Capítulo 4 — Nilo
— Ainda não.
Eu deixei a frase no ar e saí.
Simples assim.
Não esperei resposta. Não olhei pra trás. Não faço isso. Nunca fiz.
Mas, dessa vez…
Eu senti.
Aquela sensação estranha que não combina comigo.
Porque eu não sou homem de dúvida.
Não sou de me perder em pensamento.
Muito menos por causa de mulher.
Mas enquanto atravessava a boate, passando por gente que nem fazia ideia de quem eu era, a imagem dela continuava ali.
Firme.
O olhar.
A postura.
A forma como ela não recuou.
Aquilo não era comum.
E eu sei reconhecer quando não é.
Saí pela porta da frente dessa vez. Nada de fundo, nada de esconder. A rua estava viva, como sempre. Carros passando, risadas soltas, gente que vive uma realidade completamente diferente da minha.
Encostei no carro.
Respirei fundo.
Mas não era cansaço.
Era outra coisa.
Controle.
Eu precisava voltar pro meu lugar.
Porque lá dentro… por alguns segundos…
Eu tinha saído dele.
— Partiu? — o motorista perguntou.
Assenti, entrando no banco de trás.
— Sobe.
O carro arrancou.
E, conforme a Zona Sul ia ficando pra trás, o mundo voltava ao normal.
Ou pelo menos…
Ao que eu conhecia como normal.
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O caminho até o morro nunca foi só trajeto.
Era transição.
Da luz pro escuro.
Do luxo pro concreto cru.
Do “tudo pode” pro “tudo tem consequência”.
Quando o carro começou a subir, eu já não era mais o cara da boate.
Eu era o dono do morro.
E isso muda tudo.
As ruas estreitas, as vielas vivas, o movimento que nunca para. Aqui ninguém dorme de verdade. Sempre tem alguém acordado, atento, cuidando, vivendo.
Assim que o carro parou, eu desci.
Não precisei andar muito.
— Aí, paizão.
A voz veio antes da visão.
Betinho.
Encostado na parede, braço cruzado, olhar sério.
Quando vi a expressão dele, já entendi.
Tinha problema.
E problema aqui nunca é pequeno.
— Fala — respondi, direto.
Ele descruzou os braços, se aproximando.
— Deu r**m.
— Onde?
— Na parte de baixo. Uns moleque novo vacilou.
Meu maxilar travou de leve.
— Vacilou como?
Ele respirou fundo.
— Tá mexendo com coisa que tu deixou claro que não podia.
Aquilo já me irritou antes mesmo de terminar de ouvir.
— Fala direito.
— Tão mexendo com as menina, Nilo.
Silêncio.
Curto.
Pesado.
Perigoso.
Senti o sangue esquentar na hora.
Porque isso não era regra nova.
Não era algo que precisava ser explicado.
Era lei.
E lei aqui não é opção.
— Quem? — minha voz saiu baixa.
Mas não era calma.
Era controle.
Betinho passou a mão na nuca.
— Dois dos mais novos… tão achando que podem tudo.
Dei um passo à frente.
Devagar.
Mas cada passo já dizia o que vinha depois.
— Achando… — repeti.
Meu olhar encontrou o dele.
— Ou esquecendo?
Betinho não respondeu.
Não precisava.
A gente se entende assim.
— Cadê eles?
— Tão lá embaixo ainda. Nem sabem que a gente já sabe.
Assenti devagar.
Respirei fundo.
E foi aí que a imagem veio de novo.
Ela.
O jeito que ela afastou a mão do cara.
O “não” firme.
Sem medo.
Sem pedir ajuda.
Fechei o punho sem perceber.
Porque aquilo…
Aquilo não podia acontecer aqui.
Não no meu morro.
Não sob o meu comando.
— Resolve isso agora? — Betinho perguntou, já sabendo a resposta.
Olhei pra frente.
A noite estava longe de acabar.
— Agora.
Minha voz saiu firme.
Sem espaço pra discussão.
Betinho só assentiu.
— Já vou juntar os cria.
Comecei a descer.
E cada passo meu era um aviso.
Aqui, erro não se repete.
Aqui, quem cruza a linha…
Não fica.
Mas, mesmo com tudo isso…
Mesmo com o peso, com a responsabilidade, com o que precisava ser feito…
Tinha uma coisa que não saía da minha cabeça.
Uma coisa que não fazia sentido.
Uma coisa que não combinava comigo.
A DJ.
O jeito que ela me encarou.
O jeito que não abaixou a cabeça.
O jeito que, mesmo sem saber quem eu era…
Me enfrentou.
Soltei um ar pelo nariz, tentando afastar aquilo.
Foco.
Mas não adiantou.
Porque, pela primeira vez em muito tempo…
Algo tinha saído do meu controle.
E eu não gostava disso.
Não gostava mesmo.
Só que agora…
Já era tarde.
Porque eu sabia de uma coisa.
Aquilo não tinha acabado na boate.
Aquilo…
Tava só começando.