A Verdade

1971 Words
- Mar, o que você está fazendo? - O garoto perguntou. - Juan, não é nada disso que você está pensando, eu não… - Eu vi, Mar. Você… Pude ver uma enorme decepção nos olhos do garoto, o que partiu o meu coração, eu não queria que ele me visse como uma ladra, mas talvez fosse melhor assim, porque ele precisava me esquecer. - Juan, eu… Nisso, a mulher que havia deixado o celular em cima da mesa, saiu da lancheria sem lembrar do aparelho. Juan pegou o objeto da minha mão e chamou pela mulher, que rapidamente se virou. - Você esqueceu isso. - Fez menção em entregar o celular. - Nossa, muito obrigada. Que cabeça a minha! - Pegou o celular e saiu. Abaixei a cabeça e comecei a chorar, sem saber o que fazer. Juan voltou até onde eu estava, me olhou com aquele olhar de novo e derrubou uma lágrima. - Por que, Mar? O que te falta? Me diz que eu te dou. Te dou o que você quiser, mas… Isso? Sério mesmo? - Para Juan, você não entende! - Aumentei o meu tom de voz. - Não, eu não entendo mesmo. - Aumentou o tom da voz. - Eu acho que me enganei com você. - Aquele maldito olhar outra vez. Nisso notei que algumas pessoas haviam parado para ver a nossa discussão, o que me deixou constrangida. Pedi para o garoto para que entrássemos em casa, e ele aceitou. O garoto não parava de dizer o quão decepcionado estava comigo. E isso doía, doía muito. - Mar, só me diz o porquê. Só isso. Deixa eu te ajudar, podemos ver um psicólogo ou psiquiatra, eu pago e se quiser, te acompanho nas consultas. - Chega, Juan! - Comecei a chorar. - Você não entende, m***a! - Então, me explica, juro que vou entender. Nisso, Emilia, Nico, Júlia e Bernardo apareceram. - Posso saber o que está havendo aqui? - Emilia perguntou. E então, eu abracei a loura, que me deu um abraço caloroso. - O que houve, meu amor? Por que está chorando? Nisso, Nano, Euge e Gastón também apareceram. Olhei para os três, que tentavam entender o que estava havendo. - Acontece que a Mar precisa de ajuda, está doente. - Fiz sinal negativo com a cabeça, como um pedido para ele não falar nada, mas não adiantou. - Não é uma má pessoa, eu sei que não é, mas… Ela não está bem. - Respirou fundo. - Eu a vi roubando. - É mentira! É mentira! - Gritei aos prantos enquanto tremia agarrada em Emilia, que me fazia cafuné, tentando me acalmar. - Eu não roubei, eu não roubei… - Eu vi, Mar… Não mente. Não precisa ter medo, nós vamos te ajudar, a gente gosta de você, não vamos te virar as costas. Olhei para Bernardo e Júlia com ódio, com muito ódio, a língua coçava pra falar toda a verdade. - Marzinha, querida, por que você fez algo assim? - Bernardo perguntou cinicamente. - Te falta algo, queridinha? - Júlia perguntou. E não aguentando ver tamanha cara de p*u, eu falei: - Parem! Parem! É tudo culpa de vocês! - Gritei. - São eles! Eles nos obrigam a roubar, e mais… ainda traficam, fazem a gente entregar drogas, e nos batem. Olhem isso! - Mostrei os meus hematomas. - Quê? - Juan perguntou com os olhos lacrimejados. - Não! - Gritou Flor. Nesse momento vimos que a pequena estava escondida escutando tudo. - É mentira! - Gritou aos prantos. Logo abraçou a Júlia. - Diz que é mentira, mamãe. Você jamais faria isso, não é? - Claro que é mentira, meu amor. - A mulher me olhou com fúria. - Você não pode estar falando sério. - Disse Juan. - O meu pai… - Olhou para o homem, e logo voltou a olhar para mim. - Não… Ele jamais faria isso. Por que está