Capítulo 3 - Entrando em território inimigo

2047 Words
— Vamos, entre no carro — Antony continuou mediante seu silêncio com relação à provocação dele. Raissa observou o carro todo preto, vidros fumês, aparência de que valia uma boa grana. Se perguntou se era uma ideia minimamente inteligente entrar em um carro daqueles com um desconhecido que pretendia mantê-la com ele contra a sua vontade, e então lembrou de como estava machucada demais para correr, além disso, bastou focar no que aconteceria caso ele a denunciasse, para que encarasse a realidade: não havia uma escolha de verdade, entrar no carro, por mais potencialmente desastroso que pudesse ser, era a única opção capaz de lhe dar alguma esperança de não ser pega. Enquanto se torturava com a sua nova realidade nas mãos dele, ouviu um assobio e viu, com horror crescente, o rottweiler se aproximar do carro correndo. Raissa se encolheu contra o veículo, como se fosse capaz de se fundir a ele, enquanto via Antony abrir a porta do fundo e mandar o cachorro entrar, o animal obedeceu sem hesitar. — Agora você, entra — Antony mandou, no mesmo tom de ordem que usara com o cachorro. Raissa olhou para dentro do veículo, para o enorme cão preto sentado na outra extremidade do banco de couro bege. Seu braço voltou a arrepiar e uma nova lembrança invadiu a sua mente: Romeu tinha muitos cachorros como aquele. Cachorros ameaçadores que ele fazia questão de deixar ao lado dela, como parte dos seus "recursos de proteção e persuasão". — Você só pode estar louco se acha que eu vou entrar aí com essa coisa enorme e cheia de dentes — ela voltou a olhar para Antony, as sobrancelhas franzidas — Nem pensar. Não tem a menor possibilidade de... — Acho que você ainda não entendeu que não está em condições de negociar ou exigir nada aqui — ele a interrompeu, abrindo mais a porta do carro — Agora, entra. — Nem f*dendo — Raissa rebateu, sem vacilar. Não importava o quanto aquele homem exalava poder e imponência, não importava que fosse nítida sua raiva pela forma como a olhava, não importava se a sua única esperança de sair daquela situação estivesse nele, ela não iria entrar em um carro ao lado de um cachorro daquele tamanho, não tinha condições psicológicas para passar por algo assim. — Não use palavrões para falar comigo — ele a repreendeu, travando o maxilar. Raissa estreitou os olhos. Era o que faltava, o senhor riquinho, além de ser um sádico louco por travas automáticas e cachorros assassinos, era também um moralista puritano? Por que raios aquele tipo de coisa só acontecia com ela? Não podia topar com uma pessoa normal pelo menos uma vez na vida? — Qual é o seu problema, cara? — perguntou, realmente desejando entender. Antony fixou sobre ela um olhar frio, e, ao mesmo tempo, tão intenso e cheio de raiva que pareceu capaz de perfura-la. — Meu problema é ter a minha casa invadida por dois vagabundos inconsequentes no meio da noite, atrapalhando os meus planos. O meu problema é ter uma... mulher petulante querendo ditar regras mesmo estando completamente errada — ele deu um passo à frente, se avolumando sobre ela. Raissa não se intimidou, na verdade, ainda estava pensando em como ele havia usado a palavra “petulante” para se referir a ela. Quem usava uma expressão daquelas em pleno século XXI para se referir a uma mulher adulta? — Você é o meu problema — Antony continuou, mantendo o tom neutro desde o início da frase — e se não entrar no carro agora, eu vou chamar a polícia e deixar eles cuidarem de você. Bom, agora ele havia usado um m*ldito argumento convincente. Um ao qual Raissa não poderia rebater com a sua “petulância”. Ela respirou fundo, travou os dentes e tentou ser digna de compaixão quando respondeu em tom baixo: — Por favor, eu tenho fobia à coisas enormes que podem estraçalhar minha garganta com os dentes — o que era verdade — E, além disso, ele estava rosnando