Capitulo 15

1094 Words
Capítulo 15 — Nilo Eu fiz muita coisa errada na vida. Mais do que consigo contar. Mais do que gostaria de admitir. Mas sempre teve uma diferença entre erro e burrice. Erro acontece. Burrice é quando você sabe exatamente o que não deve fazer... E faz mesmo assim. O problema era que eu estava começando a desconfiar que tinha acabado de fazer a maior burrice dos últimos anos. Subi na minha MV Agusta F4 Claudio e coloquei o capacete. O ronco do motor cortou o silêncio da rua enquanto eu acelerava. Normalmente aquilo resolvia. Sempre resolveu. A velocidade limpava minha cabeça. O vento levava embora qualquer pensamento desnecessário. Qualquer preocupação. Qualquer distração. Mas não naquela noite. Naquela noite não importava o quanto eu acelerasse. Ela continuava lá. Estefany. A voz. O olhar. O gosto do beijo. Fechei os olhos por um segundo quando parei em um sinal. Porra. Aquilo era um problema. Um problema grande. Porque eu conhecia atração. Conhecia desejo. Conhecia vontade. Nada daquilo era novidade. Mas aquilo... Aquilo era diferente. E eu odiava coisas diferentes. Acelerei novamente. Passando pelas ruas movimentadas da Zona Sul. Luzes. Carros. Gente. Vida acontecendo. Tudo normal. Menos eu. Porque minha cabeça estava voltando para o mesmo lugar. De novo. E de novo. E de novo. Como uma música que se recusa a sair da cabeça. O pior era que eu não tinha desculpa. Nenhuma. Porque eu nem malhava naquela academia. Nunca tinha colocado os pés naquele lugar antes. Nunca. Então não dava para mentir para mim mesmo. Não dava para fingir coincidência. Não dava para inventar desculpa. No fundo eu sabia. Sabia exatamente por que estava lá. E isso me irritava mais ainda. Passei anos aprendendo a sobreviver. Anos. Aprendendo a desconfiar. Aprendendo a observar. Aprendendo a não repetir caminho. A não criar rotina. A não dar bandeira. Porque homem no meu lugar não tem esse luxo. Eu era um dos traficantes mais procurados do Rio. Tinha gente querendo minha cabeça. Tinha rival esperando um vacilo. Tinha polícia atrás de informação. Tinha informante tentando ganhar dinheiro. Tinha gente observando cada passo. Cada movimento. Cada erro. E ultimamente... Eu estava andando pela pista por causa de uma mulher. Só de pensar aquilo eu senti vontade de socar alguma coisa. Porque era ridículo. Absolutamente ridículo. Parei em um posto. Tirei o capacete. Passei a mão pelo rosto. Tentando organizar os pensamentos. Sem sucesso. Durante anos eu enfrentei coisa pior. Muito pior. Vi amigo morrer. Vi guerra. Vi sangue. Vi desespero. Vi mãe enterrando filho. Vi filho enterrando pai. E sobrevivi a tudo. Mas uma DJ loira conseguia bagunçar minha cabeça mais do que muito inimigo. Que p***a era aquela? Voltei para a moto. Subi. Acelerei. E dessa vez fui direto para o morro. Porque precisava voltar para onde as coisas faziam sentido. Precisava voltar para minha realidade. Para o meu mundo. Quando as primeiras ruas do Alemão apareceram, senti aquela sensação familiar. O território. O lugar onde eu conhecia cada esquina. Cada viela. Cada rosto. Alguns moradores me cumprimentaram. Assenti. Outros fizeram sinal. Respondi. Tudo normal. Mas eu sabia. Sabia que não estava normal. Porque fazia anos que eu não chegava tão distraído. Estacionei a moto. Tirei o capacete. E subi. Foi só colocar os pés na laje principal para perceber. Betinho. Claro. Encostado na mureta. Braços cruzados. Olhar atento. Como sempre. Aquele desgraçado me conhecia melhor do que muita gente da minha família. E isso era um problema. — Tá com cara de quem matou alguém. Ele falou sem nem me olhar. — Talvez. — Então tá suave. Revirei os olhos. Betinho finalmente virou o rosto na minha direção. E bastou um segundo. Um segundo. Para ele entender que tinha alguma coisa errada. — Fudeu. — O quê? — Tu beijou ela. Meu corpo travou. Por fora. Só por um instante. Mas travou. E ele percebeu. Claro que percebeu. — c*****o. Passei a mão no rosto. — Tu é muito chato. — Eu acertei. — Vai trabalhar. — Eu acertei. O sorriso dele apareceu. Pequeno. Mas apareceu. — Tu tá feliz demais. — Eu tô impressionado. — Com o quê? — Que o cara mais desconfiado do Rio resolveu perder a cabeça por uma DJ. Suspirei pesadamente. Porque ouvir aquilo em voz alta tornava tudo pior. Muito pior. Betinho continuou me observando. Esperando. — E aí? — E aí o quê? — Foi bom? Olhei para ele. Sério. — Bruno. Ele levantou as mãos. Rindo. — Tá bom. Silêncio. O vento batia forte na laje. O morro continuava vivo lá embaixo. Música. Moto. Gente. Tudo acontecendo. Mas minha cabeça continuava presa em outro lugar. — Eu devia me afastar. Falei sem perceber. Betinho ficou quieto. Pela primeira vez desde que a conversa começou. — Devia mesmo. Olhei para ele. — Mas não vai. Não era pergunta. Era afirmação. E isso me irritou. Porque ele estava certo. De novo. — Ela não faz parte desse mundo. Continuei. — Eu sei. — Ela não tem ideia da vida que eu levo. — Eu sei. — Isso pode dar merda. — Eu sei. Silêncio. — Então para de repetir que sabe. Ele riu. — Porque tu também sabe. Pronto. Ali estava o problema. Eu sabia. Sabia de tudo. Sabia dos riscos. Sabia das consequências. Sabia das diferenças. Ela vivia de música. Eu vivia de guerra. Ela subia em palco. Eu subia morro armado. Ela fazia planos para o futuro. Eu sobrevivia pensando no próximo dia. Nossos mundos não combinavam. Não encaixavam. Não faziam sentido juntos. E mesmo assim... Mesmo sabendo de tudo isso... Mesmo entendendo perfeitamente o tamanho da merda... Eu continuava pensando nela. Continuava querendo ver ela. Continuava lembrando do beijo. Continuava querendo outro. E era aí que morava o perigo. Porque desejo passa. Curiosidade passa. Mas aquilo... Aquilo não parecia estar passando. Pelo contrário. Parecia crescer. Cada vez mais. Fiquei olhando as luzes da cidade ao longe. Tentando encontrar alguma resposta. Alguma solução. Alguma lógica. Não encontrei nenhuma. Porque a verdade era simples. Eu devia me afastar. Era o certo. Era o inteligente. Era o seguro. Então por que... Por que eu já estava pensando na próxima vez que iria ver ela? Fechei os olhos devagar. E pela primeira vez em muitos anos... Eu tive a sensação de estar entrando em um território muito mais perigoso do que qualquer guerra que já enfrentei. Porque arma eu sabia enfrentar. Polícia também. Inimigo também. Mas aquela garota... Aquela garota era uma batalha completamente diferente. E o pior de tudo? Era que, pela primeira vez... Eu não tinha certeza se queria vencer.
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