou no sofá.— A senhora vai querer que prepare as coisas para levar pro patrão amanhã?
— Pode preparar sim, vou avisar a Thais pra vir aqui buscar.– meu irmão tem uma segunda mulher, a Thaís.
Ela e eu até nos damos bem, mas eu acho muito estranho essa situação. A Suzana leva numa boa, nunca bateu boca com a Thaís e nem com nenhuma outra mulher.
— Ué Thaís, ele falou que tu que ia na visita amanhã.– minha cunhada colocou no viva voz.
— Tem algo errado aí então, ele me falou que você que ia amanhã.– a Thaís falou puta.— Ele tá recebendo visita de outra mulher.
— Mas eu vou tirar essa história a limpo, como assim ele já arrumou outra mulher.– ela negou com a cabeça p**a.
— Aí não, já basta eu ter que dividir ele com você e agora tem mais querendo roubar nosso assento.– eu só estava rindo da conversa das duas.
— Eu vou desligar Thaís, amanhã eu vou cedinho pra porta do Bangu.– minha cunhada estava puta.— Se tu quiser saber dessa história, me encontra lá.– ela desligou o telefone e jogou na mesinha.
— Meu irmão já arrumou a zero três.– ela me olhou de cara feia.— Não me olha assim não, eu te disse que isso ia acontecer.– ela estava p**a pra c*****o.
— Isso não vai ficar assim não, eu só aceitei a Thaís porque ela já ia visitar o seu irmão lá dentro antes de mim, mas eu avisei que não ia aceitar mais ninguém.– ela pegou o celular e digitou algumas coisas.— Bora no salão, temos que nos arrumar pro baile mais tarde, dona Regina tô saindo.– ela pegou a chave da moto.
— Mas você não vai pra Bangu amanhã.– ela confirmou com a cabeça.— Então, como você vai pro baile hoje?
— Eu já avisei a mulher que sempre guarda o meu lugar lá e outra eu não vou deixar de curtir por causa disso.– ela saiu me puxando pela mão...