Ana e Do-Yun chegaram alguns minutos depois. A batida na porta fez Fabíola despertar da explosão de fofura sobre o novo cãozinho.
Na entrada, os recém chegados seguravam duas sacolas cheias de alimento, e alguns de cuidado – pedidos posteriormente pela cacheada –. Adentraram o apartamento, e colocaram as compras em cima da mesa de centro na sala. Estavam exaustos.
– Agora pode me dizer o porquê de tantas coisas? – Disse Ana Luiza, ao se virar para a amiga.
– Você não vai acreditar! Encontrei um cachorro filhote na rua, enquanto procurava a farmácia.
– Jura? E como passou pelo porteiro do prédio?
– Dei um jeitinho.
– Ah, olá Yun! – A cacheada logo notou o acompanhante. – Como está indo para os testes?
– Oh, oi Fabi. Estou indo bem, a Ana tem me ajudado muito. – Do respondeu meio sem jeito.
– Certo, onde está o bebê? – A mais nova olhava ao redor com curiosidade.
– No banheiro; estava secando o meu cabelo, enquanto esperava por vocês.
Luiza seguiu para o corredor, e os outros a acompanharam.
– Meu Deus! Ele é muito fofo! – A mais baixa levou as mãos ao rosto, prestes a ter um surto.
– Eu não disse? – Fabíola cruzou os braços, e se encostou no portal da porta.
– Farei questão de ajudar a dar banho!
– Nem pensar, dona Ana. Você ainda tem visita, esqueceu do Do-yun?
Luiza olhou para trás, e viu o garoto um pouco sem graça. Enfim, saiu aos bufos.
Na cozinha, Yun sentou-se a mesa, enquanto a garota preparava um lanche da noite. Já estava ficando tarde.
– Choverá novamente. – O menino olhava para a janela, preocupado.
– E? – Ana respondeu.
– Como acha que vou embora?
– Você não precisa ir. – A garota colocou uma bandeja com sanduíches sobre a mesa.
– E o que vou dizer a minha mãe? Ela achará que estou me metendo em encrencas de novo.
– Mas, você não está. Relaxa, estou te devendo uma. Se lembra?
– Pelo que?
– Deixei você bravo na biblioteca. E quero que se divirta antes do jogo, podemos assistir algo.
– Não – Yun respondeu rápido demais. A adrenalina subiu pelo corpo, e ele não estava pronto.
– Por que? – Ana não entendia.
– Gosto de assistir filmes até tarde. E isso pode me atrapalhar no jogo.
– Oh, tudo bem. – Respondeu cabisbaixa. – Bom, então te vejo amanhã?
Yun balançou a cabeça positivamente com um sorriso.
A garota o acompanhou até a porta e a abriu. Antes que o garoto se virasse, acenou com a mão.
E logo foi surpreendido com um abraço.
– Obrigada por me fazer companhia sempre. – Ana o apertou.
– Digo o mesmo. – Ainda estava sem graça com aquele ato repentino.
Fabíola – assim que terminou de limpar o animal – o secou, e levou o para a sala. Luiza olhava para a televisão, enquanto assistia um filme aleatório que passava na televisão. Seu olhar parecia tristonho, e logo que a outra chegou, foi substituído por um sorriso ao ver o cachorro.
– Ele é uma gracinha. – Disse ela, ao pegá-lo no colo.
– E sabe dar trabalho, vou precisar trocar de roupa. – Fabíola sentou-se no sofá, junto a garota.
– Onde está o seu boy? – Continuou a cacheada.
– Foi embora, disse que está muito concentrado no jogo de amanhã.
– Deve ser muito importante para ele. – A mais velha balançou a cabeça.
– Acha que ele gosta de min? – Ana olhou para a amiga.
– Bom, está na cara. Ficam grudados, estudam juntos; E principalmente, ele é bem melhor que o Hiroki. – Fabíola deu risada ao pensar em certas situações.
A mais nova não soube responder. Apenas sorriu.
– No começo, achei que seria uma amizade passageira, mas agora está totalmente diferente. Vocês formam um belo casal, Luh. – Insistiu.
