- Mar, o que você está fazendo? - O garoto perguntou.
- Juan, não é nada disso que você está pensando, eu não…
- Eu vi, Mar. Você…
Pude ver uma enorme decepção nos olhos do garoto, o que partiu o meu coração, eu não queria que ele me visse como uma ladra, mas talvez fosse melhor assim, porque ele precisava me esquecer.
- Juan, eu…
Nisso, a mulher que havia deixado o celular em cima da mesa, saiu da lancheria sem lembrar do aparelho. Juan pegou o objeto da minha mão e chamou pela mulher, que rapidamente se virou.
- Você esqueceu isso. - Fez menção em entregar o celular.
- Nossa, muito obrigada. Que cabeça a minha! - Pegou o celular e saiu.
Abaixei a cabeça e comecei a chorar, sem saber o que fazer. Juan voltou até onde eu estava, me olhou com aquele olhar de novo e derrubou uma lágrima.
- Por que, Mar? O que te falta? Me diz que eu te dou. Te dou o que você quiser, mas… Isso? Sério mesmo?
- Para Juan, você não entende! - Aumentei o meu tom de voz.
- Não, eu não entendo mesmo. - Aumentou o tom da voz. - Eu acho que me enganei com você. - Aquele maldito olhar outra vez.
Nisso notei que algumas pessoas haviam parado para ver a nossa discussão, o que me deixou constrangida. Pedi para o garoto para que entrássemos em casa, e ele aceitou. O garoto não parava de dizer o quão decepcionado estava comigo. E isso doía, doía muito.
- Mar, só me diz o porquê. Só isso. Deixa eu te ajudar, podemos ver um psicólogo ou psiquiatra, eu pago e se quiser, te acompanho nas consultas.
- Chega, Juan! - Comecei a chorar. - Você não entende, m***a!
- Então, me explica, juro que vou entender.
Nisso, Emilia, Nico, Júlia e Bernardo apareceram.
- Posso saber o que está havendo aqui? - Emilia perguntou.
E então, eu abracei a loura, que me deu um abraço caloroso.
- O que houve, meu amor? Por que está chorando?
Nisso, Nano, Euge e Gastón também apareceram. Olhei para os três, que tentavam entender o que estava havendo.
- Acontece que a Mar precisa de ajuda, está doente. - Fiz sinal negativo com a cabeça, como um pedido para ele não falar nada, mas não adiantou. - Não é uma má pessoa, eu sei que não é, mas… Ela não está bem. - Respirou fundo. - Eu a vi roubando.
- É mentira! É mentira! - Gritei aos prantos enquanto tremia agarrada em Emilia, que me fazia cafuné, tentando me acalmar. - Eu não roubei, eu não roubei…
- Eu vi, Mar… Não mente. Não precisa ter medo, nós vamos te ajudar, a gente gosta de você, não vamos te virar as costas.
Olhei para Bernardo e Júlia com ódio, com muito ódio, a língua coçava pra falar toda a verdade.
- Marzinha, querida, por que você fez algo assim? - Bernardo perguntou cinicamente.
- Te falta algo, queridinha? - Júlia perguntou.
E não aguentando ver tamanha cara de p*u, eu falei:
- Parem! Parem! É tudo culpa de vocês! - Gritei. - São eles! Eles nos obrigam a roubar, e mais… ainda traficam, fazem a gente entregar drogas, e nos batem. Olhem isso! - Mostrei os meus hematomas.
- Quê? - Juan perguntou com os olhos lacrimejados.
- Não! - Gritou Flor.
Nesse momento vimos que a pequena estava escondida escutando tudo.
- É mentira! - Gritou aos prantos. Logo abraçou a Júlia. - Diz que é mentira, mamãe. Você jamais faria isso, não é?
- Claro que é mentira, meu amor. - A mulher me olhou com fúria.
- Você não pode estar falando sério. - Disse Juan. - O meu pai… - Olhou para o homem, e logo voltou a olhar para mim. - Não… Ele jamais faria isso. Por que está mentindo, Mar?
