Todos da casa dormiam profundamente, até o celular de Adrielly tocar. Na tela do aparelho, um aviso: Sua mãe estava ligando. Os pais da garota não estavam acostumados com o horário, e desde que sua filha chegara, não haviam tido nenhum contato.
A ruiva atendeu.
– Adrielly? Onde você estava? Tentei te ligar um milhão de vezes.
– Me desculpa, mãe. Passei o dia estudando, e não vi as mensagens.
– De qualquer maneira, se sua mãe liga, por favor atenda.
– Sim senhora. – Respondeu cabisbaixa.
– Como estão as coisas? Sobre o que é a pesquisa?
– Ainda sei muito pouco, mas me parece ser no âmbito da medicina. É bem interessante. – Adrielly continuava confiante.
– Você vai se formar em medicina na Coreia?
– Não sei, mas acho que não, mãe. – Riu.
– As coisas me parecem mais complicadas em outros países. Enfim, se divirta e me conte mais sobre o que você gostar, talvez consiga um namorado por aí. Os rapazes são bonitos?
– Mãe! Quero me forcar nos estudos. Esse intercambio foi uma oportunidade única. – Adrielly desejava manter o foco nos estudos.
– Confio em você, minha filha. Você é bonita demais para os coreanos. – Riu consigo mesma. – Não se esqueça de se alimentar. Sinto sua falta.
– Também sinto a sua. Te amo. – Enfim, desligou.
Após a chamada, a garota acabou perdendo o sono. Então aproveitou para estudar o que fosse necessário, e explorar lugares coreanos. Colocaria todos que gostasse em sua agenda, para uma futura visita.
Enquanto estudava, seu aparelho vibrou novamente. Notificações da caixa de e-mail:
Bom dia, meninas.
Me desculpem o horário, costumo trabalhar muito na madrugada (risos). Mandarei aqui as informações já coletadas por outros grupos de intercambistas, além de um amontoado de artigos.
Organismo do reino monera. Especificidades ainda desconhecidas.
Reações negativas contra o corpo humano, possível mutação de uma bactéria já conhecida.
Encontrada na base 35 do exército coreano.
Paciente Zero: Soldado.
Sintomas: Vermelhidão ótica, dores peitorais, sangramento nasal, e dificuldade na ingestão de alimentos. Além de cansaço.
Transmissão: Pelo toque entre um infectado e outro saudável.
Métodos de contenção: Quarentena em ala fechada.
– Professor super pontual. Mensagens logo de madrugada, meninas! – Berrou.
Ana Luiza e Fabíola apareceram no quarto logo em seguida. Com os pés descalços, ainda em transe de sono.
– Por quê o grito? – A cacheada questionou.
– O professor mandou um e-mail. E sobre o que vamos estudar, espero que ele revise isso amanhã.
– A essa hora? Eu estava sonhando com o Hoseok pastando carneirinhos, quem ele acha que é? – Fabíola respondeu meio zonza.
Enquanto isso, a mais nova continuava escorada a porta, dormindo em pé.
– E o que fala no arquivo? – Agora Fabíola estava mais atenta.
– Bactéria, sintomas, essas coisas. O engraçado é que tudo começou em uma base militar.
– Isso tem cheiro de Coreia do Norte. – A morena suspeitou. – Vamos falar mais sobre isso amanhã. Estou morrendo de sono.
Enfim, Fabíola se retirou do quarto e seguiu para seu quarto. Enquanto isso, Ana continuou em pé na porta do quarto.
– Ana? – Adrielly percebeu.
A garota roncava alto.
A ruiva então, segurou a amiga pelo braço e a guiou até seu quarto. Tudo estava escuro, e a luz do celular não ajudava em nada.
– Eu não posso responder o Hiroki. – Disse sonâmbula.
– O que? – Adrielly demorou a se dar conta.
– Cara sem vergonha, como pode me conhecer a um dia e me mandar mensagem no Kakao? – A ruiva ria com os pensamentos de Ana.
Ana Luiza adormeceu na cama, e Adrielly continuou acordada até o amanhecer. Novamente o alarme tocou no mesmo horário, a garota que madrugara, o desligou.
– Acordem, meninas! – Gritou de seu quarto.
Fabíola levantou prontamente, se arrumou e seguiu para a cozinha. Iria preparar uma refeição antes de ir à faculdade. A geladeira, cheia de alimentos e recém abastecida, continha todos os ingredientes necessários para a morena.
– Uma omelete com sua de laranja, o essencial. – Disse a si mesma. Preparou três pratos.
– Bom dia! – Ana apareceu, encostada ao balcão da copa.
