Capítulo 03

1117 Words
Capítulo 3 — Estefany Tem dias que a gente acorda sentindo que alguma coisa vai acontecer. Não é ansiedade. Não é medo. É… um aviso. Naquela noite, eu senti isso antes mesmo de abrir os olhos. Fiquei alguns segundos deitada, encarando o teto do meu quarto, tentando ignorar aquela sensação estranha no peito. Como se meu corpo soubesse de algo que minha cabeça ainda não tinha entendido. Respirei fundo. Mais um dia. Mais uma noite. Mais um palco. Levantei, segui minha rotina automática — banho, skincare, escolha de roupa, playlist sendo montada mentalmente enquanto eu me arrumava. Por fora, tudo normal. Por dentro… nem tanto. Minha mãe ainda estava na cozinha quando passei. — Vai trabalhar hoje de novo? — ela perguntou, mesmo já sabendo a resposta. — Vou — respondi, pegando uma fruta só pra não sair de estômago vazio. Ela me olhou daquele jeito de sempre. Meio preocupação, meio orgulho. — Se cuida, Estefany. — Sempre. Saí de casa com aquela sensação ainda grudada em mim. E, dessa vez, eu não consegui ignorar. A boate estava ainda mais cheia que na noite anterior. Luzes cortando o ambiente, fumaça no ar, cheiro de bebida cara misturado com perfume doce demais. O tipo de lugar onde todo mundo quer parecer mais do que realmente é. Lucas já estava lá, como sempre. — Hoje promete — ele disse, ajustando os equipamentos. — Todo dia promete — respondi, colocando os fones no pescoço. Mas hoje era diferente. Eu sentia. Subi na cabine e, no momento em que a música começou, tudo ficou mais fácil. Sempre ficava. Era como se o mundo lá fora diminuísse de importância. Soltei o primeiro beat. A pista respondeu. Corpos se movendo, mãos pro alto, gritos, energia subindo. Eu entrei no ritmo. Mas não consegui me perder completamente. Porque eu senti. De novo. Olhei pra pista. E lá estava ele. Dessa vez, não no fundo. Não distante. Mais perto. Muito mais. Parado. Observando. O mesmo olhar. A mesma calma que não combinava com aquele ambiente. Meu estômago revirou de leve. Desviei o olhar, focando na mixagem. Eu não podia me distrair. Não ali. Não naquele momento. Mas, mesmo sem querer, eu voltava. E ele continuava lá. Como se estivesse esperando. Quando meu set acabou, a reação foi ainda maior que a da noite anterior. Aplausos, gritos, gente chamando meu nome. Eu sorri, agradeci, fiz o básico. Mas minha cabeça estava em outro lugar. Desci da cabine com o coração acelerado. — Você tá voando — Lucas disse, animado. — A casa tá te amando. — Uhum — respondi, distraída. — Tá acontecendo alguma coisa? — Não. Mentira de novo. Fui direto pro bar. Precisava de alguma coisa pra relaxar. Pra tirar aquela tensão do corpo. — Um drink — pedi, me apoiando no balcão. O barman assentiu e começou a preparar. Peguei o copo assim que ele colocou na minha frente e dei um gole, sentindo o álcool descer queimando de leve. Fechei os olhos por um segundo. Respira. Relaxa. Tá tudo bem. — E aí… DJzinha… Abri os olhos na hora. Um cara encostou do meu lado. Não parecia bêbado, mas tinha aquele sorriso que já dizia tudo antes mesmo de abrir a boca. — Mandou bem lá em cima — ele continuou, se aproximando mais do que devia. — Obrigada — respondi, seca. Voltei minha atenção pro copo. Mas ele não entendeu. Ou fingiu que não entendeu. — Sozinha? — perguntou, encostando mais. Ignorei. Dei mais um gole. — Relaxa, pô… tô só puxando assunto. Senti o incômodo crescer. — Eu não tô interessada — falei, sem olhar pra ele. Direta. Clara. Simples. Era o suficiente pra qualquer pessoa normal entender. Mas ele não era. — Ih… que isso — ele riu. — Nem me conhece. Senti a mão dele encostar no meu braço. Foi automático. Afastei. — Eu disse não. Meu tom saiu mais firme dessa vez. Mas, ao invés de recuar, ele deu um passo mais perto. — Tá se fazendo de difícil pra quê? Meu corpo inteiro ficou em alerta. Eu já estava pronta pra responder — do jeito que fosse preciso. Mas não precisei. Porque, de repente… A presença mudou. O ar ficou mais pesado. Mais denso. Mais… perigoso. — Ela já disse que não. A voz veio calma. Baixa. Mas com um peso que não precisava de volume pra ser ouvido. Eu congelei por um segundo. Não pelo cara. Por quem estava atrás dele. O homem riu, debochado, virando o rosto. — E tu é quem, irmão? Silêncio. Curto. Suficiente. — O tipo de pessoa que você não quer testar. O tom continuava o mesmo. Controlado. Frio. Mas agora tinha algo a mais. Aviso. O cara hesitou. Por um segundo só. Mas hesitou. Olhou pra ele. Analisou. E alguma coisa ali fez ele mudar. — Tá bom, tá bom… já entendi — levantou as mãos, dando um passo pra trás. — Nem sabia que era comprometida. — Não sou — respondi na hora. Antes mesmo de pensar. O cara saiu, se afastando no meio da multidão. E aí… Ficamos só nós dois. Virei devagar. E dei de cara com ele. Mais perto do que nunca. Muito mais. De perto, era pior. Ou melhor. Não sei. Mas era… intenso. Os olhos castanhos me analisavam como se estivessem lendo além do que eu mostrava. Sem pressa. Sem desviar. Senti meu coração acelerar. Mas não abaixei o olhar. — Eu não preciso de ajuda — falei, firme. Ele inclinou levemente a cabeça. Como se estivesse avaliando cada palavra minha. — Eu sei. Silêncio. Pesado. Carregado. — Então por que se meteu? Ele deu um passo na minha direção. Meu corpo reagiu na hora. Mas eu não recuei. — Porque ele não ia parar. A resposta veio simples. Direta. Sem rodeio. Engoli seco. — Eu daria um jeito. Um canto da boca dele subiu de leve. Quase um sorriso. Quase. — Daria mesmo. Mas não parecia dúvida. Parecia… constatação. Aquilo me irritou. E, ao mesmo tempo… Me prendeu. — Você não é daqui — ele disse, me observando. — E você não manda em mim — respondi, cruzando os braços. O silêncio que veio depois não era normal. Era pesado. Como se algo invisível estivesse passando entre a gente. Algo que eu não entendia. Mas sentia. Ele deu mais um passo. Agora perto o suficiente pra eu sentir o cheiro — nada exagerado, nada marcante demais. Mas presente. Firme. Perigoso. — Ainda não. Meu coração bateu mais forte. E, pela primeira vez naquela noite… Eu não soube exatamente o que responder. Porque, no fundo… Alguma coisa me dizia que aquilo não era só uma frase. Era um aviso. E talvez… Um começo.
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