Passado

1294 Words
As ondas do mar se contorciam em uma dança lenta e assimétrica. Acima daquele grande precipício, alguns soldados – todos sem camiseta – corriam pela costa da ilha. O anoitecer se aproximava aos poucos. Devido a altura de JeJu, a forte frente fria se contornava companheira na caminhada rotineira do exército coreano. Enquanto os garotos corriam, dois homens – aparentemente mais velhos – conversavam apoiados em rochas próximas ao precipício. Hoseok olhava para seu antigo amigo, suas mãos se apoiavam nos montes para não cair. – Os novatos sempre tem dificuldade de correr por toda a ilha. – Com certeza alguém vai desistir hoje. – O outro respondeu, na medida que bebericava a água em uma garrafa. – Não diria isso si estivéssemos no lugar deles. Pelo que me lembro, você era o único que tinha certeza que todos estariam no esquadrão. – Jung sorriu. – Aish, tudo bem, você está certo. Não me faça lembrar daquela época. – Foram bons tempos. Oh, Yoongi, que horas são? – Ainda está cedo, podemos fazer a equipe dar mais uma volta. – Min Yoongi, o amigo mais próximo do asiático, havia entrado para o exército na mesma época que Jung. E desde aquele tempo, nunca se separaram. Com seus olhos pequenos, Min possuía um rosto meigo e fechado. A pele era mais branca que a de Hoseok. Desde que ingressara no serviço militar, sua fisionomia havia mudado muito, o corpo mais musculoso, e a boa conduta se tornaram o seu orgulho. Seus cabelos loiros, raspados da orelha até a nuca, possuíam volume no parte superior, e pendiam sobre a inferior. A franja – partida entre o meio – davam graça a seu rosto fino e redondo. Os dois correram para a liderança da marcha. – Certo pessoal, mais uma volta! – Gritou o moreno. Além da longa caminhada, a longa distância até o quartel serviu como uma mova repetição cansativa. Era hora do jantar. No banheiro, Min e Jung foram os últimos a entrar no banheiro. Graças a isso, o local estava vazio. A água pendia sobre os corpos brancos e suados – separados pelos baixos muros entre cada chuveiro. – Yoongi esfregava o próprio rosto, enquanto o outro esperava pelo aumento da tempera da ducha. – Como foi a viagem? – Perguntou, já com o rosto limpo. – Divertida. Não achei que fosse encontrar o Hiroki em Seul. – Eles estão na capital? Agora faz sentido. – O loiro respondeu. – Sentido? – Sobre o que o Wonsu disse, o g***o de estágio. – Oh, esse g***o é o que está sendo supervisionado pela Haram? – Hoseok se lembrou dos últimos dias antes de voltar para Jeju. – Parece que sim. Jung olhou para o nada por um momento. – Conheci uma brasileira em Seul. – Mudou de assunto. – Nas férias? Como foi? – O outro se interessou nas palavras do amigos. – Na verdade conheci três. Estão fazendo intercâmbio no país, sentia falta de conhecer pessoas tão animadas. – E não pegou nenhuma? – Não. – Ficou praticamente castrado por um ano, e não se divertiu. Muito inteligente. – Min jogou a cabeça embaixo da água corrente. – Estou bem, fique tranquilo. Quando vai pegar suas férias? Alguma hora vão te enxotar daqui. Há quanto tempo não vai na cidade? – Não preciso ir. – Disse em seco. – A Sophia não iria querer isso. – Naquele momento, o moreno se arrependeu de ter falado, ao ver a reação do outro. – Não ligo para o que ela pensaria. – Desligou o chuveiro e saiu da ducha. A enfermaria da base de Jeju – pacata e agradável – continuava silenciosa, exceto pelos gemidos de dor de um soldado. O local, claro e iluminado pela luz solar, abrigava os feridos que chegavam dos treinos. – Ahyu, fique quieto, Yoongi. – Disse a enfermeira, enquanto