mentindo, Mar? - Nano, Gastón, Euge… Falem alguma coisa. - Pedi. Eles me olharam em silêncio e baixaram a cabeça, achei que eles fossem me defender e dizer que eu estava falando a verdade, mas não. Olharam para Júlia e Bernardo e ficaram com medo, eu não os culpava, mas… me senti tão sozinha… E então, sai correndo e fui direto para o meu quarto. (...) Juan Não, era mentira. Meu pai não era nenhum monstro. Ele foi um pai e uma mãe pra mim, sempre esteve comigo nos momentos bons e ruins, eu devo a minha vida à ele, e se sou quem sou é graças ao meu pai, e ele… Ele jamais faria algo assim. Obrigar jovens a roubar? A entregar drogas? Não, meu pai não era mau, ele era bom, eu sei que era, eu não conseguia entender o porquê de Mar inventar algo assim, medo talvez? Mas… e aqueles hematomas… Ela tinha dito que havia caído da escada, e agora diz que foi meu pai… Eu sei que ele não é perfeito, mas ele nunca encostou um dedo em mim e sei que jamais faria isso com alguém, ainda mais com uma garota. - Mamãe, por que a Mar falou aquelas coisas feias? - Flor perguntou para Júlia. - É verdade? - Hey, é claro que não, meu docinho. - A mulher disse. - Filhinha, vai brincar, que a mamãe precisa resolver uns assuntos. A menina olhou tristemente para a mulher e saiu em direção ao pátio, onde estavam as outras crianças. Assim que Mar subiu correndo, Nico se aproximou do meu pai e da Júlia. - É verdade o que a Mar disse? - Perguntou de forma intimidadora. - Claro que não. - Disse meu pai. - Eu não sei porque ela inventou essas coisas. - Olha aqui, se eu descobrir que isso é verdade, que vocês maltratam esses garotos, eu os mato. - Falou Nico. Eu estava tão confuso… Não sabia o que pensar… Eu sabia quem era meu pai, era um homem bom, eu o conhecia desde sempre, e a Mar eu a conhecia há poucos meses, eu não sabia quase nada sobre ela, e se ela fosse uma cleptomaníaca ou algo assim? Eu não sabia muito sobre ela. Fui para meu quarto e fechei a porta com uma batida, sentei em minha cama, coloquei as mãos na cabeça e chorei, chorei muito. Não era verdade. Não podia ser verdade. Nisso, Gastón entrou no quarto. - Juan… - O que você quer? - Perguntei de forma agressiva. - O que a Mar disse é verdade. - Olhei imediatamente para ele. - Eu não falei nada lá embaixo porque tive medo. O Bernardo nos ameaça. Ontem ele bateu na Mar só porque vocês se beijaram e eu o confrontei, falei que se ele fizesse isso de novo, eu contaria toda a verdade, e ele me ameaçou, disse que se eu fizesse isso, levaria a Lupita pra longe e eu nunca mais a veria. O seu pai e a Júlia são exploradores de menores, ele não é quem você pensa. - Cala boca! Cala boca! - Gritei sem conter o choro. - Você está mentindo para protegê-la. É tudo mentira! Eu não acredito em nada. Sai daqui! Me deixa sozinho. - É como dizem… O pior cego é aquele que não quer ver. É uma pena! O garoto saiu do meu quarto, fechou a porta e eu joguei um porta retrato meu na parede, quebrando-o. Voltei a me sentar em minha cama e chorei tanto, como eu não fazia há muito tempo. Limpei as lágrimas e fui procurar pelo meu pai. Ele estava em seu quarto, conversando com Júlia, os dois falavam alto, pareciam nervosos. Bati à porta e logo a abri. - Pai… Posso entrar? - Claro, filho. - Se dirigiu para Júlia. - Júlia, nos dê licença, por favor. - Sim, senhor. A mulher saiu do quarto, e meu pai e eu nos sentamos na cama dele. - Pai… Por favor, não minta pra mim. O que a Mar