– Obrigada, Fabi. Estou com um pouco de vergonha. – Abaixou a cabeça, olhando para as mãos. Seus dedos faziam círculos imaginários.
– Qual é?! Garota, você é uma mulher emponderada em Seul. Vamos nos divertir. – A mais velha esfregou as mãos sobre os ombros da amiga.
– Que tal um filme? A Adrielly vai demorar chegar. – Fabíola continuou.
– Tudo bem. Tem alguns lançamentos no catálogo. – Ana respondeu com um semblante feliz.
As garotas acabaram assistindo dois filmes até a chegada da ruiva. Já era tarde da noite, e quase nenhum carro passava pelas redondezas. Adrielly chegou e logo se juntou as amigas.
– Estou exalta. – Se jogou no sofá.
– Imagino, como foi o encontro? – Ana estava curiosa.
– Normal, eu acho. – A recém chegada respondeu sorrindo.
– Hurrum, sei. O que vocês fizeram?
– Fomos ao cinema, depois em um restaurante que ele gostava, e então discutimos o filme enquanto tomávamos sorvete em um parque. – A normalidade na voz de Adrielly, não trazia euforia alguma.
– Você não parece estar muito animada. – Fabíola levantou uma das sobrancelhas.
– É... ele é alguém legal, mas não passa do normal. O Nozomu não tem algo que me faça querer ter um relacionamento. – Respondeu cabisbaixa.
– Oh niga, não se preocupa. – A mais nova sorriu.
– Sim, só não rolou o cthan com vocês. – Disse Fabíola.
E as três se abraçaram. Um gesto carinhoso entre amigas, pela primeira vez a muito tempo, conseguiram passar uma noite fazendo coisas que gostavam; como um dia entre meninas. Arrumaram os cabelos, fizeram ceras caseiras, pintaram as unhas e fofocaram sobre astros. A noite terminou com uma pizza no meio da madrugada, e livros de quizes sobre as camas.
Na manhã seguinte, as garotas acordaram animadas. Já estavam quase prontas para os compromissos dia. Adrielly e Fabíola fariam a visita para a velha amiga, e Ana seguiria para a escola de Do-Yun; afim de ver o jogo do amigo.
A mais nova se separou das amigas logo na estação de ônibus, e foi caminhando para o colégio. O dia estava ensolarado, e o inverno já passara. As pessoas nas ruas andavam apressadas com a rotina de trabalho, e Ana estava ansiosa para ver as habilidades do garoto. Desde a conversa com Fabíola, borboletas circulavam em seu estômago com a ideia do próprio Do-Yun ter sentimentos por ela.
Atravessou a rua e seguiu para a o novo bairro, não muito longe da própria residência. Logo que avistou o colégio, um sorriso resplandeceu em seu rosto, o dia seria divertido.
Alunos entravam com pressa para os eventos. Em frente o colégio, uma grande faixa se entendia no alto, anunciando os campeonatos estudantis. Ana olhou para os lados na procura do amigo, mas a única coisa que avistou foi um misterioso carro preto estacionado do outro lado da rua.
Assim que a garota viu o veículo, reconheceu a pessoa dentro do carro, Hiroki a observava.
O homem ligou o carro e se aproximou de Ana – que até então estava paralisada –, estacionou próximo da calçada. Saiu do carro lentamente e parou ao lado da garota sem encará-lo, encostou as costas próximas a lataria, as camiseta verde carmin escuro, amarrotada junto com a calça preta, o deixavam extremamente elegante, e muito mais velho. Agora sim, ele aparentava ter a idade que possuia. Um veterano mais velho.
Houve um silêncio, Luiza queria ouvir o que o outro teria a dizer.
– Podemos conversar? – Hiroki estava sério, diferentemente de antes, parecia outra pessoa.
– Agora? – Respondeu embasbacada, por que conversar justamente naquele momento?
Ele balançou a cabeça.
– Será a ultima vez. – Continuou. – Eu prometo.
O carro rodava com velocidade. A paisagem da cidade, agora se transformava em uma vista rural, com grandes árvores de troncos finos, e uma extensa coloração verde musgo. A claridade havia diminuído graças as extensa camada de folhas e galhos que protegiam a estrada.
