Enfim a garota criou coragem para dizer. Um suspiro profundo, sua mente rejeitava a ideia de revelar a verdade.
Talvez ele não ouça, a musica alta não deixará.
Hiroki a olhava curioso. Será que ele contaria? E como deveria reagir?
– Não namoro o Nozomu. – Disse cabisbaixa.
O garoto não sabia o que responder, muito menos o que fazer. Estavam muito próximos, apesar da separação dada pela mesa.
A luz amarela incidia sobre o rosto da garota.
Os olhares fixados, imergiam no silêncio entre o par. Por fim Hiroki sorriu cabisbaixo.
– Todos sabiam. – O garoto sorriu.
– O que? – Estava surpresa.
– O Nozomu é meu amigo desde que me transferi. Não se preocupa.
As palavras de Hiro foram em vão.
A garota levantou da cadeira, olhou para o garoto por alguns segundos, até seus olhos marejaram, e saiu correndo. E mais uma vez, Hiroki não fazia ideia de qual deveria ser sua reação.
Fora do salão, as ruas mortas sem movimento, iluminadas pela luz fraca advinda dos postes, gritavam silenciosas. Ana atravessou a passagem, as pressas.
Não possuía destino, e não voltaria.
Não depois do que escutara.
O vestido branco chamava a atenção de quem passava pela rua. Ou até mesmo dos fregueses de restaurantes e bares que residiam perto dali. Luiza não se importava com o que pensaria, estava cansada demais para isso.
Enquanto isso, na festa, Hiroki demorou para recordar da situação. Sua mente havia parado por alguns segundos. Tempo suficiente para que a garota saísse correndo.
O garoto se levantou da cadeira e saiu do salão. Olhou para os lados, e não a encontrou.
– Onde ela está? – Disse baixo, coçando a cabeça, preocupado.
Frustrado, voltou para dentro do salão. Ela não havia voltado.
Jung Hoseok estava sentando a mesa, bebericando o champanhe na taça. Logo que viu o amigo, o recém chegado acenou e se sentou.
– E a garota? Também decidiu ir ao banheiro? – Jung perguntou, rindo.
– Ela me disse algo e saiu. Foi repentino, não entendi. – Hiroki respondeu.
– Quer que eu ajude a procurá-la?
– Sim.
– Vou pegar o meu carro. – O amigo tirou a chave do paletó.
– Irei avisar as amigas delas. Te encontro no estacionamento daqui a 15 minutos. – Hiroki se afastou.
Na outra mesa, o g***o continuava a se entreter com o jogo da garrafa. Mais verdades haviam saído de la. Hiroki chegou atônito. E para não chamar a atenção, decidiu falar com Fabíola a sós.
Fez sinal com a mão.
Em um canto, os dois começaram a debater a situação.
– Fabíola, a Ana sumiu. – O garoto não tinha onde enfiar a cara.
– O que?! – Respondeu espantada. Quase engasgou com a bebida.
– Sabe onde ela pode ter ido?
– Não. – Checou o celular. – Ela não mandou nenhuma mensagem. O que aconteceu entre vocês?
– Vamos procurá-la pela cidade. Meu amigo vai nos levar, acho que devemos evitar contar para o resto do pessoal.
– Como assim evitar, Hiro? Ela está andando sozinha por uma cidade que não conhece direito. – A morena não podia acreditar no que acabara de ouvir.
– Não vai adiantar de nada se as pessoas souberem. E ela não deve estar longe.
Enfim a amiga cedeu.
Hiroki e Fabíola seguiram para o estacionamento. A buzina de um dos carros tocou alta, Hoseok estava pronto.
A morena entrou no carro, um pouco ociosa. Fabi não conhecia nada sobre o proprietário do veículo, e muitos menos sobre outras companhias de Hiroki, mas sua preocupação com a amiga era maior.
Sentou em um dos bancos traseiros. Quando olhou para frente, ficou ainda mais assustada: Hoseok estava ali. Instintivamente suas mãos tremeram, o mesmo homem de antes estava em sua frente. O mesmo alto, magro, e vaidoso.
Como antes, diferentemente dos padrões de vestimentas dos garotos, Jung possuía um terno todo preto.
– Onde vamos? – O estranho perguntou.
