Se para Raissa a casa de campo era espaçosa e luxuosa, o apartamento era um absurdo em modernidade e riqueza. A sala tinha paredes cinza, um lustre moderno, boa parte do piso escuro coberto por um tapete marrom que aparentava ser mais macio do que a última cama em que dormira, e móveis em estilo moderno distribuídos pelo espaço enorme do cômodo, que era grande ao ponto de os sofás, a televisão, as poltronas, o divã e o piano posicionados espaçadamente no ambiente, não parecerem o suficiente para preenche-lo. Tudo no cômodo podia ser enquadrado em três tons base de cores: cinza, marrom e preto. Era lindo e, ao mesmo tempo, absolutamente neutro, como uma daquelas casas belas e sem personalidade que Raissa costumava ver em amostras de projetos quando ainda sonhava em estudar design de interiores.
— Por aqui — Antony a chamou após trancar a porta. Ele desviou a atenção para Camile por um segundo para dizer: — Me espere no quarto.
— Sim, senhor Ribeiro — a ruiva respondeu com um leve aceno de cabeça antes de se virar, subindo as escadas do outro lado da sala. Raissa estava mais confusa a cada nova interação dos dois. A ruiva era ou não funcionária dele? Se não era, por que o obedecia daquela forma? E se era, por que raios dormiria com ele? Aliás, por que raios dormiria com ele depois de ser tratada daquela forma, independentemente da função que desempenhava para ele?
— Algum problema? — Antony perguntou, fazendo-a parar de observar a mulher que subia as escadas com passos leves, para voltar a olhá-lo.
— Problema? — ela questionou franzindo as sobrancelhas, sentindo os ferimentos na têmpora repuxarem — Quer que eu faça uma lista? Posso começar pelo fato de você estar adotando a ideia de me manter aqui...
— Perguntei em relação a você estar olhando Camile desse jeito — ele gesticulou com o queixo na direção da escada.
Ah, claro. Raissa tinha a péssima mania de ser expressiva demais, mesmo quando queria disfarçar algo, sempre acabava expondo tudo na sua expressão. Provavelmente passara os últimos segundos observando a tal Camile como se a mulher fosse algum tipo de ser estranho que devia ser estudado, o que, no fundo, era exatamente como começava a pensar da ruiva.
— Problema nenhum — ela respondeu, dando de ombros. Claro que havia um problema entre aqueles dois, mas Raissa já tinha uma tonelada de problemas próprios, algo que definitivamente a fazia sentir zero vontade de começar a se preocupar com os da ruiva também. Não era da sua conta, ela reafirmou para si mesma, enquanto sustentava o olhar de Antony e fazia cara de paisagem para ele. Ela tinha de se preocupar em fugir, não em entender os distúrbios dos gostos da ruiva. E por falar em fugir... Raissa deu uma olhada ao redor, além da porta de entrada que Antony trancara e que necessitava do cartão de acesso e da chave para abrir, só haviam janelas compridas de vidro e portas que davam acesso a uma varanda, não que houvesse hipótese de Raissa escapar pela varanda. Se o painel do elevador informou de forma correta, eles estavam no trigésimo andar, o último andar do prédio. Uma fuga pela varanda ou pelas janelas era impossível.
— Ótimo — Antony deu as costas para ela, indo em direção ao corredor escuro próximo à escada — Por aqui.
Ele não fazia o menor esforço para andar devagar e permitir que Raissa o alcançasse aos pulos. Apenas continuava seguindo em frente dando passadas largas com aquelas pernas compridas que a cada segundo a deixavam mais para trás, até chegar em frente a uma das quatro portas no corredor. Vendo-o à sua frente, em contraste com o espaço do corredor, Raissa teve uma noção ainda maior do quão grande ele era, não apenas alto, mas também com ombros largos e braços inegavelmente musculosos. Isso quase a fez hesitar no meio do corredor, mas logo lembrou que hesitar não adiantaria de nada, porque de qualquer forma estava trancada no apartamento.
— Você vai ficar aqui, já que não tem condições de subir as escadas até um dos quartos de hospedes com o pé nesse estado — ele voltou a falar assim que ela finalmente o alcançou e encostou na parede para descansar, àquela altura já não sabia mais onde a dor terminava e dava lugar ao cansaço. Estava ficando esgotada, e irritada com aquela dorzinha constante na sua cabeça desde o acidente — Pode entrar — Antony avisou notando que ela havia estacionado contra a parede do corredor. Raissa respirou fundo antes de segui-lo de uma vez.
O quarto era grande, com paredes brancas, uma cama de casal forrada com lençóis e cobertores também brancos, uma cômoda ao lado da porta, um guarda-roupa encostado em uma das paredes, uma televisão de tela plana presa logo acima da cômoda, janelas grandes na parede oposta, e na única parede livre havia uma porta por onde Antony acabara de entrar.
— Pode usar o banheiro para se limpar — ele avisou lá de dentro — Tem toalhas no armário sob a pia e sabonete e shampoo nos displays do box — ele voltou para o quarto com as mãos nos bolsos da frente da calça, os olhos fixos no seu rosto — Alguma dúvida?
