As ondas do mar se contorciam em uma dança lenta e assimétrica. Acima daquele grande precipício, alguns soldados – todos sem camiseta – corriam pela costa da ilha. O anoitecer se aproximava aos poucos. Devido a altura de JeJu, a forte frente fria se contornava companheira na caminhada rotineira do exército coreano.
Enquanto os garotos corriam, dois homens – aparentemente mais velhos – conversavam apoiados em rochas próximas ao precipício. Hoseok olhava para seu antigo amigo, suas mãos se apoiavam nos montes para não cair.
– Os novatos sempre tem dificuldade de correr por toda a ilha.
– Com certeza alguém vai desistir hoje. – O outro respondeu, na medida que bebericava a água em uma garrafa.
– Não diria isso si estivéssemos no lugar deles. Pelo que me lembro, você era o único que tinha certeza que todos estariam no esquadrão. – Jung sorriu.
– Aish, tudo bem, você está certo. Não me faça lembrar daquela época.
– Foram bons tempos. Oh, Yoongi, que horas são?
– Ainda está cedo, podemos fazer a equipe dar mais uma volta. – Min Yoongi, o amigo mais próximo do asiático, havia entrado para o exército na mesma época que Jung. E desde aquele tempo, nunca se separaram.
Com seus olhos pequenos, Min possuía um rosto meigo e fechado. A pele era mais branca que a de Hoseok. Desde que ingressara no serviço militar, sua fisionomia havia mudado muito, o corpo mais musculoso, e a boa conduta se tornaram o seu orgulho. Seus cabelos loiros, raspados da orelha até a nuca, possuíam volume no parte superior, e pendiam sobre a inferior. A franja – partida entre o meio – davam graça a seu rosto fino e redondo.
Os dois correram para a liderança da marcha.
– Certo pessoal, mais uma volta! – Gritou o moreno.
Além da longa caminhada, a longa distância até o quartel serviu como uma mova repetição cansativa. Era hora do jantar.
No banheiro, Min e Jung foram os últimos a entrar no banheiro. Graças a isso, o local estava vazio.
A água pendia sobre os corpos brancos e suados – separados pelos baixos muros entre cada chuveiro. – Yoongi esfregava o próprio rosto, enquanto o outro esperava pelo aumento da tempera da ducha.
– Como foi a viagem? – Perguntou, já com o rosto limpo.
– Divertida. Não achei que fosse encontrar o Hiroki em Seul.
– Eles estão na capital? Agora faz sentido. – O loiro respondeu.
– Sentido?
– Sobre o que o Wonsu disse, o g***o de estágio.
– Oh, esse g***o é o que está sendo supervisionado pela Haram? – Hoseok se lembrou dos últimos dias antes de voltar para Jeju.
– Parece que sim.
Jung olhou para o nada por um momento.
– Conheci uma brasileira em Seul. – Mudou de assunto.
– Nas férias? Como foi? – O outro se interessou nas palavras do amigos.
– Na verdade conheci três. Estão fazendo intercâmbio no país, sentia falta de conhecer pessoas tão animadas.
– E não pegou nenhuma?
– Não.
– Ficou praticamente castrado por um ano, e não se divertiu. Muito inteligente. – Min jogou a cabeça embaixo da água corrente.
– Estou bem, fique tranquilo. Quando vai pegar suas férias? Alguma hora vão te enxotar daqui. Há quanto tempo não vai na cidade?
– Não preciso ir. – Disse em seco.
– A Sophia não iria querer isso. – Naquele momento, o moreno se arrependeu de ter falado, ao ver a reação do outro.
– Não ligo para o que ela pensaria. – Desligou o chuveiro e saiu da ducha.
A enfermaria da base de Jeju – pacata e agradável – continuava silenciosa, exceto pelos gemidos de dor de um soldado. O local, claro e iluminado pela luz solar, abrigava os feridos que chegavam dos treinos.
– Ahyu, fique quieto, Yoongi. – Disse a enfermeira, enquanto esterilizava o machucado no rosto do novato.