– Em qual lugar você acha que ela está, Fabíola? – Hiroki perguntou, estando ao lado do motorista. Virou se para trás para olhar a garota.
– Acho que podemos passar na minha casa. Ela pode ter voltado para lá. – A morena respondeu.
– Qual é o endereço? – Hoseok olhou pelo retrovisor.
Fabíola deu as instruções para que seguissem até a sua residência. Enquanto se locomoviam, o silêncio continuava no carro.
– Bom... Fabíola, esse é o Hoseok. Hoseok, essa é Fabíola. – Hiroki tentou quebrar o silêncio.
– Nós já nos conhecemos. – Os dois disseram em sincronia.
– WO, como?
– Esbarramos na festa. – O motorista sorria ao falar.
– Culpa do champanhe, talvez. – Fabíola queria rir, mas optou apenas por mostrar os dentes.
– Ela disse meu nome e saiu apressada. – Hoseok continha as mãos no volante.
– Sim. Não sabia como reagir. – Estava envergonhada.
– Bom, agora você pode mudar isso. Temos uma caçada pela namorada do Hiroki – O coreano brincou.
– Eles não namoram. – Fabíola respondeu rispidamente. – E o que aconteceu para ela querer ir embora, Hiroki?
– Ela faz isso apenas quando se sente com medo, ou incomodada. – Continuou ela.
– A Ana me contou sobre o namoro, disse que era mentira. Então eu disse que sabia, e ela foi embora. – O garoto tentou explicar.
– É... acho que ela não deve estar brava apenas com você. Enfim, melhor achá-la logo. – Concluiu, a morena.
– Talvez ela estivesse incomodada. Minha irmã passou por algo assim uma vez, disse que parecia interesse por parte do garoto. Ah como eu queria ter socado a cara daquele i*****l. – Hoseok comentou.
– Pensando bem, a Ana tem problemas com garotos que demonstram interesse assim. Você ficou do lado dela mesmo estando namorando. Então ela descobre que você sabia sobre ela estar solteira. – Fabíola colocou a mão no queixo.
Ao chegar no apartamento das garotas, a garota desceu do carro, bateu a porta e saiu correndo em direção ao elevador. Enquanto isso, os dois homens continuavam no carro.
– Ela realmente é engraçada e séria, ao mesmo tempo. – Hoseok comentou observando a morena subir.
– A Fabíola? – O amigo balançou a cabeça.
– Não namora. – Hiro fez uma expressão s****a.
– Prefiro conhecê-la primeiro. O problema é meu trabalho. – Coçou a nuca.
– Você está na base 365?
– Sim, Seokjin e eu continuamos lá. Como nos velhos tempos.
– Então não tem problema. Vocês terão bastante tempo. – Se recostou no banco.
– Você e a Haram terminaram? Digo, estavam juntos a tanto tempo. Não achei que iriam terminar. – Hoseok olhava para frente, meio sem graça.
– Digamos que as coisas não são as mesmas. É complicado, mas por favor, não conte para as garotas.
– Eu prefiro não saber, mas como quer que eu tente algo com uma das garotas, com mentiras?
– Hoseok, você não vai estar mentindo se ninguém perguntar nada a você.
– Sabe que essa garota não vai querer mais com você depois disso? – Hoseok tentava ser sincero.
– Terminar com a Haram, é o mesmo que tornar a vida dessas garotas, um inferno.
Enfim Fabíola saiu do apartamento as pressas, desaponta e ainda mais preocupada.
– Ela não está em casa. – Entrou no carro.
– Onde podemos ir agora? – Jung indagou.
– Não faço ideia, talvez a universidade? – Fabíola respondeu.
– Qual é o endereço? – Perguntou o motorista.
– Siga pela avenida.
O carro começou a se movimentar.
– Enfim, consegui tirar aquele salto. Meus pés estão doloridos. – A morena reclamou.
– Acho que você não precisava de um salto. – Hoseok riu.
– Não entendo, aqui não sou vista como alguém alto. E vocês dois são maiores que eu.
Os dois riram.
– As garotas costumam ser mais baixas. É complicado achar uma garota como você. – Jung parecia confortável.
– Exceto a Ana. Ela é baixa. O que ela diria se eu chamasse ela de baixinha? – Hiroki comentou.
– Olha, cara, você levaria uma mordida na canela. – Fabíola teve uma crise de risos.
