Segredos

2670 Words
Ana e Do-Yun chegaram alguns minutos depois. A batida na porta fez Fabíola despertar da explosão de fofura sobre o novo cãozinho. Na entrada, os recém chegados seguravam duas sacolas cheias de alimento, e alguns de cuidado – pedidos posteriormente pela cacheada –. Adentraram o apartamento, e colocaram as compras em cima da mesa de centro na sala. Estavam exaustos. – Agora pode me dizer o porquê de tantas coisas? – Disse Ana Luiza, ao se virar para a amiga. – Você não vai acreditar! Encontrei um cachorro filhote na rua, enquanto procurava a farmácia. – Jura? E como passou pelo porteiro do prédio? – Dei um jeitinho. – Ah, olá Yun! – A cacheada logo notou o acompanhante. – Como está indo para os testes? – Oh, oi Fabi. Estou indo bem, a Ana tem me ajudado muito. – Do respondeu meio sem jeito. – Certo, onde está o bebê? – A mais nova olhava ao redor com curiosidade. – No banheiro; estava secando o meu cabelo, enquanto esperava por vocês. Luiza seguiu para o corredor, e os outros a acompanharam. – Meu Deus! Ele é muito fofo! – A mais baixa levou as mãos ao rosto, prestes a ter um surto. – Eu não disse? – Fabíola cruzou os braços, e se encostou no portal da porta. – Farei questão de ajudar a dar banho! – Nem pensar, dona Ana. Você ainda tem visita, esqueceu do Do-yun? Luiza olhou para trás, e viu o garoto um pouco sem graça. Enfim, saiu aos bufos. Na cozinha, Yun sentou-se a mesa, enquanto a garota preparava um lanche da noite. Já estava ficando tarde. – Choverá novamente. – O menino olhava para a janela, preocupado. – E? – Ana respondeu. – Como acha que vou embora? – Você não precisa ir. – A garota colocou uma bandeja com sanduíches sobre a mesa. – E o que vou dizer a minha mãe? Ela achará que estou me metendo em encrencas de novo. – Mas, você não está. Relaxa, estou te devendo uma. Se lembra? – Pelo que? – Deixei você bravo na biblioteca. E quero que se divirta antes do jogo, podemos assistir algo. – Não – Yun respondeu rápido demais. A adrenalina subiu pelo corpo, e ele não estava pronto. – Por que? – Ana não entendia. – Gosto de assistir filmes até tarde. E isso pode me atrapalhar no jogo. – Oh, tudo bem. – Respondeu cabisbaixa. – Bom, então te vejo amanhã? Yun balançou a cabeça positivamente com um sorriso. A garota o acompanhou até a porta e a abriu. Antes que o garoto se virasse, acenou com a mão. E logo foi surpreendido com um abraço. – Obrigada por me fazer companhia sempre. – Ana o apertou. – Digo o mesmo. – Ainda estava sem graça com aquele ato repentino. Fabíola – assim que terminou de limpar o animal – o secou, e levou o para a sala. Luiza olhava para a televisão, enquanto assistia um filme aleatório que passava na televisão. Seu olhar parecia tristonho, e logo que a outra chegou, foi substituído por um sorriso ao ver o cachorro. – Ele é uma gracinha. – Disse ela, ao pegá-lo no colo. – E sabe dar trabalho, vou precisar trocar de roupa. – Fabíola sentou-se no sofá, junto a garota. – Onde está o seu boy? – Continuou a cacheada. – Foi embora, disse que está muito concentrado no jogo de amanhã. – Deve ser muito importante para ele. – A mais velha balançou a cabeça. – Acha que ele gosta de min? – Ana olhou para a amiga. – Bom, está na cara. Ficam grudados, estudam juntos; E principalmente, ele é bem melhor que o Hiroki. – Fabíola deu risada ao pensar em certas situações. A mais nova não soube responder. Apenas sorriu. – No começo, achei que seria uma amizade passageira, mas agora está totalmente diferente. Vocês formam um belo casal, Luh. – Insistiu. – Obrigada, Fabi. Estou com um pouco de vergonha. – Abaixou a cabeça, olhando para as mãos. Seus dedos faziam círculos imaginários. – Qual