— De quem é esse quarto? — ela perguntou para se distrair da dor e da apreensão, pulando ainda mais para o interior do cômodo — Tinha entendido você dizer que os quartos de hospedes ficavam no outro andar.
— E ficam. Esse aqui é o quarto de empregados.
Foi impossível. Como se aquela frase fosse o estopim para o acúmulo de tensão e estresse no seu corpo, porque bastou Antony fechar a boca para Raissa começar a gargalhar, mesmo sem querer. Até para seus próprios ouvidos a risada soava histérica e sem sentido, no entanto, ela não podia evitar, ainda que aquilo fizesse o seu corpo doer mais.
— Qual a graça? — Antony voltou a travar o maxilar, cruzou os braços e fixou um olhar de desdém nela, que ainda tentava conter a crise histérica que estava tendo.
— Desculpa, é que... quarto de empregadas — o riso interrompeu. A verdade é que ouvi-lo chamar um quarto enorme daqueles de quarto de empregados com tanto desdém, era demais. Era como um tapa, como ter o destino esfregando a injustiça da vida na sua cara, e isso não era engraçado de forma alguma, tanto que de repente a crise de riso começou a se transformar em lágrimas que insistiam em deixar os seus olhos e um nó que se formou na sua garganta — Desculpa — ela respirou fundo, a voz meio abafada — Eu não achei graça alguma, eu nem... nem faço ideia do motivo de ter rido — se interrompeu, prendendo a língua no céu da boca para conter a vontade de chorar.
— Você precisa descansar antes que tenha um colapso — Antony observou, indo em direção a porta — Tome banho, mas não durma ainda. Vou ligar para o doutor Alfredo, acho melhor ele dar uma olhada em você antes que pegue no sono.
Ele saiu e fechou a porta sem esperar por resposta, deixando Raissa sozinha com a sua imensa vontade de chorar. Ela manteve a língua encostada ao céu da boca e pulou até o cómodo anexo, se recusando a ceder. O banheiro, como esperado, era espaçoso. Todo em tons de bege, com azulejos cobrindo as paredes da área do box, uma pia com cuba de porcelana rosê e um vaso sanitário na mesma cor, um espelho oval adornava a parede acima da pia. Raissa se apoiou no balcão da pia e olhou para o próprio corpo, não fazia ideia de como conseguiria tirar as roupas sem se machucar ainda mais.
Foi necessário um esforço enorme para retirar a camiseta velha que vestia, já o sutiã, que mais parecia um trapo, saiu com mais facilidade, e a calça foi uma tortura imensurável. Teve que morder uma das toalhas de rosto que achou no balcão para não gritar de dor enquanto desprendia o tecido das feridas e o arrastava sobre elas, para depois enfrentar a pior parte: passar a calça para fora do tornozelo inchado. Quando terminou, estava sem fôlego, tonta e ainda mais exausta que antes. Precisou permanecer alguns minutos parada, apoiando as mãos no balcão da pia, antes de erguer o corpo e pular até o chuveiro.
Quando o jato de água quente atingiu a sua pele, houve um conflito entre a dor e o alívio no seu corpo. A água fazia as feridas arderem, mas a sensação dela contra sua pele, depois de tantos dias sem sentir algo parecido e depois de tantos meses desde o último banho de água quente... A sensação era tão boa que sobrepujava a dor e a ardência. Raissa aproveitou o banho ao máximo, usou o sabão líquido com cheiro de rosas ignorando o efeito dele sobre as feridas, lavou o cabelo com o shampoo esfregando os fios embaraçados do cabelo e só saiu do chuveiro quando começou a ficar sonolenta. Pulou para fora do box com cuidado, se enrolando na toalha que havia pego sob a pia. Quando voltou para o quarto, descartando a possibilidade usar novamente as roupas sujas, encontrou uma blusa de mangas e uma cueca sobre a cama. Sequer escutara quando entraram para colocar as roupas ali, mas estava cansada demais para questionar aquilo, e apenas vestiu as peças o mais rápido possível.
Antony só voltou a aparecer bons minutos depois, ele também havia tomado banho, ao que tudo indicava, os cabelos estavam molhados e penteados para trás, e usava uma blusa preta de mangas curtas e uma calça de moletom cinza.
— O doutor Alfredo não vai poder vir hoje — foi logo dizendo, entrando no quarto sem bater — Mas acertou de vir pela manhã, no primeiro horário. Enquanto isso, você precisa ser monitorada para nos certificarmos de que não sofreu uma concussão. Você está sentindo alguma coisa?
— Só dor de cabeça — ela murmurou, acompanhando os movimentos dele pelo quarto — E uma sonolência insuportável.