– Fabíola, sua amiga te mataria. – O motorista gargalhou.
– Golpe baixo. – Disse Hiroki.
O carro estava barulhento.
Enquanto isso, Ana andava pelas ruas de Seul, sem rumo. Sua cabeça estava voando por vários lugares, ela não estava bem.
Então, ao caminhar, a garota passou em frente a um supermercado. As pessoas que saiam do comércio, observavam a garota parada ali. Olhares de estranhamento vindo de estranhos.
Não era coreana.
Não possuía um rosto querido por todos.
Como deveria reagir?
Enfim se sentou em um banco próximo, não queria ter de voltar para casa. E aquele vestido a deixava desconfortável.
– E não deixei de fugir. – Suspirou.
– As vezes precisamos fugir, respirar é bom. – Uma voz estranha respondeu.
A garota virou para trás.
Um garoto estava, com uma sacola de compras nas mãos, bem a sua frente. A expressão em seu rosto demonstrava que estava preocupado.
Não era normal uma garota com vestidos brancos estar no meio da rua.
– Olá. – Ana disse sem graça. – Me desculpe se atrapalhei.
– Oh, não. De forma alguma, mas você estava no mundo da lua. Achei engraçado. – Riu.
– O que tem de engraçado em uma garota que está querendo ficar sozinha? – Ana estava irritada.
– Nada, mas quando te vi, pensei: Será que uma mendiga ganhou na loteria? – O estranho parecia um louco simpático.
– E você? Um louco falando com uma andarilha.
Os dois riram.
– Não tem que ir para casa? Acho que vai chover. – Ana olhou para ele.
– E você? Eu vim fazer compras para minha mãe. – Disse coçando a própria cabeça. Usava trajes de estudante. Todos escuros.
– Você parece ter minha idade. – Ela riu.
– Depende, quantos anos tem? Andarilha rica. – Se virou para a garota.
– Dezoito. – Sorriu.
– Já estou na idade de mendigar, então.
– Talvez eu possa ter dar algumas aulas: Primeiro, vá em uma festa e descubra que caras são idiotas.
– Ei, não concordo. Talvez apenas 99,9%. – Brincou.
– E os 1%?
– Isso é um mistério. Quando você descobrir, me conte.
– E as garotas? – Indagou ele.
– Acho que são do mesmo jeito. – Ana respondeu. – Qual é o seu nome?
– Do-Yun, e você?
– Ana Luiza. – Olhava simpática.
– Você é estudante? – Ana perguntou.
– Sim. Complicações de um ano complicado. – Disse sem graça.
– Sei como é, quase aconteceu comigo também.
– Você não parece coreana.
– Sou brasileira. – Riu. – Uma viajante.
– Andarilha viajante, e ainda brasileira. – Yun era extremamente divertido.
– Não acha melhor sairmos daqui? – Ele perguntou.
– Não é uma má ideia.
Do-yun auxiliou a garota se levar, e os dois seguiram pela rua. Conversando coisas sem sentido.
– Enfim, aqui é minha casa. – O garoto respondeu, com as compras em suas mãos.
– Oh, sem problemas. Bom, já vou indo. – Ana fez reverência.
– Se quiser entrar, minha mãe sabe fazer um bom ensopado no frio. – Disse orgulhoso, desejava que a garota não fosse embora.
– Não precisa, minha casa não fica muito longe daqui. Podemos nos ver de novo outro dia. – Sorriu.
– Os ricos são sempre teimosos. – Tirou seu casaco. – Aqui, vista. Está frio. – Entregou para a garota.
– Mas é seu...
– Está frio, e não se preocupe. Posso pegar com você depois. – Evitava olhá-la nos olhos.
Enfim Ana aceitou.
E então, andando de volta para casa, a garota percebeu que não havia avisado ninguém sobre ter desaparecido. Enfim mandou uma mensagem.
Fabíola, estou bem. Desculpe não ter avisado, estou indo para casa.
Por favor, não diga ao Hiroki. Quero ficar sozinha.
Em casa, Ana adentrou o apartamento. Foi até a cozinha, bebeu um pouco de água, e seguiu para o quarto. Deitando sobre a cama, a garota tirou os sapatos, trocou o vestido e se deitou com o casaco de Do-Yun.
