Capítulo 13 — Betinho
O morro acorda antes do resto da cidade.
Sempre acordou.
Enquanto tem gente virando para o outro lado da cama e reclamando do despertador, aqui já tem moto subindo viela, comércio abrindo porta, rádio chiando informação e gente correndo atrás da própria sobrevivência.
Foi assim que eu cresci.
Foi assim que aprendi a viver.
E, sinceramente, acho que já nem saberia viver de outro jeito.
Abri os olhos pouco depois das seis da manhã, encarando o teto por alguns segundos antes de levantar. O corpo acostumado com a rotina fazia tudo sozinho. Banho rápido. Roupa simples. Café forte.
Minha avó já estava acordada.
Como sempre.
Dona Lúcia parecia ter um pacto com o tempo. Nunca dormia demais. Nunca reclamava. Nunca deixava faltar um prato de comida ou um conselho que ninguém pediu.
— Vai comer direito.
— Vou.
— Mentira.
— Vou sim.
— Tá magro.
Revirei os olhos.
— A senhora fala isso desde que eu tinha quinze anos.
— E continuo certa.
Sorri de canto.
Ela era uma das poucas pessoas no mundo capazes de arrancar esse tipo de reação de mim.
Poucas mesmo.
Terminei o café e saí.
O dia já estava começando.
E, no morro, dia começando significa problema chegando.
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Quando cheguei na boca principal, o movimento já acontecia.
Gente entrando.
Gente saindo.
Rádio ligado.
Informação cruzando.
O caos organizado de sempre.
Nilo já estava lá.
Encostado próximo da mesa principal, ouvindo atualização de um dos pontos.
A postura era a mesma.
O olhar também.
Mas eu conhecia ele há tempo suficiente para perceber quando alguma coisa estava diferente.
E alguma coisa estava.
Mesmo que ele tentasse esconder.
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— Bom dia, princesa.
Ele nem levantou o olhar.
— Vai se f***r.
— Também senti saudade.
Um dos moleques riu.
Nilo lançou um olhar.
O moleque parou de rir na mesma hora.
Eu quase ri também.
Quase.
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Passei boa parte da manhã acompanhando movimentação, organizando algumas coisas e resolvendo problemas pequenos.
Porque é isso que as pessoas não entendem.
Acham que tudo é tiro.
Guerra.
Conflito.
Mas a maior parte do tempo é administração.
Decisão.
Controle.
Gente reclamando.
Gente pedindo.
Gente errando.
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Perto do meio-dia apareceu um problema.
Um dos cria tinha desaparecido com dinheiro.
Pouco.
Mas suficiente para gerar dor de cabeça.
Chamaram o moleque.
Ele chegou nervoso.
Suando.
Tentando explicar antes mesmo de alguém perguntar.
Erro clássico.
Quem fala demais geralmente sabe que fez merda.
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— Cadê o dinheiro?
A voz do Nilo saiu calma.
O que era pior.
Muito pior.
O garoto engoliu seco.
— Eu vou devolver.
Silêncio.
Nilo continuou olhando.
Esperando.
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— Eu tava precisando…
— E resolveu pegar?
O garoto abaixou a cabeça.
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— Foi erro meu.
— Foi mesmo.
Mais silêncio.
Pesado.
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Eu observava tudo sem falar.
Porque conhecia aquele momento.
Conhecia o jeito que o Nilo resolvia as coisas.
Sem grito.
Sem show.
Sem precisar provar nada.
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No final o problema foi resolvido.
Sem violência.
Sem espetáculo.
Mas com a mensagem passada.
E isso bastava.
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Já era tarde quando conseguimos respirar um pouco.
Subimos para uma laje mais tranquila enquanto alguns dos moleques cuidavam do restante.
O sol começava a baixar.
O morro parecia mais leve naquele horário.
Mais humano.
Menos pesado.
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— Vai ter aquela festa sábado.
Um dos cria comentou.
Eu olhei para ele.
— Qual?
— A da pista.
Assenti.
Já tinha ouvido falar.