– Para onde vamos? – Ana perguntou, olhando diretamente para o motorista.
– Você vai gostar. – Hiroki virou para o lado da garota, e sorriu. Isso a tranquilizou.
Houve um silêncio.
– Queria poder me entender com você, sem que os outros se intrometessem. – Continuou ele.
– Sabe que é estranho, certo? Eu não devia ter aceitado isso. – Ana respondeu.
– Mais alguma pergunta? – Hiro estava sorrindo.
– Como arrumou esse carro? Nunca o vi dirigindo.
– É meu. Trabalhei para comprá-lo. – E realmente estava sendo sincero, era um Chevrolet Onix, preto. Algo que um universitário poderia comprar.
– Nunca quis ir dirigindo até a faculdade?
– Minha casa é perto. Caminhar faz bem para o meio ambiente.
– Saquei. Hum, como soube que eu iria até o colégio do Yun? – Ouvir o nome de outro garoto fez com que Hiro se aborrecesse por um segundo.
– Passo, faça outra.
– Então... por quê está me procurando agora? Depois de me manter distante por tanto tempo.
– Seja paciente.
– A Adrielly ou a Fabíola sabem sobre isso? – A garota não tirava os olhos de Hiro.
– Não, mas não estão felizes como, se isso te interessa. – O garoto respondeu, ainda olhando para a estrada. Então, Ana decidiu cortar o assunto, sabendo que suas amigas a matariam quando chegasse em casa.
– Você me parece diferente, como se não fosse o garoto feliz e bobo de antes. Estou certa ou são só paranoias?
– Sou diferente, peço desculpas. Conversar com universitários é um ato que requer muita paciência, e sei que sabe que muitos me perseguem.
– Não gosta dos universitários? Nem dos seus amigos? Nozomu? – A garota estava confusamente espantada.
– É divertido conviver com eles, mas prefiro pessoas mais velhas. Se você soubesse as coisas que já ouvi. – Hiroki respondeu em um tom de repúdio.
– É... wow, você é amargo. – Ana respirou fundo. Tudo era muito diferente.
– Seria isso que eu ouviria, se estivesse perto e falasse o que penso.
– Então, as mensagens... você é aquele tipo de cara? Digo... comigo... – Se virou para a janela.
– Mais ou menos. – Olhou para o lado, por um segundo. Envergonhado. – Não achei que iria muito longe.
Hiroki estacionou o carro em frente a uma casa de madeira, envolta por uma grande floresta. Diferente da cidade, ainda fazia frio ali. Os dois desceram do carro e seguiram para dentro da residência, não havia ninguém além deles.
– Não achei que iria chegar a ir em um lugar assim antes. – Luiza olhou ao redor, o chão amadeirado, a chaminé em frente as poltronas. Ao da sala, uma cozinha em conceito aberto estava pronta para uso.
– Gosto de lugares calmos. – Hiro foi até a geladeira, e pegou um suco recém feito.
– Percebi. Então, vai me dizer o que viemos fazer aqui?
O homem não respondeu, apenas estendeu o copo cheio para a outra.
– Aproveitar o dia. Não queria que fosse algo rápido de se resolver. Aliás, sempre nos vemos rápido demais. – Disse Hiroki.
– Isso eu concordo. – Os dois sorriram.
– O que lhe fez vir para a Coreia?
– Minha obsessão por asiáticos de novelas. – Por parte era verdade. E o outro arregalou os olhos por um instante. – Estou brincando. Já fiquei muito curiosa quando mais nova, sobre o país.
– Entendo. Já visitou todos os seus lugares favoritos aqui?
– Acho que sim, eram bem poucos.
– E o que gosta nesses lugares?
– A paisagem. Por que tantas perguntas? – Ana inclinou a cabeça, um pouco para o lado.
– Não reclamei sobre você antes.
– Verdade. – Olhou para baixo. Por que tinha de perguntar tanto?
– Enfim, venha comigo. – Ele se levantou, e saiu pela porta da frente.
Ana levantou e o seguiu. O viu pegar uma pequena cesta no carro, e a fazer um pedido para que pegasse um fino pano azul no banco de trás do automóvel.