é?! Garota, você é uma mulher emponderada em Seul. Vamos nos divertir. – A mais velha esfregou as mãos sobre os ombros da amiga. – Que tal um filme? A Adrielly vai demorar chegar. – Fabíola continuou. – Tudo bem. Tem alguns lançamentos no catálogo. – Ana respondeu com um semblante feliz. As garotas acabaram assistindo dois filmes até a chegada da ruiva. Já era tarde da noite, e quase nenhum carro passava pelas redondezas. Adrielly chegou e logo se juntou as amigas. – Estou exalta. – Se jogou no sofá. – Imagino, como foi o encontro? – Ana estava curiosa. – Normal, eu acho. – A recém chegada respondeu sorrindo. – Hurrum, sei. O que vocês fizeram? – Fomos ao cinema, depois em um restaurante que ele gostava, e então discutimos o filme enquanto tomávamos sorvete em um parque. – A normalidade na voz de Adrielly, não trazia euforia alguma. – Você não parece estar muito animada. – Fabíola levantou uma das sobrancelhas. – É... ele é alguém legal, mas não passa do normal. O Nozomu não tem algo que me faça querer ter um relacionamento. – Respondeu cabisbaixa. – Oh niga, não se preocupa. – A mais nova sorriu. – Sim, só não rolou o cthan com vocês. – Disse Fabíola. E as três se abraçaram. Um gesto carinhoso entre amigas, pela primeira vez a muito tempo, conseguiram passar uma noite fazendo coisas que gostavam; como um dia entre meninas. Arrumaram os cabelos, fizeram ceras caseiras, pintaram as unhas e fofocaram sobre astros. A noite terminou com uma pizza no meio da madrugada, e livros de quizes sobre as camas. Na manhã seguinte, as garotas acordaram animadas. Já estavam quase prontas para os compromissos dia. Adrielly e Fabíola fariam a visita para a velha amiga, e Ana seguiria para a escola de Do-Yun; afim de ver o jogo do amigo. A mais nova se separou das amigas logo na estação de ônibus, e foi caminhando para o colégio. O dia estava ensolarado, e o inverno já passara. As pessoas nas ruas andavam apressadas com a rotina de trabalho, e Ana estava ansiosa para ver as habilidades do garoto. Desde a conversa com Fabíola, borboletas circulavam em seu estômago com a ideia do próprio Do-Yun ter sentimentos por ela. Atravessou a rua e seguiu para a o novo bairro, não muito longe da própria residência. Logo que avistou o colégio, um sorriso resplandeceu em seu rosto, o dia seria divertido. Alunos entravam com pressa para os eventos. Em frente o colégio, uma grande faixa se entendia no alto, anunciando os campeonatos estudantis. Ana olhou para os lados na procura do amigo, mas a única coisa que avistou foi um misterioso carro preto estacionado do outro lado da rua. Assim que a garota viu o veículo, reconheceu a pessoa dentro do carro, Hiroki a observava. O homem ligou o carro e se aproximou de Ana – que até então estava paralisada –, estacionou próximo da calçada. Saiu do carro lentamente e parou ao lado da garota sem encará-lo, encostou as costas próximas a lataria, as camiseta verde carmin escuro, amarrotada junto com a calça preta, o deixavam extremamente elegante, e muito mais velho. Agora sim, ele aparentava ter a idade que possuia. Um veterano mais velho. Houve um silêncio, Luiza queria ouvir o que o outro teria a dizer. – Podemos conversar? – Hiroki estava sério, diferentemente de antes, parecia outra pessoa. – Agora? – Respondeu embasbacada, por que conversar justamente naquele momento? Ele balançou a cabeça. – Será a ultima vez. – Continuou. – Eu prometo. O carro rodava com velocidade. A paisagem da cidade, agora se transformava em uma vista rural, com grandes árvores de troncos finos, e uma extensa coloração verde musgo. A claridade havia diminuído graças as extensa camada de folhas e galhos que protegiam