Capítulo 13

1153 Words
Capítulo 13 — Betinho O morro acorda antes do resto da cidade. Sempre acordou. Enquanto tem gente virando para o outro lado da cama e reclamando do despertador, aqui já tem moto subindo viela, comércio abrindo porta, rádio chiando informação e gente correndo atrás da própria sobrevivência. Foi assim que eu cresci. Foi assim que aprendi a viver. E, sinceramente, acho que já nem saberia viver de outro jeito. Abri os olhos pouco depois das seis da manhã, encarando o teto por alguns segundos antes de levantar. O corpo acostumado com a rotina fazia tudo sozinho. Banho rápido. Roupa simples. Café forte. Minha avó já estava acordada. Como sempre. Dona Lúcia parecia ter um pacto com o tempo. Nunca dormia demais. Nunca reclamava. Nunca deixava faltar um prato de comida ou um conselho que ninguém pediu. — Vai comer direito. — Vou. — Mentira. — Vou sim. — Tá magro. Revirei os olhos. — A senhora fala isso desde que eu tinha quinze anos. — E continuo certa. Sorri de canto. Ela era uma das poucas pessoas no mundo capazes de arrancar esse tipo de reação de mim. Poucas mesmo. Terminei o café e saí. O dia já estava começando. E, no morro, dia começando significa problema chegando. ⸻ Quando cheguei na boca principal, o movimento já acontecia. Gente entrando. Gente saindo. Rádio ligado. Informação cruzando. O caos organizado de sempre. Nilo já estava lá. Encostado próximo da mesa principal, ouvindo atualização de um dos pontos. A postura era a mesma. O olhar também. Mas eu conhecia ele há tempo suficiente para perceber quando alguma coisa estava diferente. E alguma coisa estava. Mesmo que ele tentasse esconder. ⸻ — Bom dia, princesa. Ele nem levantou o olhar. — Vai se f***r. — Também senti saudade. Um dos moleques riu. Nilo lançou um olhar. O moleque parou de rir na mesma hora. Eu quase ri também. Quase. ⸻ Passei boa parte da manhã acompanhando movimentação, organizando algumas coisas e resolvendo problemas pequenos. Porque é isso que as pessoas não entendem. Acham que tudo é tiro. Guerra. Conflito. Mas a maior parte do tempo é administração. Decisão. Controle. Gente reclamando. Gente pedindo. Gente errando. ⸻ Perto do meio-dia apareceu um problema. Um dos cria tinha desaparecido com dinheiro. Pouco. Mas suficiente para gerar dor de cabeça. Chamaram o moleque. Ele chegou nervoso. Suando. Tentando explicar antes mesmo de alguém perguntar. Erro clássico. Quem fala demais geralmente sabe que fez merda. ⸻ — Cadê o dinheiro? A voz do Nilo saiu calma. O que era pior. Muito pior. O garoto engoliu seco. — Eu vou devolver. Silêncio. Nilo continuou olhando. Esperando. ⸻ — Eu tava precisando… — E resolveu pegar? O garoto abaixou a cabeça. ⸻ — Foi erro meu. — Foi mesmo. Mais silêncio. Pesado. ⸻ Eu observava tudo sem falar. Porque conhecia aquele momento. Conhecia o jeito que o Nilo resolvia as coisas. Sem grito. Sem show. Sem precisar provar nada. ⸻ No final o problema foi resolvido. Sem violência. Sem espetáculo. Mas com a mensagem passada. E isso bastava. ⸻ Já era tarde quando conseguimos respirar um pouco. Subimos para uma laje mais tranquila enquanto alguns dos moleques cuidavam do restante. O sol começava a baixar. O morro parecia mais leve naquele horário. Mais humano. Menos pesado. ⸻ — Vai ter aquela festa sábado. Um dos cria comentou. Eu olhei para ele. — Qual? — A da