Ele sorriu.
– O que o John faz com você nas caminhadas? É muito difícil? – Ela continuou falando.
– Não, mas sempre me machuco. Acho que sou o pior entre eles. – Disse cabisbaixo.
– Um dia você será um exemplo aqui, acredite. Meu pai me contava, quando era mais nova, que foi muito difícil para ele.
– E hoje é o Wonsu. Não quero ficar por muito tempo, ainda gosto da vida na cidade.
– Bom, por que não tenta descobrir mais sobre a vida militar? Você fica bem de farda. – A garota sorriu, era uma mulher simpática, aparentemente jovem. Com seus cabelos negros, preso em coque, portava um uniforme militar.
– Como gostou da vida militar, Sophia?
– Não sei, minha mãe detestava. Quando meus pais se separaram, decidi ficar com meu pai, e JeJu foi onde fiquei a maioria do tempo.
– Estou tentando entender.
– Achei aconchegante a vida militar, não é r**m. Ainda posso ver muitos homens bonitos por aqui.
Yoongi ficou enciumado.
– Já se apaixonou por alguém?
– Acho que não. E não quero, gosto da liberdade que tenho.
– Seu pai deve te amar como filha.
– As vezes. – Ela riu. – E você? Gostou de alguém lá fora?
– O trabalho me mantinha ocupado.
– Pronto, novinho em folha. – Sophia terminou o curativo.
– E não ouse voltar machucado. – Continuou ela.
No refeitório, alguns soldados terminavam suas refeições enquanto conversavam sobre a rotina. Hoseok chegou ao lugar, pegou um pouco do prato do dia, e procurou pela amigo. Seus olhos rodeavam por toda cantina.
Yoongi estava sentado sozinho, perto da vidraça da janela, enquanto levava a colher até a boca, lentamente.
– Comer Budae-jjigae novamente, me fez sentir falta da comida de Seul. – Hoseok sentou-se em frente ao companheiro.
– Isso é um lixo. – Min olhou para a comida, enjoado.
– Podemos ir no bar da província amanhã. A Haram me avisou que chega amanhã.
– Com o Hiroki, certo? – Yoongi não estava muito contente.
– Não sei, talvez. Mas qualquer tempo é bom para beber Soju. – Sorriu.
– Você sabe o que acho sobre ele, por que ainda tenta?
– Porque a Haram é minha amiga.
– Alguém que consegue um cargo de alta patente para um soldado iniciante e começa a namorá-lo, não acho que seja normal. – O loiro bebeu um pouco de água.
– Não precisa ficar bravo com isso.
– Ele nos deixou para sofrer, sozinhos. Não merece metade do que tem. Alguma hora vai acabar fazendo besteira, aposta?
Hoseok se virou para a comida, calado.
– O que? – Yoongi desconfiou. – Vai me dizer que ele... c*****o, dessa vez vou rir.
– Isso não vai sair daqui, ouviu? – Hoseok ficou sério.
– Claro, mas quero saber mais.
O moreno suspirou por um instante.
– Na festa que fomos, ele estava gostando de uma garota. Depois me pediu para não contar para ninguém.
– Devia ter contado, agora a garota vai sofrer por um i****a.
– É complicado, mas isso colocaria ela mais em risco. A Haram culparia qualquer pessoa, menos o Hiroki.
– Esta bem, chega de coisas irritantes. Como conheceu as brasileiras? – O loiro sorriu.
– Na mesma festa.
– Me deixa ver se entendi, conheceu justo as brasileiras nessa festa. Elas foram correndo pedir autógrafo?
– Não, claro que não.
– Então elas estava com o Hiroki? – Hoseok se calou. – Saquei, e você não quer que a Haram machuque a garota que você conheceu, já que são próximas?
– Sim.
– Me conte mais, quero saber a mágica que ela fez.
– Nunca conheci uma pessoa doce como ela. Se passasse mais tempo, iria entender.
– Se apaixonou em alguém por uma noite. Isso chamo de carência.
Min se retirou da mesa.