– Bom dia! Você quase me assustou. – Fabíola respondeu, sorridente.
– Alguém acordou animada.
– O dia começa logo cedo, precisamos ficar animadas. – Deu de ombros.
– Concordo. O que acha? – Deu um rodopio, mostrando as roupas do dia: Um macacão jeans, junto a uma camiseta amarela estampada com a personagem Bob Esponja, e por fim, um All Star padrão. Ana possuía um estilo divertido, se negava a parecer uma mulher adulta.
– Uau, está muito fofo! – Realmente havia gostado das vestimentas de sua amiga.
– Cabelo solto ou preso? – A mais nova perguntou novamente.
– Preso é melhor, e não se esqueça do casaco. – Enfim completou.
– Onde está a Adrielly? – Luh olhava ao seu redor.
– Não saiu do quarto ainda. Ela dormiu?
– Estou aqui. – Apareceu, já pronta.
– Vamos tomar café. – Fabíola foi a primeira a se sentar na mesa.
A mesa, quadrada, com sua base feita a vida, era simpática e extremamente fofa. Como costume coreano, todas sentaram no chão.
– Achei interessante as descobertas da pesquisa. – Disse a cacheada.
– Sério? Me parece que não fizeram nada, ficamos com as piores partes. – Ana Luiza levou uma colher a boca.
– Concordo, mas não ganhamos o intercambio para fazer nada. Vamos fazer a diferença.
– Ana, o garoto da lanchonete falou com você pelo Kakao? – Indagou, Adrielly.
– O que? Como assim? Não, claro que não. – Disfarçou.
– Entendo. Talvez ele fale, parece que gostou de você.
– Será que o Nozomu gostou de nós? – Fabíola estava quase terminando seu prato.
– Ele é uma fofura. Acho que combina muito com a Adrielly. – Ana jogou verde.
– Não comecem. Vocês vivem me empurrando garotos desde o ensino médio, não preciso deles. – Se zangou.
– Vamos indo garotas. Ainda quero comer um doce daquela lanchonete, da ultima vez, não pedi nada. – Interrompeu Fabíola.
Os flocos de neve caiam sobre as cabeças dos andantes. A terça feira começara bem. Todas engasalhadas, as garotas decidiram chegar á escola caminhando.
O celular de Ana vibrou novamente. Mensagens de amigos, e a não lida de Hiroki. Borboletas sobrevoavam o estomago da destinatária.
– Meninas, preciso contar algo. – Disse Ana.
– O que aconteceu? – Fabíola se virou, preocupada.
– Não sei como, mas o garoto da lanchonete conseguiu meu número.
– Eu sabia. – A ruiva respondeu vitoriosa. – O que ele te escreveu?
– Uma mensagem fofa e simpática. Estou morrendo de medo de vê-lo hoje.
– Não se preocupa, Ana. Estaremos com você, e o Nozomu também. – Adrielly confortou.
– E como você descobriu? Olhou meu celular?
– Você ficou sonambula ontem, quando fui te levar para o seu quarto, me contou sobre estar preocupada. – Adrielly riu.
– Vou começar a perguntar onde você guarda seus doces. – Comentou, Fabíola rindo.
Na lanchonete, o movimento diminuíra. E, novamente, Hiroki estava lá. Ele não havia percebido a entrada das garota, que se sentaram no mesmo lugar perto a porta.
– Acabei de receber uma mensagem do Nozomu. A aula vai ser à tarde, aconteceu um imprevisto. – Disse Adrielly.
– O que vamos fazer o resto da manhã? Queria estar na minha cama. – Fabíola se aborreceu.
– Chamei ele para vir para cá. Depois vamos conhecer o campus.
– Dessa vez, eu passo. Prefiro ficar na biblioteca hoje, meninas. – Ana parecia mentalmente exausta.
Fabíola se levantou da mesa, deus as costas e seguiu para fazer seu pedido. Enquanto as outras duas esperavam a chegada do colega.
Na mesa, pequena e exótica, havia uma flor em seu centro. E, diferentemente das outras, essa era a única que possuía certa decoração.
– Engraçado, não tem flores nas outras mesas. – Disse Adrielly.
– Algum cliente deve ter deixado. – Ana respondeu.
Nozomu, com seu casaco jeans, e mochila preta, adentrou o estabelecimento, procurando em volta pelas meninas.
– Aqui! – Ana sinalizou com a mão.
O garoto se aproximou da mesa, e sentou-se.
– Hoje não tem muito movimento. – Comentou.
– O que aconteceu com o professor? – Indagou Ana.
– Ele precisou resolver alguns assuntos pessoais. – Nozumo respondeu. – E não, eu não sou secretário de professor.