para mim a menos de dez minutos atrás. Por favor, não me mande ficar presa em um veículo ao lado desse... cão. Antony ainda a olhava com uma mescla de raiva intensa e descontentamento, e Raissa realmente acreditou que ele fosse obriga-la a ir com o cachorro, talvez aproveitar a sua atual condição debilitada e empurra-la porta à dentro, no entanto, depois de uma pausa reflexiva, ele abriu a porta da frente do carro. — Sente lá atrás com o Tobias, Camile — mandou, olhando para dentro do veículo. — Mas... — a mesma voz feminina que o chamara mais cedo tentou rebater. Antony a interrompeu: — Camile — o nome mais uma vez foi dito em tom de repreensão, que seria normal se a tal Camile fosse uma criança desobediente. No entanto, quem saiu do carro não era nem de longe uma criança, e sim uma mulher completamente adulta e muito bem vestida. — Desculpe, senhor Ribeiro — ela disse de cabeça baixa, passou por Raissa e entrou na parte de trás do carro. Ok, aquilo havia sido estranho. Raissa voltou a observar Antony, indignada pela forma como tratara a outra e, mais ainda, pela forma como ela reagira. Mesmo se a mulher fosse uma funcionária subordina a ele ou algo do tipo, como Raissa presumia, Antony não tinha o direto de trata-la. Aquilo tudo só o tornava ainda mais intragável. — Entra — ele mandou, os olhos impacientes fixos no seu rosto. Raissa engoliu os comentários sobre a cena que acabara de presenciar e tomou coragem para entrar no carro de uma vez. Seus olhos voltaram a encher de lágrimas quando uma nova onda de dor tomou seu corpo ao sentar no banco, se mesclando ao ardor constante no braço esquerdo e rosto. Tinha receio de observar o próprio corpo e constatar o tamanho do estrago feito durante o impacto que sofrera contra o chão, por isso manteve os olhos fixos na pista enquanto Antony batia a porta do seu lado, dava a volta no veículo e sentava atrás do volante. O percurso começou em um silêncio perturbador, até Tobias, o cão assustador, não fazia sequer um ruído. Raissa pensou que se afogaria na sua mente perturbada com todo aquele silêncio. Em certo momento começou a desejar desesperadamente que houvesse qualquer distração sonora ali, e se arrependeu de desejar assim que o som apareceu. Era o celular de Antony alertando uma nova chamada, Raissa se encolheu ao ver o nome no visor. Estavam ligando da empresa de segurança. Antony prendeu o celular no painel do carro e o conectou ao veículo, tudo isso enquanto dirigia com uma mão só, sem diminuir a velocidade. — Senhor Castro? — um homem falou do outro lado da linha assim que a ligação foi aceita. — Sim. Pode falar, Carlos — Antony voltou a segurar o volante com as duas mãos. — Conseguiu resolver o problema? As viaturas da segurança já estão a menos de dez minutos de distância — Carlos informou. Raissa m*l respirava de apreensão. — Está resolvido, mas preciso que chequem se ocorreram danos na propriedade e, caso tenham havido, façam um relatório detalhando tudo o que foi danificado e o valor, entendido? — Sim, senhor Castro. Mais alguma coisa? — Não, Carlos, ficarei aguardando um retorno da sua equipe — só quando Antony encerrou a ligação, Raissa deixou o ar escapar por entre os lábios. — Não respire aliviada ainda — ele sugeriu, sem desviar o olhar em sua direção — Deixe para fazer isso quando eles ligarem avisando que está tudo ok na casa de campo. Ela não respondeu, e depois disso jurou a si mesma que não reclamaria mais do silêncio enquanto estivesse naquele carro. *** O carro entrou em uma parte mais movimentada quase uma hora de viajem depois. Foi notória a mudança de cenário, deixaram os bambuzais e as casas cercadas por grandes lotes verdes, para entrar em uma zona metropolitana cheia de prédios comerciais que ao longo do percurso deram lugar a bairros residenciais, até por fim o carro entrar em um bairro que claramente fazia parte de uma zona nobre da