Capítulo 16 — Larissa
Eu sempre achei engraçado como as pessoas enxergam meu irmão.
Para a maioria, ele é o Nilo.
O cara respeitado.
O cara que ninguém desafia.
O cara que entra em um lugar e muda o ambiente inteiro só com a presença.
Mas para mim?
Ele continua sendo o Nadson.
O mesmo garoto que me carregava nas costas quando eu era pequena.
O mesmo que dividia o último pedaço de bolo comigo.
O mesmo que fingia não gostar de desenho animado e acabava assistindo sentado do meu lado.
Por isso talvez eu perceba coisas que os outros não percebem.
Porque eu conheço o homem que existe por trás da imagem.
E naquela noite...
Alguma coisa estava errada.
Muito errada.
Eu estava sentada na mesa da cozinha cercada por livros.
Cadernos.
Anotações.
Canetas coloridas.
Um notebook aberto.
E uma vontade absurda de largar tudo e fingir que a faculdade não existia.
Infelizmente, a prova da semana seguinte não parecia disposta a colaborar com esse plano.
— Tá estudando ou montando uma papelaria? — minha mãe perguntou enquanto passava com uma panela na mão.
— Os dois.
Ela riu.
— Você puxou isso de quem?
— De você não foi.
— Graças a Deus.
Sorri.
Minha mãe colocou a panela sobre o fogão e voltou a mexer alguma coisa enquanto eu tentava entender um texto enorme que parecia ter sido escrito por alguém que odiava estudantes.
Depois de cinco minutos lendo a mesma linha sem entender nada, peguei o celular.
Uma mensagem.
Estefany.
Sorri automaticamente.
Estefany:
"Sobreviveu à aula?"
Revirei os olhos.
Eu:
"Por enquanto."
"Mas acho que vou processar a faculdade por danos psicológicos."
A resposta veio quase instantaneamente.
Estefany:
"Eu apoio."
"Posso ser testemunha."
Balancei a cabeça rindo.
Era estranho.
A gente tinha se conhecido fazia poucos dias.
Mas parecia muito mais.
Muito.
Como se a conversa simplesmente fluísse sem esforço.
Sem aquela fase estranha de conhecer alguém.
Sem forçar assunto.
Sem constrangimento.
— É ela de novo?
A voz da minha mãe me arrancou do celular.
— Quem?
— A amiga.
— Que amiga?
— Larissa.
Suspirei.
— Mãe.
— O quê?
— Você também tá me observando agora?
Ela sorriu.
— Sou mãe.
Argumento impossível de rebater.
— Sim.
É ela.
Minha mãe assentiu.
— Gosto dela.
Olhei surpresa.
— Você nem conhece ela.
— Conheço pelas histórias.
— Histórias?
— Você fala dela o tempo todo.
Parei por um segundo.
Pensando.
E percebi uma coisa.
Ela estava certa.
— Eu não falo o tempo todo.
— Fala sim.
— Não falo.
— Fala.
Revirei os olhos.
— Tá bom.
Talvez um pouco.
Minha mãe sorriu vitoriosa.
— Eu sabia.
Voltei para os livros tentando fingir que aquela conversa nunca tinha acontecido.
Não funcionou.
Porque meu celular vibrou de novo.
E eu sorri de novo.
E minha mãe viu.
Claro que viu.
— Eu sabia.
— Vai cuidar da tua panela.
Ela gargalhou.
A cozinha ficou silenciosa por alguns minutos.
Só o som das páginas virando.
Da panela fervendo.
Da televisão ligada na sala.
Tudo normal.
Tudo tranquilo.
Até a porta abrir.
Eu soube que era meu irmão antes mesmo de olhar.
Não sei explicar.
Talvez seja costume.
Talvez seja instinto.
Talvez seja apenas porque ele sempre carrega uma energia diferente quando entra em algum lugar.
Levantei o rosto.
E imediatamente percebi.
Alguma coisa estava errada.
Muito errada.
Nadson entrou em casa mais fechado que o normal.
O que já era difícil.
Porque o normal dele já era fechado.