- Nano, Gastón, Euge… Falem alguma coisa. - Pedi.
Eles me olharam em silêncio e baixaram a cabeça, achei que eles fossem me defender e dizer que eu estava falando a verdade, mas não. Olharam para Júlia e Bernardo e ficaram com medo, eu não os culpava, mas… me senti tão sozinha… E então, sai correndo e fui direto para o meu quarto.
(...)
Juan
Não, era mentira. Meu pai não era nenhum monstro. Ele foi um pai e uma mãe pra mim, sempre esteve comigo nos momentos bons e ruins, eu devo a minha vida à ele, e se sou quem sou é graças ao meu pai, e ele… Ele jamais faria algo assim. Obrigar jovens a roubar? A entregar drogas? Não, meu pai não era mau, ele era bom, eu sei que era, eu não conseguia entender o porquê de Mar inventar algo assim, medo talvez? Mas… e aqueles hematomas… Ela tinha dito que havia caído da escada, e agora diz que foi meu pai… Eu sei que ele não é perfeito, mas ele nunca encostou um dedo em mim e sei que jamais faria isso com alguém, ainda mais com uma garota.
- Mamãe, por que a Mar falou aquelas coisas feias? - Flor perguntou para Júlia. - É verdade?
- Hey, é claro que não, meu docinho. - A mulher disse. - Filhinha, vai brincar, que a mamãe precisa resolver uns assuntos.
A menina olhou tristemente para a mulher e saiu em direção ao pátio, onde estavam as outras crianças.
Assim que Mar subiu correndo, Nico se aproximou do meu pai e da Júlia.
- É verdade o que a Mar disse? - Perguntou de forma intimidadora.
- Claro que não. - Disse meu pai. - Eu não sei porque ela inventou essas coisas.
- Olha aqui, se eu descobrir que isso é verdade, que vocês maltratam esses garotos, eu os mato. - Falou Nico.
Eu estava tão confuso… Não sabia o que pensar… Eu sabia quem era meu pai, era um homem bom, eu o conhecia desde sempre, e a Mar eu a conhecia há poucos meses, eu não sabia quase nada sobre ela, e se ela fosse uma cleptomaníaca ou algo assim? Eu não sabia muito sobre ela.
Fui para meu quarto e fechei a porta com uma batida, sentei em minha cama, coloquei as mãos na cabeça e chorei, chorei muito. Não era verdade. Não podia ser verdade. Nisso, Gastón entrou no quarto.
- Juan…
- O que você quer? - Perguntei de forma agressiva.
- O que a Mar disse é verdade. - Olhei imediatamente para ele. - Eu não falei nada lá embaixo porque tive medo. O Bernardo nos ameaça. Ontem ele bateu na Mar só porque vocês se beijaram e eu o confrontei, falei que se ele fizesse isso de novo, eu contaria toda a verdade, e ele me ameaçou, disse que se eu fizesse isso, levaria a Lupita pra longe e eu nunca mais a veria. O seu pai e a Júlia são exploradores de menores, ele não é quem você pensa.
- Cala boca! Cala boca! - Gritei sem conter o choro. - Você está mentindo para protegê-la. É tudo mentira! Eu não acredito em nada. Sai daqui! Me deixa sozinho.
- É como dizem… O pior cego é aquele que não quer ver. É uma pena!
O garoto saiu do meu quarto, fechou a porta e eu joguei um porta retrato meu na parede, quebrando-o. Voltei a me sentar em minha cama e chorei tanto, como eu não fazia há muito tempo.
Limpei as lágrimas e fui procurar pelo meu pai. Ele estava em seu quarto, conversando com Júlia, os dois falavam alto, pareciam nervosos. Bati à porta e logo a abri.
- Pai… Posso entrar?
- Claro, filho. - Se dirigiu para Júlia. - Júlia, nos dê licença, por favor.
- Sim, senhor.
A mulher saiu do quarto, e meu pai e eu nos sentamos na cama dele.
- Pai… Por favor, não minta pra mim. O que a Mar disse… Tem algum fundo de verdade?