a estrada. – Para onde vamos? – Ana perguntou, olhando diretamente para o motorista. – Você vai gostar. – Hiroki virou para o lado da garota, e sorriu. Isso a tranquilizou. Houve um silêncio. – Queria poder me entender com você, sem que os outros se intrometessem. – Continuou ele. – Sabe que é estranho, certo? Eu não devia ter aceitado isso. – Ana respondeu. – Mais alguma pergunta? – Hiro estava sorrindo. – Como arrumou esse carro? Nunca o vi dirigindo. – É meu. Trabalhei para comprá-lo. – E realmente estava sendo sincero, era um Chevrolet Onix, preto. Algo que um universitário poderia comprar. – Nunca quis ir dirigindo até a faculdade? – Minha casa é perto. Caminhar faz bem para o meio ambiente. – Saquei. Hum, como soube que eu iria até o colégio do Yun? – Ouvir o nome de outro garoto fez com que Hiro se aborrecesse por um segundo. – Passo, faça outra. – Então... por quê está me procurando agora? Depois de me manter distante por tanto tempo. – Seja paciente. – A Adrielly ou a Fabíola sabem sobre isso? – A garota não tirava os olhos de Hiro. – Não, mas não estão felizes como, se isso te interessa. – O garoto respondeu, ainda olhando para a estrada. Então, Ana decidiu cortar o assunto, sabendo que suas amigas a matariam quando chegasse em casa. – Você me parece diferente, como se não fosse o garoto feliz e bobo de antes. Estou certa ou são só paranoias? – Sou diferente, peço desculpas. Conversar com universitários é um ato que requer muita paciência, e sei que sabe que muitos me perseguem. – Não gosta dos universitários? Nem dos seus amigos? Nozomu? – A garota estava confusamente espantada. – É divertido conviver com eles, mas prefiro pessoas mais velhas. Se você soubesse as coisas que já ouvi. – Hiroki respondeu em um tom de repúdio. – É... wow, você é amargo. – Ana respirou fundo. Tudo era muito diferente. – Seria isso que eu ouviria, se estivesse perto e falasse o que penso. – Então, as mensagens... você é aquele tipo de cara? Digo... comigo... – Se virou para a janela. – Mais ou menos. – Olhou para o lado, por um segundo. Envergonhado. – Não achei que iria muito longe. Hiroki estacionou o carro em frente a uma casa de madeira, envolta por uma grande floresta. Diferente da cidade, ainda fazia frio ali. Os dois desceram do carro e seguiram para dentro da residência, não havia ninguém além deles. – Não achei que iria chegar a ir em um lugar assim antes. – Luiza olhou ao redor, o chão amadeirado, a chaminé em frente as poltronas. Ao da sala, uma cozinha em conceito aberto estava pronta para uso. – Gosto de lugares calmos. – Hiro foi até a geladeira, e pegou um suco recém feito. – Percebi. Então, vai me dizer o que viemos fazer aqui? O homem não respondeu, apenas estendeu o copo cheio para a outra. – Aproveitar o dia. Não queria que fosse algo rápido de se resolver. Aliás, sempre nos vemos rápido demais. – Disse Hiroki. – Isso eu concordo. – Os dois sorriram. – O que lhe fez vir para a Coreia? – Minha obsessão por asiáticos de novelas. – Por parte era verdade. E o outro arregalou os olhos por um instante. – Estou brincando. Já fiquei muito curiosa quando mais nova, sobre o país. – Entendo. Já visitou todos os seus lugares favoritos aqui? – Acho que sim, eram bem poucos. – E o que gosta nesses lugares? – A paisagem. Por que tantas perguntas? – Ana inclinou a cabeça, um pouco para o lado. – Não reclamei sobre você antes. – Verdade. – Olhou para baixo. Por que tinha de perguntar tanto? – Enfim, venha comigo. – Ele se levantou, e saiu pela porta da frente. Ana levantou e o seguiu. O viu pegar uma pequena cesta no carro, e a fazer um pedido para que pegasse um fino pano azul no banco de trás do automóvel. Seguiram