Uma gentileza sincera.
Adormeceu abraçada a peça de roupa, e coberta pelo cobertor quente. Nevava muito do lado de fora, a janela estava quase coberta pela névoa. Ao longe, as luzes dos postes se alinhavam pela cidade.
Enquanto isso, no carro, o telefone de Fabíola vibrou. A garota logo o checou.
– Ei garotos, podemos voltar para a festa. Ana está bem. – Avisou.
– Onde ela está? – Perguntou Hiroki.
– Em casa. Vamos deixá-la sozinha. – Pediu.
– Então, voltamos para a formatura? – Hoseok perguntou.
– Acho que sim.
Voltaram para o salão em pouco tempo. A festa continuava a mesma, todos se deliciavam com o bufê, e as bebidas. Por sorte, os três conseguiram chegar antes do resultado do festival. A aquela altura, todos já haviam esquecido sobre o evento.
A musica, agora eletrônica, vibrava na pisca de dança. Adrielly e Oliver dançavam aleatóriamente, enquanto eram observados por Bae e Nozomu. Os observadores gargalhavam.
– Saca esse passo de Bob esponja. – Oliver dizia enquanto se movimentava.
– Você está parecendo uma lula. – A ruiva riu.
– Lula molusco então, hehe.
Fabíola, Hiroki e Hoseok chegaram na mesa de Bae e Nozomu. Cumprimentaram e se sentaram.
– Hiroki, Olá garoto estranho. – Bae disse se referindo aos recém chegados.
– Eai, Bae. Como estão as coisas? – Hiro respondeu.
Hoseok acenou.
– Uma maravilha. Ver o Oliver como songa monga, é uma maravilha. – A garota deu mais um gole na bebida.
– E o Nozomu, tímido como sempre. – O amigo mais velho olhou para ele.
Hoseok parecia perdido.
– Pessoal, vou ir dançar. – Fabíola avisou e se retirou.
– Wo, espera. Eu te conheço. – Bae colocou o dedo no nariz de Jung.
– Você é o cara que a Fabíola não parava de falar na loja. – Continuou.
– Eu? – Disse Hoseok.
– Sim, ela gosta muito de você. Até enjoei de ver sua cara. – Bae cheirava a alcool.
Nozomu cobriu a boca da garota.
– Me desculpe, a Jung não está muito bem, hoje.
– Não se preocupe, isso é normal. – O garoto respondeu rindo. – E a Fabíola é uma pessoa bastante divertida.
– Wo, você acha? Me dê seu número, vou marcar um encontro para vocês.
Hiroki riu da situação.
Na pista de dança. Os três haviam se soltado. A música estava divertida.
– Adrielly, olha que está na mesa. – Fabíola disse perto do ouvido da garota.
A garota se virou, e abriu a boca em um arrepio.
– Mentira! – A ruiva respondeu, embasbacada.
– É sério!
– O que foi? Quero saber da fofoca. – Oliver se aproximou fazendo careta.
– Um cara que a Fabíola gosta apareceu. – Era preciso falar um pouco alto, em meio ao som.
– Wo, agora falta o Nozomu criar coragem. – Disse o loiro.
– Como assim? – Adrielly estava curiosa.
– Ele gosta de você, mas não quer parecer invasivo. As vezes ele parece um m*****s. – O americano responder.
– E você e a Bae? – Fabíola fez uma cara engraçada.
– Não sei de nada. Menina teimosa. – Oliver resmungou.
Enfim, voltaram a dançar.
Após algum tempo, a musica cessou e todos foram para seus lugares. Era hora do anuncio do resultado.
– Boa noite a todos os formandos! – Disse uma autoridade no palco.
– Agora, com vocês concluindo essa jornada, vamos falar sobre o resultado do festival.
– Antes disso, quero parabenizar a todos pelo esforço. – O discurso era exibido em live no canal da instituição.
– Sem mais delongas, os vencedores do concurso Criação e Educação são...
– Hiroki, JungBae, Nozomu, e as intercambistas participantes: Ana Luiza, Adrielly e Fabíola!
Os ouvintes bateram palmas e gritaram. Enfim, tinham sido vencedores.
O esforço havia valido a pena.
– Não acredito! – Jung Bae disse perplexa.
– Trabalhamos bem. – Nozomu sorria.