Euge e eu estávamos conversando em nosso quarto quando Gastón entrou.
- O que aquela víbora queria com você? - Perguntei ao me referir ao fato de Júlia ter o chamado anteriormente.
- Ah, pediu pra eu fazer o trabalho sujo pra eles. - Disse ao revirar os olhos.
Ah, como eles podem ser tão podres? Além de serem traficantes, ainda mandam a gente entregar "a mercadoria", não têm capacidade nem de fazer isso, ou vai ver, eles têm medinho de serem pegos e assim colocam tudo no nosso, ah, confesso que eu morro de medo de sermos pegos, e quem acreditaria na gente? Seria a nossa palavra contra a deles, e o Nico conhece o Bernardo há anos, acho que não acreditaria em nós.
Pouco depois, me retirei do meu dormitório para ir ao banheiro, já que Euge estava usando o que ficava no nosso quarto. Porém, ao sair do toalete, eu avistei Júlia que estava brincando com Flor, e as duas pareciam estar se divertindo muito, e dava para ver o quanto a criança ama a mãe. Fiquei vendo as duas por alguns minutos e Júlia parecia ser outra pessoa, estava rindo e brincando, e por incrível que possa parecer, Flor conseguia tirar o melhor da mulher. Porém, assim que a mais velha me viu, perguntou de forma ríspida:
- O que você faz aí parada?
- Hã… Eu…
- Mamãe, por que está falando assim? - Flor perguntou assustada.
- Porque… Hã… Desculpa, meu amor, é que era pra Mar estar estudando, ela está péssima na escola.
"Ai, que ótimo, agora eu sou burra." - Pensei.
Logo a mulher se virou para mim, e disse:
- Mar, querida, vá estudar porque não quero que você reprove na escola. - Deu um sorriso forçado.
- Claro! - Falei ao sorrir de forma cínica.
Fui para meu quarto e parei para pensar que pela primeira vez eu queria ir pra escola de verdade, antes eu não gostava de estudar porque não tinha amigos e todo mundo vivia implicando comigo, mas agora… Agora pela primeira vez, eu tinha amigos de verdade e eu me sentia tão bem com eles, acho que agora eu iria gostar de ir para o colégio, acho que seria legal, e tinha tanta coisa que eu gostaria de aprender.
Notei que Euge estava em sua cama lendo um livro, acho que nem havia notado a minha presença, parecia muito concentrada.
- Que livro é esse? - Perguntei.
- O diário de Anne Frank.
- É legal?
- É sim! Se quiser, depois eu te empresto pra você ler.
- Hã… - Dei uma leve coçada em minha nuca. - Não precisa, não sou muito fã de livros.
- Tá bem. - Deu de ombros.
Enquanto a garota seguia lendo o seu livro, eu fiquei deitada em minha cama enquanto milhões de pensamentos passavam pela minha cabeça.
Pouco depois, escuto passos e um falatório alto, parecia briga, Euge até parou de ler para ver o que estava havendo. Era Nico e Gimena que passaram pelo nosso quarto discutindo por algum motivo.
- Eles sempre brigam assim? - Perguntei.
- As vezes. A Gimena é muito chata e sonsa, sem falar que é muito ciumenta e controladora, vive atrás do Nico, não sei como ele atura ela. - Disse Euge.
Escutamos Nico falar em terminar, porém Gimena implorava para ele não fazer isso. Gente, como uma pessoa pode se dar o trabalho de fazer esse papelão? Se eu tivesse um namorado que quisesse terminar comigo, eu diria "tchau querido, que você seja feliz", poderia até ficar triste e tal, mas jamais me humilharia por alguém, acho isso ridículo.
De repente, Flor e Lupita entraram correndo em meu quarto, estavam assustadas com a briga.
- Eu não gosto de briga. - Disse Flor docemente ao me abraçar.
- Eu também não. - Disse Lupita.
- Hey, não precisam ficar com medo. - Falei.
A briga durou mais algum tempo até que acabou com cada um indo para o seu quarto, pois eles não dormiam no mesmo quarto, talvez por não serem casados, sei lá…
Assim que a briga terminou, as meninas saíram do nosso quarto.
(...)
Duas semanas haviam se passado. Quase tudo seguia normal, a não ser pelo fato que Nico e Gimena haviam terminado, e confesso que estava torcendo para Nico acabar ficando com a Emilia, eles combinam muito mais.
Eu estava me penteando para ir para a falsa escola, quando bateram à porta do quarto.
- Entra! - Falei.
- Mar, você viu o meu filho? - Nico perguntou.
- Não, não vi o Tomás, por quê?
- Não estou o encontrando. A Emilia foi acordar os pequenos e ele não estava no quarto.
- Ué, que estranho!
- E já procurei por tudo e nada, estou ficando preocupado.
- Calma, ele vai aparecer, deve estar brincando por aí.
- Tomara! Bom, vou ver se os garotos o viram. Qualquer coisa você me avisa?
- Claro!
O homem deu um beijo em minha cabeça e saiu do quarto. Quando Euge saiu do seu banho, eu lhe contei que Nico estava procurando por Tomás, e a loura achou muito estranho, e confesso que eu também havia achado, acho que tinha caroço nesse angu.
Euge e eu descemos para tomar café e estava um silêncio enlouquecedor, até que Flor sentou no colo da Júlia, e disse:
- Será que o Tomás vai aparecer?
- Claro que vai, meu amorzinho.
- E se pegaram ele? - Perguntou com os olhos lacrimejados.
- Oh meu bem… Vai ficar tudo bem, logo você estará brincando com o seu amiguinho, viu? - Acariciou o rosto da menina.
- Tomara! - A criança abraçou a mãe.
Gastón (que estava ao meu lado) e eu nos olhamos em silêncio, acho que ele estava pensando o mesmo que eu, acho que no fundo, bem no fundo, lá no fundo que de tão fundo quase não se vê, Júlia tinha um coração, pois dava para ver o amor que ela tinha por aquela criança, e confesso que até achei bonito vê-las juntas, queria tanto que Júlia fosse sempre assim.
Nico apareceu na cozinha e chamou por Emilia e então os dois saíram, meus amigos e eu nos olhamos sem entender o que havia acontecido.
Terminamos o nosso café, e depois Bernardo "nos levou para nossa falsa escola".
- O que será que aconteceu com o Tomás? - Perguntou Nano.
- Boa pergunta! - Disse Tato. - Tomara que ele esteja bem!
Ah, confesso que eu estava meio grilada com isso, pois Tomás tinha apenas 8 anos, era tão pequeno, e uma criança dessa idade não costuma fugir ou desaparecer sozinha a troco de nada, acho que algo tinha acontecido, e tomara que Bernardo e Júlia não estejam envolvidos nisso.