esterilizava o machucado no rosto do novato. Ele sorriu. – O que o John faz com você nas caminhadas? É muito difícil? – Ela continuou falando. – Não, mas sempre me machuco. Acho que sou o pior entre eles. – Disse cabisbaixo. – Um dia você será um exemplo aqui, acredite. Meu pai me contava, quando era mais nova, que foi muito difícil para ele. – E hoje é o Wonsu. Não quero ficar por muito tempo, ainda gosto da vida na cidade. – Bom, por que não tenta descobrir mais sobre a vida militar? Você fica bem de farda. – A garota sorriu, era uma mulher simpática, aparentemente jovem. Com seus cabelos negros, preso em coque, portava um uniforme militar. – Como gostou da vida militar, Sophia? – Não sei, minha mãe detestava. Quando meus pais se separaram, decidi ficar com meu pai, e JeJu foi onde fiquei a maioria do tempo. – Estou tentando entender. – Achei aconchegante a vida militar, não é r**m. Ainda posso ver muitos homens bonitos por aqui. Yoongi ficou enciumado. – Já se apaixonou por alguém? – Acho que não. E não quero, gosto da liberdade que tenho. – Seu pai deve te amar como filha. – As vezes. – Ela riu. – E você? Gostou de alguém lá fora? – O trabalho me mantinha ocupado. – Pronto, novinho em folha. – Sophia terminou o curativo. – E não ouse voltar machucado. – Continuou ela. No refeitório, alguns soldados terminavam suas refeições enquanto conversavam sobre a rotina. Hoseok chegou ao lugar, pegou um pouco do prato do dia, e procurou pela amigo. Seus olhos rodeavam por toda cantina. Yoongi estava sentado sozinho, perto da vidraça da janela, enquanto levava a colher até a boca, lentamente. – Comer Budae-jjigae novamente, me fez sentir falta da comida de Seul. – Hoseok sentou-se em frente ao companheiro. – Isso é um lixo. – Min olhou para a comida, enjoado. – Podemos ir no bar da província amanhã. A Haram me avisou que chega amanhã. – Com o Hiroki, certo? – Yoongi não estava muito contente. – Não sei, talvez. Mas qualquer tempo é bom para beber Soju. – Sorriu. – Você sabe o que acho sobre ele, por que ainda tenta? – Porque a Haram é minha amiga. – Alguém que consegue um cargo de alta patente para um soldado iniciante e começa a namorá-lo, não acho que seja normal. – O loiro bebeu um pouco de água. – Não precisa ficar bravo com isso. – Ele nos deixou para sofrer, sozinhos. Não merece metade do que tem. Alguma hora vai acabar fazendo besteira, aposta? Hoseok se virou para a comida, calado. – O que? – Yoongi desconfiou. – Vai me dizer que ele... c*****o, dessa vez vou rir. – Isso não vai sair daqui, ouviu? – Hoseok ficou sério. – Claro, mas quero saber mais. O moreno suspirou por um instante. – Na festa que fomos, ele estava gostando de uma garota. Depois me pediu para não contar para ninguém. – Devia ter contado, agora a garota vai sofrer por um i****a. – É complicado, mas isso colocaria ela mais em risco. A Haram culparia qualquer pessoa, menos o Hiroki. – Esta bem, chega de coisas irritantes. Como conheceu as brasileiras? – O loiro sorriu. – Na mesma festa. – Me deixa ver se entendi, conheceu justo as brasileiras nessa festa. Elas foram correndo pedir autógrafo? – Não, claro que não. – Então elas estava com o Hiroki? – Hoseok se calou. – Saquei, e você não quer que a Haram machuque a garota que você conheceu, já que são próximas? – Sim. – Me conte mais, quero saber a mágica que ela fez. – Nunca conheci uma pessoa doce como ela. Se passasse mais tempo, iria entender. – Se apaixonou em alguém por uma noite. Isso chamo de carência. Min se retirou da mesa. 
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