pista. Assenti. Já tinha ouvido falar. ⸻ Era uma festa grande. Muita gente. Muito movimento. Muita responsabilidade. ⸻ — Segurança? Nilo perguntou. — Tudo certo. — Entrada? — Controlada. — Quem tá organizando? — Os mesmos de sempre. ⸻ Ele assentiu. Mas continuou ouvindo. Analisando. Como sempre. ⸻ Foi então que o moleque completou: — E parece que a DJ vai tocar. Silêncio. Pequeno. Rápido. Mas eu percebi. Porque eu estava olhando para o Nilo quando aconteceu. ⸻ Quase nada mudou. Quase. Mas mudou. ⸻ Só um segundo. Só um detalhe. Só o suficiente. ⸻ — Qual DJ? Ele perguntou. Tentando parecer casual. Tentando parecer indiferente. ⸻ Tentando. ⸻ — A Estefany. Pronto. ⸻ Eu desviei o olhar para esconder a vontade de rir. Porque aquilo já estava ficando engraçado. ⸻ O homem que resolvia problema de cinquenta pessoas sem piscar. O homem que não se intimidava por nada. O homem que sempre tinha resposta para tudo. ⸻ E uma DJ conseguia bagunçar a cabeça dele. ⸻ A vida realmente gosta de ironia. ⸻ Depois que o moleque saiu, ficamos sozinhos. O vento batia devagar na laje. O som distante de algum pagode subia da comunidade. E eu continuei olhando a vista. ⸻ — Coincidência do c*****o. Falei. ⸻ Nilo nem me encarou. — Coincidência o quê? ⸻ Sorri. ⸻ — Nada. ⸻ Silêncio. ⸻ — Bruno. — Nadson. ⸻ Agora ele me olhou. ⸻ — Tu não cansa? — Não. ⸻ Voltei a olhar para frente. ⸻ — Vai na festa? Perguntei. ⸻ — Talvez. ⸻ Mentira. ⸻ Eu conhecia aquele talvez. ⸻ Significava sim. ⸻ Mas ele jamais admitiria. ⸻ Passamos mais alguns minutos conversando sobre coisas do morro. Movimentação. Segurança. Problemas. Assuntos normais. ⸻ Só que minha cabeça acabou indo para outro lugar. De novo. ⸻ Para ela. ⸻ Estefany. ⸻ E isso me irritava. Porque eu ainda não entendia. ⸻ Não era atração. Não era interesse. Não era nada do que normalmente faria sentido. ⸻ Era só aquela sensação. Aquela maldita sensação. ⸻ Como se existisse alguma coisa que eu deveria lembrar. Mas não lembrava. ⸻ Como se ela fosse familiar. Mesmo sendo uma completa desconhecida. ⸻ Aquilo não fazia sentido. Nenhum. ⸻ Mais tarde, já sozinho, peguei o celular enquanto esperava uma informação chegar. Foi quando vi. ⸻ Uma publicação. ⸻ Larissa. ⸻ Claro. ⸻ A garota parecia viver dentro da internet. ⸻ Abri sem pensar. ⸻ E lá estava. ⸻ Uma foto. ⸻ Ela e Estefany. ⸻ Sorrindo. ⸻ Como amigas. ⸻ Franzi a testa imediatamente. ⸻ — Que p***a… ⸻ Ampliei a imagem. ⸻ Olhei de novo. ⸻ E a sensação voltou. Mais forte. ⸻ Mais estranha. ⸻ Mais irritante. ⸻ Meu olhar ficou preso no rosto da Estefany por alguns segundos. Tentando entender. Tentando encontrar uma resposta. ⸻ Mas não encontrei. ⸻ Só encontrei aquela mesma sensação. ⸻ A mesma. ⸻ Sempre a mesma. ⸻ Como se alguma coisa dentro de mim insistisse em dizer que havia algo errado. Ou talvez importante. ⸻ E eu odiava isso. ⸻ Porque eu sempre fui bom em entender pessoas. Em entender situações. Em entender perigo. ⸻ Mas ela? ⸻ Ela parecia um quebra-cabeça que eu não sabia nem por onde começar. ⸻ Guardei o celular. Irritado. ⸻ Porque, quanto mais eu tentava ignorar aquilo… Mais voltava. ⸻ E, pela primeira vez em muito tempo… Eu estava começando a desconfiar que algumas respostas já estavam muito mais perto do que eu imaginava. ⸻ Eu só ainda não sabia quais perguntas precisava fazer.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD