Capítulo 05

1162 Words
Capítulo 5 — Estefany Eu odeio quando alguma coisa entra na minha cabeça e se recusa a sair. Principalmente quando essa “alguma coisa” tem nome, olhar firme e uma presença que parece ocupar espaço demais sem precisar fazer esforço nenhum. Passei o dia inteiro tentando ignorar. Juro que tentei. Me ocupei com música, testei set novo, mexi em playlist, revisei contatos, respondi mensagem… fiz tudo que eu sempre faço. Tudo que sempre funcionou. Mas, dessa vez… Não funcionou. Porque, no meio de uma batida ou outra, lá estava ele. O olhar. A voz baixa. O jeito como ele disse aquilo… “— Ainda não.” Soltei o ar com força, jogando o celular na cama. — Que inferno — murmurei pra mim mesma. Levantei, andando de um lado pro outro no quarto, como se isso fosse resolver alguma coisa. Não fazia sentido. Eu não era esse tipo de pessoa. Nunca fui. Nunca fiquei presa em alguém que eu m*l conhecia. Muito menos em alguém que claramente não fazia parte do meu mundo. Ou melhor… Que não deveria fazer. — Tá surtando por causa de um cara que você nem sabe o nome — falei em voz alta, parando na frente do espelho. Meu reflexo me encarava de volta. E eu não gostei do que vi. Porque, lá no fundo… Eu sabia que não era só isso. Não era só um cara. Era a sensação. O jeito que ele me olhou. Como se me enxergasse além do óbvio. Balancei a cabeça, tentando afastar aquilo. Chega. Tenho coisa mais importante pra pensar. E foi exatamente nessa hora que meu celular vibrou. Lucas. Atendi. — Fala. — Tenho uma proposta — ele disse, direto, com aquele tom que eu já conhecia. — Boa ou duvidosa? Ele riu do outro lado. — Depende do ponto de vista. Revirei os olhos. — Lucas… — Me escuta primeiro — ele interrompeu. — Chamaram você pra tocar. — Onde? Houve uma pausa. Curta. Mas suficiente. — No Alemão. Silêncio. Meu corpo travou por um segundo. Meu coração deu aquela batida mais forte, como se tivesse reconhecido alguma coisa antes da minha cabeça. — Como assim no Alemão? — perguntei, tentando manter a voz normal. — Baile. Grande. Estrutura boa. Pagamento certo. Fechei os olhos por um instante. O Alemão. Entre tantos lugares possíveis… Tinha que ser exatamente lá? — Quem chamou? — perguntei. — Contato novo. Mas os caras são organizados. Não é bagunça, não. Respirei fundo. Minha mente já estava tentando ligar pontos que eu nem tinha certeza se existiam. Coincidência. Tinha que ser. — E aí? — Lucas perguntou. — O que você acha? Pensei. Ou pelo menos tentei. Porque, no fundo, a decisão já estava tomada antes mesmo de eu responder. — É trabalho — falei, simples. — Stef… — O que foi? — Não sei se é uma boa ideia. Cruzei os braços, mesmo ele não podendo ver. — Por quê? — Ambiente diferente… você sabe. Sabia. Claro que sabia. Mas aquilo, ao invés de me afastar… Me puxou. — Eu dou conta — respondi. — Eu sei que dá — ele disse. — Mas não é isso. — Então é o quê? Silêncio. — Intuição — ele soltou. Soltei uma risada curta. — Desde quando você é desses? — Desde que comecei a trabalhar com você. Balancei a cabeça. — Relaxa, Lucas. É só mais um show. Mas, no fundo… Eu sabia que não era. --- A noite caiu diferente. Não sei explicar. Mas tudo parecia mais intenso. O caminho até o morro não foi como os outros. Não tinha orla iluminada. Não tinha aquele glamour artificial da Zona Sul. Era outra realidade. Outro ritmo. Outra energia. Quando o carro começou a subir, eu senti. O grave. Mais forte. Mais pesado. Mais… real. Olhei pela janela. Gente na rua, movimento em cada canto, luzes improvisadas, som alto vindo de todos os lados. Era vivo. Intenso. Sem filtro. — Chegamos — Lucas avisou. Respirei fundo. — Vamos. Desci do carro sentindo os olhares. Não eram julgamentos. Eram curiosos. Observadores. Diferentes dos da Zona Sul. Aqui, ninguém fingia. Ou gostava… Ou não gostava. Simples assim. Seguimos até a área do baile. E, quando eu entrei… Eu entendi. O som batia diferente. O corpo sentia diferente. A energia não era só festa. Era expressão. Era vivência. Era… real. Subi pra cabine, colocando os fones no pescoço. Lucas já estava organizando tudo. — Tá tudo certo — ele disse. Assenti. Mas meu foco não estava ali. Tinha alguma coisa no ar. Algo que eu não sabia explicar. Mas sentia. Respirei fundo. E comecei. O primeiro beat bateu. E a pista respondeu na hora. Mais intenso. Mais visceral. Sem meio termo. Ou você entrega… Ou você não existe. E eu entreguei. Música após música. Transição após transição. A galera pulando, gritando, vivendo. E eu ali. No controle. Ou pelo menos tentando estar. Porque, no meio de tudo… Veio a sensação de novo. Mais forte. Mais próxima. Levantei o olhar. Devagar. Sem pressa. E foi aí que eu vi. Camarote. Mais alto. Mais reservado. Mais… imponente. E ele. Parado. Exatamente como da primeira vez. Mas agora… No território dele. Meu coração disparou. De verdade. Não era mais curiosidade. Era outra coisa. Algo mais denso. Mais perigoso. Ele me olhava. Sem desviar. Sem pressa. Sem esconder. Mas tinha algo diferente. Algo que eu não tinha visto antes. Surpresa. Pequena. Controlada. Mas estava lá. Como se… Ele também não esperasse me ver ali. Engoli seco. Mas não abaixei o olhar. Não dessa vez. Continuei. Como se nada tivesse acontecido. Mas tudo tinha. Cada batida agora parecia mais intensa. Cada música mais carregada. Porque eu sabia. Ele estava ali. Me vendo. Me analisando. Me… reconhecendo. E, pela primeira vez desde que subi naquela cabine… Eu não tinha certeza de quem estava no controle. Quando o set acabou, a reação foi absurda. Mas eu m*l ouvi. Meu foco ainda estava nele. No camarote. No olhar. Na presença. No que aquilo significava. Porque não era coincidência. Não podia ser. Entre tantos lugares. Entre tantas noites. Entre tantas pessoas… A gente estava ali. De novo. No mesmo espaço. No mundo dele. E, dessa vez… Eu não era só a DJ da Zona Sul. Eu era alguém dentro do território dele. E isso mudava tudo. Porque agora… Não tinha mais como fingir que aquilo não existia. Não tinha mais como ignorar. Não tinha mais como voltar atrás. Eu não sabia o que ele queria. Não sabia quem ele era de verdade. Mas sabia de uma coisa. Aquilo não era um encontro qualquer. Nunca foi. E agora… Era tarde demais pra sair. Porque, enquanto eu tirava os fones devagar, ainda olhando na direção dele… Uma certeza se formou dentro de mim. Silenciosa. Forte. Irreversível. Eu tinha acabado de entrar em um jogo que não conhecia as regras. E, pela forma como ele me observava… Eu já estava dentro dele há muito mais tempo do que imaginava.
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