As outras riram.
– Não vai falar com o garoto, Nalu? – Perguntou, curioso.
– Nem ouse citar o nome dele nessa mesa. Já estou confusa demais, e se isso tudo não passar de um m*l entendido? – Ana respondeu.
– Claro que não. Você acha que o Hiroki daria mole assim? – O garoto foi sincero.
– Quero descobrir onde ele conseguiu meu número.
– Talvez ele também usasse alguns dos seus aplicativos, e acabou usando te encontrando. – Disse Adrielly.
– Os matriculados na universidade costumam pegar números na central. Se você deu permissão, ele pode ter achado. – Nozomu bebeu um gole de água de sua garrafa.
– Eu permiti... d***a.
– Ele perguntou sobre você ontem para o professor Moogang. – O garoto parecia se divertir com o assunto.
– O que ele disse? – A mais nova se interessou.
– Sobre o que você fazia, e de onde era. Não foi nada dimais.
– E o senhor estava perto?
– Claro, acompanho aquele velho para ganhar hora extra nos cursos.
– Tadinho, Zumo. – Adrielly riu.
– Esse apelido é novo. – Disse Ana.
Na fila, Fabíola esperava para ser atendida. Quando chegou sua vez, esperava ser discreta, mas o atendente a conheceu.
– Qual sera o seu pedido? – Hiro disse sorrindo. Enquanto ela escolhia um dos doces no balcão, o garoto olhava ao redor, na procura da garota.
– Dalgona. É bom? – A morena perguntou.
– Claro, é um dos mais pedidos. – Foi gentil.
– Então vou querer ele. – Decidiu.
– Anotado.
– Queria dizer que a Ana é um pouco, muito, tímida. E ela não costuma se dar bem com garotos. Tenta pegar leve, dicas de amiga. – Dando uma piscadela, Fabíola pegou o pedido e saiu dali.
Ao chegar na mesa, todos já estavam prontos para seguir a excursão pela universidade. Ana seguiu para a biblioteca, enquanto as garotas acompanharam o veterano.
– O que vai nos mostrar, Nozomu? – A cacheada perguntou curiosa, enquanto caminhava.
– As salas, e o pessoal que conheço. São poucos, mas são legais. – Respondeu animado.
O universitário apresentou todo o campus as garotas. Desde salas de aulas, até os laboratórios, a universidade era bem estruturada. Estudantes, todos bem vestidos, caminhavam centrados em seus objetivos. As novatas sentiam se eufóricas.
– Aqui, chegamos. – Nozomu parou em frente a uma sala. O lugar ficava em frente a um jardim.
A porta foi aberta, revelando uma pequena sala, com grandes janelas. Dois estudantes estavam sentados sobre o chão, conversando.
– Pessoal, essas são as garotas. – O coreano apresentou as novatas a uma dupla.
– Esses são Bae – Apontou para a garota. – e Oliver. – Agora para o garoto.
– Olá, é um prazer conhecê-los. – Oliver fez reverência.
Diferentemente do outro, Bae recebeu as recém chegadas, com um abraço caloroso.
– Sempre quis conhecer alguém estrangeiro. Dizem que vocês gostam de abraços, estou certa? – Bae era muito animada.
– Sim, adoramos. – As duas responderam felizes.
– Sejam bem vindas a nossa universidade!
– A Bae é bem animada. – Oliver comentou. O garoto com seus traços americanos, parecia simpático.
– Percebemos. E gostamos, brasileiros são assim também. – Fabíola respondeu.
Enquanto isso, na biblioteca, Ana estudava centrada. A paisagem, vista do segundo andar do prédio, era vislumbrante. Após algum tempo, e tomando precauções, foi até a janela mais próxima para descansar. O vento fresco se tornava confortável a medida que acalmava o nervosismo.
– Parece que o antigo colégio até recebeu uma reforma. – Riu consigo mesma. O lugar lembrava o ultimo lugar que estudara.
Dali de cima, se dava a visão da biblioteca por completo, principalmente da entrada. E foi daquele modo que ela avistou Hiroki.
Ele, junto a seus materiais. Entrou na biblioteca, concentrado com um fone em seu ouvido. Era engraçado e encantador como aquela visão mexia com a garota.
O momento continuava confortável, como se estivesse vendo um seriado sem fim. Até o momento que a garota a viu.
– d***a. – Parou rapidamente de encará-lo, e escondeu se atrás de uma das prateleiras.
O tempo parecia passar devagar a medida que o pânico da garota aumentava.
– Eu deveria te ignorar assim como faz comigo? – Uma voz doce e conhecida novamente.