Kael fechou a distância entre eles num passo vivo. Agarrando o braço de Isabela com força contida, inclinou-se até quase tocar os lábios dela.
— Não vamos contar isso a ninguém — sussurrou, os olhos intensos. — A única pessoa de confiança que pode explicar o que está acontecendo é o druida da floresta. Mas ele está viajando por Avalon. Vamos esperar ele voltar. Só então saberemos como resolver.
Isabela o encarou, o coração batendo rápido. Não tinha escolha. Tudo ali era novo demais; o único porto seguro era confiar em Kael, que também não sabia por que aquela magia havia falhado.
Enquanto ele falava, um baque s***o ecoou pela porta de madeira. Um soldado entrou, o rosto fechado no padrão militar.
— General, mais uma mulher foi dada como desaparecida — anunciou, erguendo uma pasta de pergaminhos.
Kael ficou tenso. Os dedos ainda seguravam o braço de Isabela.
— São três — resmungou, olhando o pergaminho. Cada nome trazia o mesmo terror silencioso.
O soldado assentiu, engolindo a própria inquietação. Então notou o vestido rasgado da mulher ao lado do general.
— Senhor, essa é a candidata que chegou ontem? — perguntou, apontando para as dobras rasgadas.
Kael afrouxou o aperto no braço dela e endireitou o casaco.
— Leve-a à Casa das Candidatas. Mande preparar roupas adequadas. — A voz era firme, sem resquícios de explicação.
O soldado fez uma saudação rápida e saiu.
Kael se voltou para Isabela, o olhar duro e quase imperceptivelmente preocupado.
Ela encontrou os olhos dele e pensou, em silêncio:
Como se eu fosse contar essa loucura para alguém.
Assim que a porta se fechou atrás de Isabela e o soldado, Kael permaneceu imóvel por alguns segundos. O silêncio do aposento parecia mais pesado sem ela ali. Ele fechou os olhos e tentou — como se fosse possível reproduzir aquilo — ouvir novamente. Qualquer pensamento. Uma fagulha emocional.
Nada.
A mente dela estava muda para ele.
Kael franziu o cenho. Cruzou os braços. Afastou-se da porta e começou a andar pelo quarto como um animal inquieto em território marcado. Tentou se concentrar, sentiu o sangue circular mais rápido… mas não havia conexão. Como se o que tinham partilhado tivesse sido um acidente breve. Um erro mágico. Um descuido de forças antigas.
Ou, talvez, algo muito pior.
Talvez não fosse um acidente. Talvez aquilo tivesse sido orquestrado. E se Aldora tivesse colocado aquela mulher ali exatamente para isso? Para que ele a baixasse a guarda? Para que alguém entrasse onde ninguém jamais entrou?
Pensar nisso fez a raiva subir de novo, queimando os limites da paciência.
Kael parou diante da janela estreita. Olhou o céu acinzentado de Avalon, mas sua mente estava a quilômetros dali, levantando defesas.
Se fosse mesmo uma armadilha, ela nem saberia. E por isso era mais perigosa do que qualquer espião treinado.
Ele ergueu uma barreira interna. Fria. Sólida.
Não deixaria que se repetisse.
Do lado de fora do castelo, Isabela caminhava em silêncio, ainda segurando o tecido do vestido rasgado contra a cintura. O soldado à frente não dizia uma palavra, e ela não sabia se preferia assim ou não.
Só agora, ao afastar-se do castelo, percebeu que não sentia mais nada vindo de Kael. Nenhuma irritação, nenhum julgamento, nenhuma emoção que não fosse dela mesma.
Por incrível que parecesse, sentiu alívio.
Era como se, por um momento, tivesse tido alguém mexendo dentro da cabeça. Agora, ao menos, ela estava sozinha de novo com seus próprios pensamentos — e eles já davam trabalho o suficiente.
Assim que dobraram uma esquina do jardim murado, Isabela parou.
— Uau…
Atrás da construção imensa que era o castelo, havia uma vila. Pequena, mas viva. Casas de pedra com telhados escuros, varandas floridas e janelas iluminadas. O chão era de pedra lisa, como um calçamento antigo. Alguns postes de luz mágica brilhavam num tom amarelado.
Havia barracas cobertas, uma fonte no centro, até uma pequena padaria com fumaça saindo da chaminé. Ela viu duas crianças atravessando correndo por um beco estreito, rindo.
Por um instante, aquilo pareceu familiar.