Seguiram floresta adentro, os fios de luz adentrando a mata pelas frestas das árvores. Havia uma trilha de terra no chão, o lugar devia ser conhecido por muitas pessoas.
Após alguns passos, os dois saíram da mata e chegaram a beira de um riacho. A água pendia de uma pequena cachoeira e desaguava naquele grande corpo d'Água, e desaparecia floresta a dentro.
– Me dê o pano. – Ele pediu com gentileza.
Hiroki pegou o pano e o estendeu perto do riacho, abriu a cesta e de lá tirou alguns doces e frutas, junto a um suco de mirtilos, recém feito. Ana olhou aquela cena com admiração, uma das coisas mais estranhas e repentinas que havia presenciado.
– Isso é sério? – Ela riu.
– Acho que seja. – Hiro a olhou, sorrindo. – Venha.
A mais nova sentou-se ao lado do garoto. Agora, um pouco distantes, apreciavam da comida enquanto conversavam.
– Como conheceu esse lugar? – Ana Luiza perguntou, curiosa.
– Gosto daqui. – Hiroki deu o sorriso mais doce que a garota já vira. Adorava deixar a mais nova curiosa.
– Bom, sem mais perguntas. Agora vou só ouvir.
– Ouviremos a água então.
– Hiro! – Disse manhosa. Ele gargalhou baixinho.
– Está bem. Vou explicar a minha magnifica vida para você, e espero que seja paciente. – O medo subiu pela espinha.
– Quando conheci você, estava com outra pessoa.
Aquelas palavras causaram rodopios na cabeça da mais nova.
– Isso me pegou de surpresa. Não sei como reagir, apenas continue.
– A situação com ela é complicada, mas demorei para terminar, e peço desculpas por ter envolvido você nisso. – Sua voz era doce e calma.
– Ainda é?
– Ela ainda me ama.
– E por que parou de amá-la?
– Nunca a amei.
– Ótimo jeito de começar um relacionamento. – Ana estava incrédula.
– A vida é um desafio, e certas coisas você aceita, ou perde.
– Seja mais exato, Hiroki. Por favor, sem metáforas, isso já é difícil de compreender.
– Um dia você entenderá. A única coisa que posso te dizer, é que não estou mais com ela.
– E por que está me contando isso? Me trazendo até aqui.
– Eu gosto de você, Ana. No começo era uma brincadeira que passei muitas vezes, garotas falando comigo, tentando me conquistar. – Hiroki falava, ao ponto da garota apenas escutá-lo.
– O Hiro no começo, aquele não sou eu. As circunstâncias não são boas para explicar com exatidão, mas quanto mais me afastava, mais estava perto. – Continuou ele.
– As brincadeiras pareciam sinceras, e realmente diferentes. E o que eu mais odiava, era você mostrar tanto de si, e eu não poder deixar você me conhecer.
– Isso ainda é confuso, por causa dela que você não poderia? Hiro, ainda seriamos amigos.
– Eu tenho que usar uma máscara, Ana. E não posso tirá-la.
– E usa com todos ao seu redor? – Ele se calou.
– É necessário. – Enfim, o mais velho respondeu.
– Preciso de tempo para lidar com isso, sabe. – Parou para respirar. – Processar isso é complicado.
– Eu sei, temos tempo. Acredito que temos.
O passeio durou até o fim da comida. Ana ficou calada por alguns segundos, até conseguir digerir todas as informações, mas continuou com um pé atrás; e não deu uma resposta relacionada ao assunto para Hiroki. Os dois falaram de outros temas, e se divertiram com brincadeiras.
Quando voltaram para a escola, o jogo ainda acontecia, estava no último tempo. O garoto parou um pouco longe da escola, a pedido de Ana.
– Chegamos. – Hiro estava um pouco sem graça, mas leve; havia sido sincero na medida do possível.
– Obrigada. – A mais nova balançou a cabeça e abriu a porta do carro.
Antes do segundo passou, mais uma vez, Hiroki a chamou pelo nome.
– Estarei esperando suas resposta, mesmo que sejam dúvidas. – Foram suas últimas palavras.