Capítulo 14

1231 Words
Capítulo 14 — Estefany Eu sempre achei engraçado como a vida gosta de escolher os momentos mais aleatórios para bagunçar tudo. Não quando você está preparada. Não quando está esperando. Muito menos quando faz sentido. Ela simplesmente acontece. E, normalmente, deixa você tentando entender depois. Naquela noite, eu saí da academia exausta. O treino tinha sido pesado, meu corpo estava reclamando de cada exercício e a única coisa que eu queria era tomar banho, comer alguma coisa e dormir. Ou pelo menos era isso que eu estava tentando convencer a mim mesma. Porque a verdade era que minha cabeça andava ocupada demais ultimamente. E eu sabia exatamente o motivo. Estava saindo pelo estacionamento enquanto respondia uma mensagem do Lucas. Como sempre. O homem parecia incapaz de passar mais de duas horas sem me mandar alguma coisa. — Tu vai mesmo ignorar o fato de que tá apaixonada? — o áudio dele dizia. Revirei os olhos imediatamente. Apaixonada. Claro. Porque um olhar aqui. Uma conversa ali. E agora todo mundo tinha virado especialista na minha vida amorosa. Abri o teclado. — Vai trabalhar, Lucas. Enviei. A resposta veio na mesma hora. — Resposta típica de quem tá apaixonada. Idiota. Balancei a cabeça sorrindo sem querer enquanto caminhava distraída. Foi então que aconteceu. Meu corpo bateu contra algo. Ou melhor… Contra alguém. Forte. Muito forte. Meu celular quase voou da minha mão. — Caramba! Levantei o rosto automaticamente. E congelei. Porque não era alguém. Era ele. Nilo. Por um segundo, meu cérebro simplesmente esqueceu como funcionava. Ele também pareceu surpreso. Só por um segundo. Depois a expressão voltou ao normal. Calma. Controlada. Irritantemente controlada. — Tu anda olhando pro celular ou tá treinando pra derrubar as pessoas na rua? Meu coração acelerou imediatamente. Ótimo. Maravilha. Perfeito. — Engraçado. Eu ia perguntar a mesma coisa. O canto da boca dele subiu. Aquele quase sorriso. Aquele que me deixava absurdamente irritada. — Tu sempre responde assim? — Só quando a pessoa merece. — Então eu mereço bastante. Revirei os olhos. — Convencido. — Realista. Suspirei. Porque discutir com ele era impossível. E, pior ainda… Eu gostava. Droga. Eu gostava. Ficamos alguns segundos nos encarando. Silêncio. Mas não um silêncio desconfortável. Pelo contrário. Era aquele tipo de silêncio carregado. Cheio de coisas não ditas. Cheio de perguntas. Cheio de tensão. — O que tu tá fazendo aqui? — perguntei. — Academia. Olhei para ele. Depois para os ombros. Depois para os braços. Depois para o restante daquele homem absurdamente grande. — Nossa. Nunca imaginaria. Ele riu. Uma risada baixa. Curta. Mas real. E aquilo me pegou desprevenida. Porque era raro. Muito raro. — Engraçadinha. — Eu me esforço. — Dá pra perceber. Comecei a andar. Não por fugir. Mas porque ficar parada perto dele estava ficando perigoso. Nilo acompanhou. Naturalmente. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. E, estranhamente… Pareceu mesmo. — Então… — ele falou. — Então… — Tu sempre sai essa hora? — Dependendo do dia. — Hm. — Hm o quê? — Nada. Franzi a testa. — Tu faz muito isso. — Isso o quê? — Responde “nada” quando claramente quer dizer alguma coisa. — E tu faz muita pergunta. — Porque tu responde pouco. Ele balançou a cabeça. Divertido. Como se estivesse gostando da conversa. E isso era um problema. Porque eu também estava. Chegamos próximos ao meu carro. E, pela primeira vez desde que nos conhecemos… Nenhum dos dois parecia com pressa de ir embora. O que já dizia muita coisa. — Larissa fala de ti. A frase saiu antes que eu pudesse impedir. Os olhos dele encontraram os meus. — Fala? — Bastante. — Espero que só coisa boa. Sorri. — Depende. — Estefany. — Tô brincando. Ele ficou me observando. Em