Mas naquele dia...
Era diferente.
Ele cumprimentou minha mãe.
Me cumprimentou.
Mas parecia distante.
Como se a cabeça estivesse em outro lugar.
Minha mãe percebeu também.
Olhamos uma para a outra.
Sem falar nada.
Mas entendendo exatamente a mesma coisa.
Tem alguma coisa acontecendo.
— Cheguei.
— Percebemos — respondi.
Ele me lançou um olhar.
— Engraçadinha.
— Sempre.
Nilo abriu a geladeira.
Pegou água.
Tomou metade da garrafa.
E continuou estranho.
Muito estranho.
— Brigou com alguém?
Perguntei.
— Não.
— Então perdeu dinheiro.
— Também não.
— Levou bronca.
— Larissa.
— Tô tentando ajudar.
Minha mãe mordeu o lábio para esconder o sorriso.
Traidora.
— Eu tô normal.
Ele respondeu.
Eu e minha mãe nos olhamos ao mesmo tempo.
Depois olhamos para ele.
E começamos a rir.
— O quê?
— Tu tá tudo menos normal.
Eu disse.
— Concordo.
Minha mãe completou.
— Vocês duas são insuportáveis.
— Tá vendo?
Eu apontei.
— Irritado.
— Eu sempre fui irritado.
— Não assim.
Silêncio.
Pronto.
Acertamos.
Meu irmão passou a mão no rosto.
Claramente perdendo a paciência.
E isso só tornava tudo mais engraçado.
— Tá bom.
Vamos por eliminação.
— Não.
— Sim.
— Larissa.
— Nadson.
Minha mãe soltou uma gargalhada.
— Mulher.
Eu falei.
Silêncio.
Pesado.
Muito pesado.
Meu irmão congelou por meio segundo.
Só meio.
Mas eu vi.
Minha mãe viu.
E isso foi suficiente.
Eu arregalei os olhos.
— CARACA.
— Larissa.
— É mulher!
— Não começa.
— É mulher!
Minha mãe estava praticamente rindo da situação inteira.
— Vocês duas perderam a noção.
— Eu sabia!
Falei apontando para ele.
— Eu sabia!
— Você não sabe de nada.
— Sei sim.
— Não sabe.
— Sei.
— Não sabe.
— Mulher.
Ele fechou os olhos.
Respirando fundo.
E aquilo só confirmou tudo.
Eu quase caí da cadeira de tanto rir.
— Meu Deus.
— Larissa.
— Quem é ela?
— Ninguém.
— Mentira.
— Verdade.
— Mentira.
— Verdade.
— MENTIRA.
— LARISSA.
Minha mãe estava chorando de rir.
Literalmente.
Eu nunca tinha visto meu irmão daquele jeito.
Nunca.
Porque normalmente ele tinha resposta para tudo.
Controle para tudo.
Paciência para tudo.
Mas naquele assunto?
Parecia perdido.
Foi então que meu celular vibrou.
Olhei.
Mensagem da Estefany.
Sorri sem perceber.
— Olha.
— O quê?
Minha mãe perguntou.
— A Estefany mandou foto.
Nilo continuou bebendo água.
Sem demonstrar interesse.
Ou tentando.
Mostrei a tela para minha mãe.
— Essa é ela.
Minha mãe analisou.
— Bonita.
— Muito.
— Parece simpática.
— É muito.
Sem pensar, aumentei a foto.
E meu irmão olhou.
Foi rápido.
Mas olhou.
E eu vi.
Vi perfeitamente.
A forma como ele ficou imóvel por um segundo.
A forma como o olhar travou.
A forma como desviou logo depois.
Silêncio.
Lento.
Pesado.
Estranho.
Muito estranho.
Olhei para minha mãe.
Minha mãe olhou para mim.
E, naquele momento...
Eu tive absoluta certeza de uma coisa.
Meu irmão estava escondendo alguma coisa.
Uma coisa grande.
Muito grande.
O problema?
Eu não fazia ideia do que era.
E, pela primeira vez na vida...
Isso me deixou realmente curiosa.