— Consegue se lembrar do que aconteceu nos minutos antes do acidente? — ele encostou na cômoda, cruzando os braços e deixando evidente, como Raissa previra no corredor, que tinha bíceps musculosos e braços fortes o bastante para machuca-la com facilidade. Agora que estava sem aquele terno que o fazia parecer um homem rico e enfadonho, e que ela reparava sua altura e postura com mais atenção, se perguntava o que ele fazia no dia a dia para ter um corpo daqueles. Porque certamente não ganhara tudo aquilo sentado em um escritório... Será que ele sequer era um homem de negócios? Mas se não fosse, como teria conseguido todos aqueles patrimônios caros? — Você está me ouvindo? — Antony estalou os dedos. Ela sacudiu a cabeça. Tinha começado a divagar, de novo. Ótimo.
— Consigo lembrar — respondeu tardiamente, enquanto via flashbacks nítidos dos estragos feitos na casa, da fuga pela chaminé, da corrida pelo lote... — Quanto tempo vai levar para os seus seguranças ligarem informando sobre a casa? Preciso saber quanto mais vou ter de permanecer aqui.
Na verdade, precisava saber quanto tempo ainda lhe restava até Antony descobrir o caos que se transformara a sala de estar da casa de campo. Talvez ela ainda conseguisse fugir...
— Eles já ligaram, disseram que estão quase terminando o relatório dos danos — Antony apoiou as mãos na cômoda e ergueu uma sobrancelha para ela — Não acha melhor você mesma me falar sobre isso?
O coração de Raissa acelerou no peito, no entanto, ela manteve o olhar no dele e respondeu de forma casual, dando de ombros:
— Não... — ela arrastou a palavra — Não acredito que você vá acreditar se eu disser que não quebrei nada.
— E eu deveria acreditar? — ele continuava a observando fixamente.
— Não — ela respondeu depois de uma pausa, não por ser sincera, mas por saber que mais cedo ou mais tarde ele descobria a bagunça que fizera. Não havia porque gastar as suas poucas energias mentindo.
— Muito bem — Antony se desencostou da cômoda — Vamos esperar o relatório da segurança, então. Agora venha aqui — ele indicou a cômoda — O doutor Alfredo instruiu que colocássemos uma tala no seu tornozelo, para evitar danos maiores e diminuir a dor — continuou a falar, já indo em direção a porta — Sente aí e me espere.
Enquanto o via desaparecer pela porta, Raissa se perguntou se Antony gostava de mandar assim em todo mundo, se apenas estava acostumado a fazer aquilo ou se agia assim só com mulheres. Fosse qual fosse o motivo, o tom imperativo só o deixava mais b*baca.
Ela pulou até a cômoda de madeira clara e se sentou com dificuldade. Quando conseguiu se acomodar, fechou os olhos para aliviar o incômodo que as luzes do ambiente provocavam e para tentar diminuir a dor na cabeça. m*l notou quando começou a adormecer, ainda sentada. Só despertou com a voz de Antony, ouvindo-o reclama sobre ela ter “desobedecido à instrução de não dormir”.
— Já parou para pensar que nem todo mundo precisa te obedecer? — ela questionou sem pensar, ainda sonolenta. Antony parou na sua frente, segurando uma maleta de primeiros socorros.
— Já parou para pensar que para alguém nas suas condições, você abusa demais da sorte?
— Sorte — murmurou para si mesma — Como se ficar presa na casa de um b*baca fosse sorte.
— O que você disse? — ele se aproximou mais. Raissa suspirou.
— Nada, senhor. O que vai fazer agora?
Antony travou o maxilar. Estava tão perto que ela conseguia sentir o cheiro do perfume que ele usava. Suas mãos começaram a suar de nervoso, se deu conta mais uma vez de como estava vulnerável àquele homem, em todos os sentidos.
— Vou enfaixar o seu tornozelo — ele parou ao lado de sua perna, abrindo a mala de primeiros socorros sobre a cômoda — Aqui, tome isso primeiro — Antony lhe entregou um comprimido. Raissa olhou para a pílula na mão dele.
— O que é isso?
— Paracetamol — ele respondeu, impaciente. Ela continuou encarando o remédio — O que foi agora?
— Será que posso pegar um comprimido da cartela?
— Por acaso acha que eu estou tentando te dopar?
Nunca se sabe, quis responder, mas deu de ombros e retrucou no tom mais descontraído que conseguiu, para amenizar a situação:
— O seguro morreu de velho.
— Você devia parar de abusar da minha boa vontade — ele abriu a maleta novamente e jogou a caixa do paracetamol no seu colo — Já basta eu estar aqui perdendo o meu tempo com uma delinquente...
— Eu não pedi para ser atropelada — ela rebateu.
— E eu não pedi para você invadir a minha casa — Antony a observou engolir o comprimido à seco — Aliás — continuou quando ela voltou a olhá-lo — Como conseguiu sair da casa?
Raissa sorriu como uma criança que apronta e está prestes a se gabar disso.
— Aposto que os seus seguranças vão te contar no relatório.
Ele a observou com certa incredulidade, mas não retrucou, ainda que ela tenha o ouvido murmurar algo que soou muito semelhante a um “garota petulante”, enquanto pegava a maleta de suprimentos médicos.