floresta adentro, os fios de luz adentrando a mata pelas frestas das árvores. Havia uma trilha de terra no chão, o lugar devia ser conhecido por muitas pessoas. Após alguns passos, os dois saíram da mata e chegaram a beira de um riacho. A água pendia de uma pequena cachoeira e desaguava naquele grande corpo d'Água, e desaparecia floresta a dentro. – Me dê o pano. – Ele pediu com gentileza. Hiroki pegou o pano e o estendeu perto do riacho, abriu a cesta e de lá tirou alguns doces e frutas, junto a um suco de mirtilos, recém feito. Ana olhou aquela cena com admiração, uma das coisas mais estranhas e repentinas que havia presenciado. – Isso é sério? – Ela riu. – Acho que seja. – Hiro a olhou, sorrindo. – Venha. A mais nova sentou-se ao lado do garoto. Agora, um pouco distantes, apreciavam da comida enquanto conversavam. – Como conheceu esse lugar? – Ana Luiza perguntou, curiosa. – Gosto daqui. – Hiroki deu o sorriso mais doce que a garota já vira. Adorava deixar a mais nova curiosa. – Bom, sem mais perguntas. Agora vou só ouvir. – Ouviremos a água então. – Hiro! – Disse manhosa. Ele gargalhou baixinho. – Está bem. Vou explicar a minha magnifica vida para você, e espero que seja paciente. – O medo subiu pela espinha. – Quando conheci você, estava com outra pessoa. Aquelas palavras causaram rodopios na cabeça da mais nova. – Isso me pegou de surpresa. Não sei como reagir, apenas continue. – A situação com ela é complicada, mas demorei para terminar, e peço desculpas por ter envolvido você nisso. – Sua voz era doce e calma. – Ainda é? – Ela ainda me ama. – E por que parou de amá-la? – Nunca a amei. – Ótimo jeito de começar um relacionamento. – Ana estava incrédula. – A vida é um desafio, e certas coisas você aceita, ou perde. – Seja mais exato, Hiroki. Por favor, sem metáforas, isso já é difícil de compreender. – Um dia você entenderá. A única coisa que posso te dizer, é que não estou mais com ela. – E por que está me contando isso? Me trazendo até aqui. – Eu gosto de você, Ana. No começo era uma brincadeira que passei muitas vezes, garotas falando comigo, tentando me conquistar. – Hiroki falava, ao ponto da garota apenas escutá-lo. – O Hiro no começo, aquele não sou eu. As circunstâncias não são boas para explicar com exatidão, mas quanto mais me afastava, mais estava perto. – Continuou ele. – As brincadeiras pareciam sinceras, e realmente diferentes. E o que eu mais odiava, era você mostrar tanto de si, e eu não poder deixar você me conhecer. – Isso ainda é confuso, por causa dela que você não poderia? Hiro, ainda seriamos amigos. – Eu tenho que usar uma máscara, Ana. E não posso tirá-la. – E usa com todos ao seu redor? – Ele se calou. – É necessário. – Enfim, o mais velho respondeu. – Preciso de tempo para lidar com isso, sabe. – Parou para respirar. – Processar isso é complicado. – Eu sei, temos tempo. Acredito que temos. O passeio durou até o fim da comida. Ana ficou calada por alguns segundos, até conseguir digerir todas as informações, mas continuou com um pé atrás; e não deu uma resposta relacionada ao assunto para Hiroki. Os dois falaram de outros temas, e se divertiram com brincadeiras. Quando voltaram para a escola, o jogo ainda acontecia, estava no último tempo. O garoto parou um pouco longe da escola, a pedido de Ana. – Chegamos. – Hiro estava um pouco sem graça, mas leve; havia sido sincero na medida do possível. – Obrigada. – A mais nova balançou a cabeça e abriu a porta do carro. Antes do segundo passou, mais uma vez, Hiroki a chamou pelo nome. – Estarei esperando suas resposta, mesmo que sejam dúvidas. – Foram suas últimas palavras.
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