"É... como se o centro do Rio virasse um bairro de novela medieval", pensou, com uma pontinha de ironia. Só que sem os ônibus barulhentos, os gritos dos vendedores ou o cheiro de fritura vindo da esquina. Era outro mundo, mas... ainda assim, havia algo de aconchegante ali.
— É logo à frente — disse o soldado, sem se virar.
Caminharam mais um pouco até pararem diante de uma construção maior, com janelas altas e uma porta dupla de madeira clara. Guardas armados nas laterais observavam em silêncio.
Havia símbolos entalhados na parede de pedra: círculos, linhas curvas, formas que lembravam sementes ou folhas.
Isabela engoliu em seco.
— A Casa das Candidatas?
O soldado assentiu.
— Pode entrar. Vão providenciar roupas e tudo que precisar.
Ela olhou de relance para os guardas. Estáticos. Frios. E depois para a porta.
Empurrou-a com cuidado.
O interior era silencioso. Demais.
Um grande salão com sofás, tapetes grossos, arranjos florais impecáveis. O tipo de coisa que ela só via em revistas caras de decoração. Um corredor se estendia ao fundo, com várias portas dos dois lados.
Mas ali… não havia ninguém.
Isabela franziu a testa.
— Ué…
Nenhuma voz, nenhum som de passos, nem uma sombra de outra mulher.
Ela tentou racionalizar.
"As outras devem estar dormindo… ou em alguma aula sobre magia, sei lá. Ou fazendo aquele tal ritual..."
Mas a dúvida ficou ali.
Grudada na nuca.
Como um sussurro que ninguém quis dizer em voz alta.
Não demorou muito. O silêncio da Casa das Candidatas foi quebrado por passos leves e vozes suaves. Duas criadas do castelo surgiram pelo corredor, carregando pilhas de vestidos dobrados com tanto cuidado que mais pareciam relíquias.
— Trouxemos algumas opções — disse uma delas, sorrindo com uma gentileza desarmante. — Espero que goste. Todas foram preparadas especialmente para você.
Isabela olhou para os tecidos. Eram diferentes de tudo que já tinha visto. Nenhuma costura apertada demais, nenhum corte feito para esconder um corpo. As cores variavam entre tons naturais — verde musgo, vinho escuro, um azul profundo como o céu noturno. Os tecidos eram macios ao toque, pesados na medida certa, e os detalhes bordados à mão pareciam carregar histórias.
Ela pegou um dos vestidos e o estendeu diante do corpo. Era… do seu tamanho. Todos eram. Nenhuma costureira do mundo real jamais lhe oferecera tantas opções que não parecessem uma adaptação forçada de algo feito para outra mulher.
— Como... vocês sabiam meu tamanho? — perguntou, surpresa, tentando soar casual.
A outra criada apenas sorriu.
— A Mãe da Terra é única. Avalon se ajusta a você, não o contrário.
As palavras deixaram um peso estranho no ar, mas também um calor. Como se, pela primeira vez, fosse ela quem ditasse as regras. Não o espelho, não as etiquetas, não os olhares.
— Obrigada — murmurou, quase sem voz.
Enquanto as criadas organizavam as roupas em um armário embutido e preparavam uma bandeja com o jantar, Isabela se sentou na beira da cama larga, ainda um pouco atônita. Não demorou para ficar sozinha. Quando a última porta se fechou, o silêncio voltou. Mas agora era um silêncio acolhedor.
Trocou-se devagar, saboreando cada gesto. O vestido escolhido envolvia seu corpo com uma leveza nova. Não escondia nada. Não forçava nada. Apenas... encaixava. Pela primeira vez em muito tempo, não sentiu vontade de se esconder.
Em cima da mesa, uma bandeja com pão morno, frutas frescas, queijo macio e uma sopa perfumada a esperava. A comida tinha cheiro de casa, embora estivesse a anos-luz de tudo que ela conhecia.
Sentou-se, provou uma colher da sopa e fechou os olhos por um segundo.
Talvez fosse o tempero. Talvez fosse o cansaço. Mas ali, sozinha, aquecida e alimentada, Isabela sentiu algo que quase nunca sentia: paz.
Olhou ao redor, deixou o corpo se recostar contra a cadeira, e pensou, com um nó apertando a garganta:
— Será que o universo finalmente decidiu que era minha vez?
Ninguém respondeu. Mas, pela primeira vez, a pergunta não soou absurda.