- Filho… Como você pode achar uma coisa dessas? Olha para mim… Acha mesmo que teu pai faria algo assim?
- Eu… Estou confuso. Você é um excelente pai, me criou sozinho, mas… Por que ela mentiria? Por que inventaria isso?
- Porque você a pegou no flagra e ela certamente ficou com medo porque gosta de você. É uma pobre coitada! Não sabe o que faz e nem o que diz, mas pode deixar, eu vou ficar encarregado de procurar um ótimo psiquiatra pra ela.
- Obrigado, pai! Eu sabia que o senhor não faria isso. - O abracei.
(...)
Emilia
- O que você acha? - Perguntei para Nico.
- Eu não sei… Eu não sei… Eu nunca imaginei que eles pudessem fazer algo assim, pô, eu conheço o Bernardo há anos… Mas… Se eu descobrir que isso é verdade, eu acabo com eles. Juro que acabo.
- Calma, amor. - O abracei, tentando tranquilizá-lo. - Se isso for verdade, os garotos correm perigo, temos que pensar com calma. - Desfiz o abraço. - Não podemos colocar os pés pelas mãos. Vamos averiguar esse assunto, vamos falar com os garotos, e o fundamental… Vamos ficar de olho na Júlia e no Bernardo.
- Você tem razão. - Me deu um selinho. - Vamos lá falar com a Mar?
- Vamos…
(...)
Mar
Eu estava em meu quarto com Euge, Gastón, Tato, Nano, Lupita e Matteo. E eu estava chorando muito, estava tão nervosa e com medo.
- Mar, você foi tão corajosa. - Disse Lupita.
- E maluca. - Completou Matteo.
- Amiga, desculpa por não ter confirmado o que você disse. - Falou Euge.
- Tudo bem, eu te entendo, não estou brava.
Nisso Bernardo entrou e fechou a porta, nos causando medo. O homem veio em minha direção e me puxou pelos cabelos, fazendo a minha cabeça encostar no chão. Os outros começaram a chorar e a gritar assustados.
- Você perdeu o juizo? Quer morrer? - Eu soluçava de tanto chorar. - Eu quero que você desminta toda essa história, se alguém te perguntar, você vai dizer que inventou tudo, entendeu?
Com muito medo e com dor na cabeça, eu apenas acenei a cabeça positivamente.
- Solta ela! - Gastón se aproximou da gente.
- Quietinho aí! - Pegou um canivete do bolso da calça e apontou para o louro, que recuou.
- Eu espero que vocês fiquem quietinhos. - Me soltou bruscamente. - Senão, alguém vai ter problemas. - Passou a mão levemente pelo canivete, nos causando medo. As crianças estavam chorando muito, assim como eu e Euge.
- E não pensa que a minha conversa com você acabou. - Bernardo disse para mim.
O homem saiu do quarto, e logo Gastón e Euge me abraçaram.
- Ele vai nos m***r? - Lupita perguntou. - Eu não quero morrer.
- Não, meu amor. Ninguém vai morrer. - Disse Gastón ao abraçar a irmã.
Nisso, bateram à porta. Me assustei em um primeiro momento, mas logo lembrei que Bernardo e Júlia não têm o costume de baterem à porta.
- Pode entrar. - Disse Tato.
Eram Emilia e Nico. Ah, se eles tivessem chegado minutos antes. Os dois entraram em silêncio e se sentaram em nossa frente.
- Olha… Eu quero que vocês saibam que podem confiar na gente. - Emilia começou.
- Se Bernardo e Júlia ou quem for fizeram algum m*l pra vocês, isso não pode ficar assim. É nosso dever protegê-los, porque somos uma família. - Continuou Nico.
- Mar… - Emilia me olhou nos olhos. - É verdade o que você disse?
Eu precisava… Eu queria contar toda a verdade a eles. Eu amava e confiava nos dois. Mas… Bernardo havia nos ameaçado, e eu estava com tanto medo. Ah, m***a, o que eu faço?