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Era uma festa grande.
Muita gente.
Muito movimento.
Muita responsabilidade.
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— Segurança?
Nilo perguntou.
— Tudo certo.
— Entrada?
— Controlada.
— Quem tá organizando?
— Os mesmos de sempre.
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Ele assentiu.
Mas continuou ouvindo.
Analisando.
Como sempre.
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Foi então que o moleque completou:
— E parece que a DJ vai tocar.
Silêncio.
Pequeno.
Rápido.
Mas eu percebi.
Porque eu estava olhando para o Nilo quando aconteceu.
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Quase nada mudou.
Quase.
Mas mudou.
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Só um segundo.
Só um detalhe.
Só o suficiente.
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— Qual DJ?
Ele perguntou.
Tentando parecer casual.
Tentando parecer indiferente.
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Tentando.
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— A Estefany.
Pronto.
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Eu desviei o olhar para esconder a vontade de rir.
Porque aquilo já estava ficando engraçado.
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O homem que resolvia problema de cinquenta pessoas sem piscar.
O homem que não se intimidava por nada.
O homem que sempre tinha resposta para tudo.
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E uma DJ conseguia bagunçar a cabeça dele.
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A vida realmente gosta de ironia.
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Depois que o moleque saiu, ficamos sozinhos.
O vento batia devagar na laje.
O som distante de algum pagode subia da comunidade.
E eu continuei olhando a vista.
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— Coincidência do c*****o.
Falei.
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Nilo nem me encarou.
— Coincidência o quê?
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Sorri.
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— Nada.
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Silêncio.
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— Bruno.
— Nadson.
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Agora ele me olhou.
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— Tu não cansa?
— Não.
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Voltei a olhar para frente.
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— Vai na festa?
Perguntei.
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— Talvez.
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Mentira.
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Eu conhecia aquele talvez.
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Significava sim.
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Mas ele jamais admitiria.
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Passamos mais alguns minutos conversando sobre coisas do morro.
Movimentação.
Segurança.
Problemas.
Assuntos normais.
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Só que minha cabeça acabou indo para outro lugar.
De novo.
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Para ela.
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Estefany.
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E isso me irritava.
Porque eu ainda não entendia.
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Não era atração.
Não era interesse.
Não era nada do que normalmente faria sentido.
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Era só aquela sensação.
Aquela maldita sensação.
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Como se existisse alguma coisa que eu deveria lembrar.
Mas não lembrava.
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Como se ela fosse familiar.
Mesmo sendo uma completa desconhecida.
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Aquilo não fazia sentido.
Nenhum.
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Mais tarde, já sozinho, peguei o celular enquanto esperava uma informação chegar.
Foi quando vi.
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Uma publicação.
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Larissa.
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Claro.
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A garota parecia viver dentro da internet.
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Abri sem pensar.
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E lá estava.
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Uma foto.
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Ela e Estefany.
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Sorrindo.
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Como amigas.
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Franzi a testa imediatamente.
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— Que p***a…
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Ampliei a imagem.
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Olhei de novo.
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E a sensação voltou.
Mais forte.
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Mais estranha.
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Mais irritante.
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Meu olhar ficou preso no rosto da Estefany por alguns segundos.
Tentando entender.
Tentando encontrar uma resposta.
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Mas não encontrei.
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Só encontrei aquela mesma sensação.
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A mesma.
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Sempre a mesma.
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Como se alguma coisa dentro de mim insistisse em dizer que havia algo errado.
Ou talvez importante.
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E eu odiava isso.
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Porque eu sempre fui bom em entender pessoas.
Em entender situações.
Em entender perigo.
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Mas ela?
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Ela parecia um quebra-cabeça que eu não sabia nem por onde começar.
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Guardei o celular.
Irritado.
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Porque, quanto mais eu tentava ignorar aquilo…
Mais voltava.
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E, pela primeira vez em muito tempo…
Eu estava começando a desconfiar que algumas respostas já estavam muito mais perto do que eu imaginava.
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Eu só ainda não sabia quais perguntas precisava fazer.