cidade. Antony entrou com o veículo na garagem de um condomínio fechado após se comunicar com o porteiro pelo interfone. Raissa tentava gravar o máximo de detalhes possíveis ao longo do percurso, apenas para saber para onde ir quando fugisse daquele b*baca de terno. Porque ela fugiria. Mas era difícil dizer com precisão onde Antony a levara. A única coisa que sabia, e que era realmente importante no momento, é que a cidade onde estavam ficava relativamente longe de onde ela não podia estar, e isso bastava por enquanto. Antony foi o primeiro a descer do carro, deu a volta e abriu a porta para a mulher e o cachorro descerem. Raissa abriu a própria porta assim que ele se afastou o bastante para que não o atingisse. Só que entre abrir a porta e conseguir fazer o seu corpo se mover para fora do carro, havia uma grande diferença. Uma diferença dolorosa. — Vamos — Antony lhe estendeu a mão, vendo a sua dificuldade. Raissa engoliu o orgulho e aceitou. Na verdade, engolir o orgulho era algo vinha fazendo muito ultimamente. Ele a apoiou até que saísse do carro, se afastando em seguida para caminhar à sua frente, ladeado por Tobias e por Camile. Raissa observou a enorme garagem subterrânea por um segundo antes de começar a pular atrás dos três em direção ao elevador. Dentro da cabine metálica foi meio difícil conter a curiosidade quanto aos seus ferimentos. Como três das paredes do elevador eram de metal polido e a quarta era coberta por um espelho, bastou Raissa manter o olhar fixo à frente ao entrar para ver o seu reflexo. Se arrependeu no mesmo instante. Não era atoa que Daniel a olhara assustado quando a encontrou no chão, e que Antony insistira em levá-la ao hospital. A queda havia lhe causado um enorme estrago. Seu braço esquerdo estava completamente arranhado, coberto com uma mistura de sangue e poeira. A lateral esquerda do rosto tinha arranhões no queixo e maçã do rosto, e um corte um pouco mais fundo em algum lugar acima da têmpora fazia filete de sangue escorrer por ali. Sua calça jeans, a última que lhe sobrara e que já não andava em bom estado, agora estava completamente puída e manchada. Mas a pior parte era seu tornozelo, inchado e arroxeado, como uma batata gigante apodrecendo. Para contrastar com o caos do seu estado, haviam Antony e Camile ao seu lado, ambos de costas para o espelho e de frente para porta, mas mesmo o reflexo de suas costas salientava a diferença entre o tipo de pessoas que eles eram e o tipo de pessoa que Raissa havia se tornado. Os dois usavam roupas sociais, ele vestia um terno sob medida, Camile um vestido longo preto que contrastava com sua pele clara e com os cabelos ruivos presos para o lado. Raissa decidiu que era melhor parar de encara o maldito reflexo, afinal, ele só a fazia se sentir ainda mais miserável. O elevador abriu as portas no último andar com um plim que lhe causou frio na barriga, estava cada vez mais e mais embrenhada em um território desconhecido. Ainda assim, seguiu pulando para fora do elevador, logo atrás dos outros, por um corredor bem iluminado adornado com tapetes escuros, quadros abstratos e arandelas rebuscadas. Antony retirou um cartão de acesso e uma chave dourada do bolso ao parar em frente a uma porta no final do corredor. Era a única porta do andar. Ele a segurou aberta para Camile entrar, seguida por Tobias, quando ambos haviam passado para o lado de dentro, voltou o olhar em sua direção. — O que está esperando? — ele perguntou, impaciente — Entre logo. Raissa resolveu não retrucar. Se começasse a falar tudo o que lhe vinha a cabeça cada vez que aquele homem abria a boca, com certeza seria levada para a delegacia antes mesmo de os seguranças ligarem informando os prejuízos na casa de campo. Ela mordeu a parte de dentro da boca e voltou a pular até passar pela porta e entrar no apartamento.
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