disse… Tem algum fundo de verdade? - Filho… Como você pode achar uma coisa dessas? Olha para mim… Acha mesmo que teu pai faria algo assim? - Eu… Estou confuso. Você é um excelente pai, me criou sozinho, mas… Por que ela mentiria? Por que inventaria isso? - Porque você a pegou no flagra e ela certamente ficou com medo porque gosta de você. É uma pobre coitada! Não sabe o que faz e nem o que diz, mas pode deixar, eu vou ficar encarregado de procurar um ótimo psiquiatra pra ela. - Obrigado, pai! Eu sabia que o senhor não faria isso. - O abracei. (...) Emilia - O que você acha? - Perguntei para Nico. - Eu não sei… Eu não sei… Eu nunca imaginei que eles pudessem fazer algo assim, pô, eu conheço o Bernardo há anos… Mas… Se eu descobrir que isso é verdade, eu acabo com eles. Juro que acabo. - Calma, amor. - O abracei, tentando tranquilizá-lo. - Se isso for verdade, os garotos correm perigo, temos que pensar com calma. - Desfiz o abraço. - Não podemos colocar os pés pelas mãos. Vamos averiguar esse assunto, vamos falar com os garotos, e o fundamental… Vamos ficar de olho na Júlia e no Bernardo. - Você tem razão. - Me deu um selinho. - Vamos lá falar com a Mar? - Vamos… (...) Mar Eu estava em meu quarto com Euge, Gastón, Tato, Nano, Lupita e Matteo. E eu estava chorando muito, estava tão nervosa e com medo. - Mar, você foi tão corajosa. - Disse Lupita. - E maluca. - Completou Matteo. - Amiga, desculpa por não ter confirmado o que você disse. - Falou Euge. - Tudo bem, eu te entendo, não estou brava. Nisso Bernardo entrou e fechou a porta, nos causando medo. O homem veio em minha direção e me puxou pelos cabelos, fazendo a minha cabeça encostar no chão. Os outros começaram a chorar e a gritar assustados. - Você perdeu o juizo? Quer morrer? - Eu soluçava de tanto chorar. - Eu quero que você desminta toda essa história, se alguém te perguntar, você vai dizer que inventou tudo, entendeu? Com muito medo e com dor na cabeça, eu apenas acenei a cabeça positivamente. - Solta ela! - Gastón se aproximou da gente. - Quietinho aí! - Pegou um canivete do bolso da calça e apontou para o louro, que recuou. - Eu espero que vocês fiquem quietinhos. - Me soltou bruscamente. - Senão, alguém vai ter problemas. - Passou a mão levemente pelo canivete, nos causando medo. As crianças estavam chorando muito, assim como eu e Euge. - E não pensa que a minha conversa com você acabou. - Bernardo disse para mim. O homem saiu do quarto, e logo Gastón e Euge me abraçaram. - Ele vai nos m***r? - Lupita perguntou. - Eu não quero morrer. - Não, meu amor. Ninguém vai morrer. - Disse Gastón ao abraçar a irmã. Nisso, bateram à porta. Me assustei em um primeiro momento, mas logo lembrei que Bernardo e Júlia não têm o costume de baterem à porta. - Pode entrar. - Disse Tato. Eram Emilia e Nico. Ah, se eles tivessem chegado minutos antes. Os dois entraram em silêncio e se sentaram em nossa frente. - Olha… Eu quero que vocês saibam que podem confiar na gente. - Emilia começou. - Se Bernardo e Júlia ou quem for fizeram algum m*l pra vocês, isso não pode ficar assim. É nosso dever protegê-los, porque somos uma família. - Continuou Nico. - Mar… - Emilia me olhou nos olhos. - É verdade o que você disse? Eu precisava… Eu queria contar toda a verdade a eles. Eu amava e confiava nos dois. Mas… Bernardo havia nos ameaçado, e eu estava com tanto medo. Ah, m***a, o que eu faço?
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