silêncio. De novo. E aquilo sempre mexia comigo. Porque parecia que ele enxergava mais do que devia. Mais do que eu mostrava. Mais do que eu queria. — Ela gosta de ti. A voz dele saiu mais baixa. Mais sincera. Pisquei algumas vezes. Surpresa. — Eu também gosto dela. E era verdade. Muito. Mais do que fazia sentido para tão pouco tempo. Nilo assentiu devagar. Como se aquilo fosse importante para ele. E talvez fosse. Por algum motivo, aquela percepção aqueceu alguma coisa dentro de mim. Porque, por trás do homem fechado. Por trás da postura. Por trás do controle. Existia alguém que se importava profundamente com a família. E eu começava a enxergar isso. — Tu tá me olhando de novo. A voz dele me trouxe de volta. Meu coração tropeçou. — Você também. — Justo. Silêncio. Outra vez. Mas agora diferente. Mais intenso. Mais próximo. Mais perigoso. Não sei exatamente em que momento aconteceu. Só sei que aconteceu. Porque, de repente, nenhum dos dois estava brincando. Nenhum dos dois estava provocando. Nenhum dos dois estava escondido atrás de respostas atravessadas. Só existia aquele momento. Aquela proximidade. Aquele olhar. Meu coração estava acelerado. Ridiculamente acelerado. E pela primeira vez… Nilo não parecia tão tranquilo quanto costumava parecer. Havia alguma coisa diferente ali. Algo quebrando a superfície. Algo que ele também não conseguia controlar completamente. — Isso é uma péssima ideia. As palavras saíram da minha boca quase num sussurro. Os olhos dele continuaram presos nos meus. — Provavelmente. — Então por que ninguém tá indo embora? A pergunta ficou entre nós. Pesada. Sincera. Sem resposta. Porque os dois sabiam. Os dois sabiam fazia tempo. Desde a boate. Desde o baile. Desde os olhares. Desde as provocações. Desde o primeiro instante. A tensão só vinha crescendo. Dia após dia. Encontro após encontro. Até ficar impossível ignorar. Nilo deu um passo. Pequeno. Mas suficiente para diminuir ainda mais a distância. Meu corpo inteiro ficou alerta. Mas eu não recuei. Não queria recuar. E isso talvez fosse o mais assustador de tudo. — Estefany… Foi a primeira vez que meu nome soou daquele jeito na voz dele. Baixo. Rouco. Perigoso. Meu coração praticamente parou. E então… Aconteceu. Sem aviso. Sem planejamento. Sem lógica. Só aconteceu. O beijo veio carregado de toda a tensão que vinha se acumulando há semanas. De todos os olhares. De todas as provocações. De tudo que nenhum dos dois teve coragem de dizer. Meu cérebro simplesmente desligou. Por alguns segundos. Talvez minutos. Eu não sabia. Nem queria saber. Porque, pela primeira vez desde que conheci Nilo… Não existia provocação. Não existia defesa. Não existia distância. Só verdade. Crua. Intensa. Assustadora. Quando nos afastamos, o silêncio voltou. Mas agora era diferente. Muito diferente. Meu coração estava disparado. Minha respiração também. E, pela primeira vez desde que o conheci… Nilo parecia tão afetado quanto eu. Os olhos dele continuavam presos nos meus. Mas havia algo novo ali. Algo que não existia antes. Algo impossível de ignorar. Engoli seco. Tentando organizar os pensamentos. Tentando lembrar como respirar. Tentando lembrar qualquer coisa. Sem sucesso. — Isso complicou tudo. As palavras escaparam antes que eu pudesse impedir. O canto da boca dele subiu. Pequeno. Quase imperceptível. — Complicou. Respirei fundo. — Ótimo. — Ótimo? — Eu tava precisando de mais problemas na minha vida. Dessa vez ele riu. E eu odiei o quanto gostei de ouvir aquilo. Porque a verdade era simples. Nada tinha sido resolvido. Nada tinha sido explicado. Nada tinha ficado mais fácil. Pelo contrário. Tudo tinha acabado de ficar muito mais complicado. E, pela primeira vez… Nenhum dos dois parecia disposto a fugir disso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD