Capítulo 1
Pierre
Minha vida sempre foi planejada. Cada decisão, cada movimento, cada pessoa ao meu redor estava exatamente onde deveria estar. Não há espaço para falhas quando se lidera o clã mais poderoso da máfia Lupus. Eu sou Pierre Tavares, um Alfa Lupus, e a palavra "erro" simplesmente não faz parte do meu vocabulário. Pelo menos, não fazia.
Naquela manhã, estava em meu escritório, analisando os relatórios de segurança do clã. As tensões com os Valmont estavam escalando, e eu sabia que eles estavam atrás de uma brecha. A máfia é um jogo de xadrez, e eu sou o rei, sempre à frente, sempre no controle.
Foi então que meu celular tocou. Não gosto de ser interrompido, mas quando vi o número do meu médico particular, decidi atender. Era raro ele me ligar diretamente.
— Dr. Carvalho, isso deve ser importante — eu disse, direto ao ponto.
— Pierre... temo que seja. Há um problema envolvendo sua última consulta.
Franzi o cenho. Minha última consulta havia sido há meses, um procedimento simples: congelamento de esperma. Um Alfa no meu nível não pode se dar ao luxo de confiar em futuras parcerias. Ter um herdeiro é uma questão de poder e continuidade, algo que planejei com frieza e estratégia.
— Continue — exigi, sentindo a irritação crescer.
— Houve um erro no laboratório, e... sua amostra foi usada indevidamente. Uma ômega foi inseminada com seu material genético por engano.
As palavras dele atingiram-me como um golpe. Senti o calor subir pelo meu corpo, o que era raro. Eu não me descontrolo. Nunca. Mas aquilo... Aquilo era um absurdo.
— Como isso aconteceu? Quem foi o responsável? — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava, mas carregada de ameaça.
— Estamos investigando, mas já identificamos a paciente. Ela... está grávida, Pierre.
Por um instante, o silêncio se instalou. Minha mente processava a informação, os cenários, as consequências.
— Quem é ela?
— Ella. Ella Marques. Uma humana.
Humana. Uma simples humana estava carregando meu filho. O sangue do clã Tavares estava agora dentro de alguém completamente alheio ao meu mundo.
— Mande todos os detalhes para meu assistente. Quero um relatório completo em uma hora.
— Pierre, recomendo cautela. Isso pode ser complicado...
— Complicado? — ri, sem humor. — Eu sou o Alfa. Isso será resolvido.
Desliguei antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Meu mundo não permite erros. Quem quer que tenha causado isso pagaria caro. Mas primeiro, eu precisava ver essa mulher.
Ella Marques.
Seu nome não saía da minha cabeça enquanto o carro me levava até o endereço que o Dr. Carvalho fornecera. Ela era professora, solteira, e tinha uma vida simples. Nada no perfil dela explicava como ela havia acabado envolvida nesse erro grotesco.
Quando cheguei ao apartamento, observei o local com atenção. Era pequeno, comum, o tipo de lugar que eu nunca imaginaria pisar. Mas o sangue do meu clã estava ali dentro, e isso tornava tudo diferente.
— Senhor, devo entrar primeiro? — perguntou um dos meus seguranças.
— Não. Eu mesmo cuido disso.
Bati na porta. Nenhuma resposta. Bati de novo, com mais força. Finalmente, ouvi passos do outro lado.
A porta se abriu, revelando uma mulher de estatura mediana, com cabelos castanhos desarrumados e olhos arregalados. Ela parecia exausta, como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo.
— Quem é você? — perguntou, a voz tremendo levemente.
Eu me apresentei com calma.
— Pierre Tavares. Acredito que você já ouviu falar de mim.
Vi o reconhecimento cruzar seus olhos, seguido de confusão e medo. Humanos comuns sempre reagiam assim quando descobriam quem eu era.
— O que você quer? — perguntou, cruzando os braços em um gesto defensivo.
— Quero conversar sobre o... incidente.
Ela piscou, parecendo não entender. Então, de repente, seu rosto empalideceu.
— Você é...
— Sim. O Alfa Lupus cujo filho você está carregando.
Ela cambaleou, como se o peso das minhas palavras fosse demais. Por um instante, achei que fosse desmaiar, mas ela se segurou na porta.
— Isso é um engano — murmurou. — Eu não... Isso não pode estar acontecendo.
Cruzei os braços e a encarei.
— Acredite, eu também preferia que não tivesse acontecido. Mas aconteceu. Agora, precisamos resolver isso.
— Resolver? — Ela soltou uma risada nervosa. — Não há nada para resolver. Vou cuidar disso sozinha.
Minha paciência estava se esgotando. Dei um passo à frente, forçando-a a recuar.
— Não, Ella. Você não vai cuidar disso sozinha. Este é meu filho, meu herdeiro, e você agora faz parte do meu mundo.
Ela balançou a cabeça, em negação.
— Eu não quero fazer parte do seu mundo.
— Isso não é uma escolha.
A expressão dela era de pura incredulidade. Eu não esperava que fosse fácil, mas Ella precisava entender que, a partir daquele momento, sua vida não era mais dela. Ela era minha, assim como o bebê que carregava.
Eu dei um passo para trás, tentando suavizar minha abordagem. Ella parecia prestes a entrar em pânico, e isso não ajudaria ninguém.
— Escute, Ella. Não estou aqui para machucar você. Só quero garantir a segurança do meu filho e a sua. Há coisas neste mundo que você não entende.
— Como o fato de que eu fui usada em um experimento horrível? — Ela cruzou os braços, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e medo. — Eu não pedi isso.
— Nem eu — respondi, com franqueza.
Por um momento, ela me encarou, como se estivesse tentando encontrar alguma humanidade em mim. Eu sabia que seria difícil para ela me ver como algo além de um monstro.
— Por favor, só vá embora — disse ela, a voz baixa.
Mas isso não era uma opção.
— Você tem uma noite para arrumar suas coisas. Amanhã, meus homens virão buscá-la.
Ela tentou protestar, mas eu a cortei.
— Não é uma negociação, Ella. Isso é pelo bem do meu filho.
Sem esperar pela resposta dela, me virei e saí. Enquanto caminhava de volta para o carro, sentia a tensão pulsando em minhas veias. Ella podia não entender agora, mas eu faria o que fosse necessário para proteger meu filho e ela, se necessário.