A paciente e o psiquiatraUpdated at Jun 24, 2025, 03:16
Algumas pessoas acreditam que o tempo cura tudo.
Outras dizem que só o amor tem esse poder.
Como médico, aprendi que isso é mentira. O tempo, quando não tratado, só aprofunda feridas. E o amor... bem, o amor pode ser tão destrutivo quanto a ausência dele. Eu vejo isso todos os dias.
Era uma segunda-feira qualquer no Hospital Psiquiátrico São Rafael. As paredes eram de um branco quase clínico demais, e o cheiro de desinfetante misturado com flores murchas no corredor sempre me causava uma náusea silenciosa. No entanto, era minha rotina há quase uma década. Entrei no consultório às 7h15, como sempre, e comecei a analisar a lista de pacientes.
Foi então que vi o nome que mudaria tudo.
Anastácia Rangel.
Diagnóstico provisório: transtorno dissociativo com episódios psicóticos pós-luto.
Histórico: perda recente do filho de nove meses. Tentativa de fuga durante o funeral. Internada por ordem judicial após surto em via pública. Recusa alimentação. Muda há 72 horas.
Suspirei, fechando os olhos por um breve segundo. Casos assim eram como tempestades silenciosas. Eles não explodiam de imediato, mas corroíam aos poucos, até transformar uma pessoa inteira em escombros.
Peguei o prontuário e desci até o Bloco C, a ala onde mantemos os pacientes mais frágeis. Anastácia estava no quarto 17, trancada e sob supervisão constante de enfermeiros. Quando cheguei, a enfermeira Júlia, uma mulher experiente e de fala sempre firme, me encarou com um leve arqueio de sobrancelha.
— Doutor Monteiro, ela não fala. Nem reage. Passa o dia olhando para a parede com o brinquedo do bebê no colo. Tentamos tirar, mas ela gritou. Gritou como se estivessem arrancando a própria alma.
— Deixem o brinquedo — pedi, já antecipando o tipo de apego simbólico que o objeto representava.
Ela assentiu e destrancou a porta para mim.
Quando entrei no quarto, o ar pareceu mais denso. Não era físico. Era emocional. Um silêncio tão pesado que preenchia todos os espaços. A mulher sentada no canto esquerdo, com o rosto parcialmente escondido pelos cabelos longos e desalinhados, mal parecia viva. Vestia o pijama do hospital, os pés descalços tocavam o chão frio. E no colo... um urso de pelúcia. Azul claro. Com a letra “L” bordada no peito.
Tive que me forçar a inspirar. Era como se minha própria garganta tivesse fechado por um segundo.
— Bom dia, Anastácia — falei, com a voz baixa e calma, aproximando-me sem fazer movimentos bruscos. — Sou o Dr. Christian Monteiro. Estarei com você daqui pra frente.
Nenhuma resposta.
Aproximei a cadeira da parede oposta, mas não sentei de imediato. Apenas observei. Seus olhos estavam fixos num ponto invisível. Sem piscadas frequentes, sem desvio de atenção. Aquilo era mais do que luto. Era como se a mente dela tivesse se desligado do presente e se recusasse a voltar.
— Posso sentar aqui? — perguntei, mesmo sabendo que ela não responderia.
Sentei devagar, abrindo meu caderno de anotações. Costumo preferir escrever à mão. Isso me conecta mais com o caso. Mas, naquele momento, nada parecia suficiente.
Permaneci em silêncio por um tempo. Ela não parecia se incomodar com minha presença. Também não parecia confortada. Era como se eu fosse invisível. Como tudo ao redor.
— Sabe, Anastácia, não estou aqui para te forçar a nada. Nem a lembrar, nem a esquecer. Só quero estar aqui. Com você. O quanto for necessário.
Seus dedos se contraíram levemente ao redor do urso. Um gesto sutil, mas importante. Anotei.
A maioria das pessoas acredita que os surtos psicóticos são sempre violentos. Mas há um tipo de surto silencioso, congelado no tempo. É esse que mais me assusta. Porque é o mais difícil de alcançar.
Fiquei com ela por quase quarenta minutos. Durante todo esse tempo, não disse uma palavra. Nem ela. Mas não era o silêncio de um fracasso. Era o início de algo. Quando me levantei para sair, ela piscou lentamente.
Era tudo. Mas era alguma coisa.
Na sala dos médicos, depois da visita, parei diante da janela de vidro fosco e respirei fundo. Vi meu reflexo no vidro: o jaleco impecável, o rosto sério, a barba rente, os olhos cansados. Tinha 36 anos, e muitas pessoas me chamavam de “o médico sem coração”. Nunca me incomodei com isso. Eu era eficaz. Racional. Distante. E isso salvava vidas.
Mas algo naquela mulher me tocava. Não de forma romântica. Ainda não. Era... como se eu visse nela uma versão da dor que eu conhecia bem.
Minha esposa, Lara, estava grávida de cinco meses quando morreu em um acidente de carro. Eu nunca falei disso com ninguém aqui no hospital. Mergulhei no trabalho como quem se lança em alto-mar. Sem boia. Sem desejo de voltar.
Ver Anastácia ali, segurando aquele urso como se fosse seu filho, como se ainda sentisse o calor do corpo do bebê nos braços... isso partia algo dentro de mim. E me fazia lembrar.
Eu sabia que estava quebrando a regra mais básica da psiquiatria: não se envolva.
Mas já era tarde demais.
Na manhã seguinte, fui novamente ao quarto 17.
Ela estava na mesma posição. Mas quando abri