Capítulo 20 — Nilo
Eu vi ela descendo as escadas do camarote.
Mesmo de longe, mesmo com a boate lotada, eu vi.
O vestido curto, o cabelo meio bagunçado, os passos meio tortos por causa da bebida. Ela parou na porta, abraçou o próprio corpo por causa do vento e enfiou a cara no celular.
Fugindo.
De mim.
Virei pro lado. Betinho tava encostado na grade, copo na mão, me olhando com aquela cara de quem já entendeu tudo e só tá esperando eu me f***r.
— Vou indo — falei, seco.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Fica de olho na minha irmã. E não vai embora sem ela.
Betinho deu uma risada sem graça.
— Virei babá agora, foi?
Mostrei o dedo do meio pra ele.
— Babá do c*****o. Só faz o que eu mandei.
Ele riu mais alto. i****a.
Virei as costas e desci pelo mesmo caminho que ela.
O corredor tava mais vazio agora. Música abafada, gente bêbada indo pro banheiro, segurança encostado na parede. Ninguém me parou. Ninguém nunca para.
Quando empurrei a porta lateral e saí, o ar frio bateu na minha cara.
E lá estava ela.
Encostada na parede de tijolinho da boate, braço cruzado, celular na mão. A luz do poste batia no cabelo loiro e deixava tudo mais claro. Mais real.
Ela me viu.
Revirou os olhos na mesma hora.
Era pra eu achar graça. Era pra eu gostar que ela tentava manter distância. Seria o certo. Se ela soubesse quem eu era de verdade, não estaria revirando os olhos. Estaria correndo.
Me aproximei. Devagar. Mãos no bolso da calça.
— Quer carona? — minha voz saiu mais rouca do que eu queria. Mais fria do que eu calculei.
Ela nem levantou a cabeça do celular.
— Não, obrigada. Já tô pedindo Uber.
Olhei de relance pra tela. O círculo branco rodando. “Procurando motorista...”. Quatro e vinte da manhã numa sexta na Zona Sul.
— Você não vai achar uma hora dessas — falei, simples.
Ela mordeu o canto do lábio. Irritada. Eu vi. Por um segundo ela fechou os olhos, respirou fundo, como se tivesse brigando com ela mesma.
Aí soltou o ar.
— Tá bom. Aceito sua carona.
Não respondi. Só virei e comecei a andar na direção do estacionamento. Ouvi o salto dela batendo no chão, vindo atrás. Não olhei pra trás pra conferir. Sabia que ela vinha.
O carro tava na parte mais afastada, longe dos manobristas. Destranquei. Ela abriu a porta do passageiro e entrou sem falar nada. Fechei a minha porta e o silêncio bateu dentro do carro.
Dei partida.
— Onde você mora? — perguntei, já saindo do estacionamento.
Ela explicou. Zona Norte. Rua, número. Voz baixa, ainda meio alterada pela bebida.
Assenti. Não falei mais nada.
A gente seguiu.
Eu dirigia olhando pra pista, mas via tudo pelo canto do olho. O jeito que ela tava encostada no banco, cabeça apoiada no vidro. O vestido que tinha subido um palmo acima do joelho quando ela sentou. O cheiro do perfume dela misturado com bebida e cigarro da boate. Invadindo o carro inteiro. Invadindo eu.
Porra.
Meu maxilar tava travado. Mão apertando o volante mais do que precisava.
Ela quebrou o silêncio primeiro. Claro.
— Por que praticamente em todas as festas que eu tô trabalhando você sempre aparece?
Continuei olhando pra pista. Não podia olhar pra ela agora.
— Coincidência — respondi.
Ela soltou uma risada curta, sem humor.
— Coincidência — repetiu, me olhando de lado.
Eu sei. Eu sei que foi a mentira mais deslavada que eu soltei na noite. E olha que eu minto pra sobreviver.
Não falei mais nada. Ela também não insistiu.
O resto do caminho foi silêncio. Só o barulho do motor e da cidade lá fora.
Quando virei na rua dela, ela endireitou o corpo no banco. Passou a mão no cabelo, ajeitou o vestido.
Parei em frente ao portão de uma casa simples, de dois andares. Luz da varanda acesa.
Ela abriu um sorriso pequeno. Alívio.
— Obrigada pela carona — falou, já com a mão na maçaneta.
Assenti.
Ela abriu a porta. Um pé já tava pra fora quando parou.
Fechou a porta de novo.
Virou o corpo inteiro pra mim.
Antes que eu entendesse, a mão dela agarrou a gola da minha camisa e me puxou.
Eu não esperava. Não dela. Não agora.
A boca dela bateu na minha com força. Sem pedir. Sem avisar.
O mesmo gosto do corredor da boate. Batom, bebida e raiva.
Dessa vez eu não resisti.
Larguei o volante e segurei a cintura dela. Ela passou uma perna por cima do console, depois a outra, e sentou no meu colo. De frente pra mim. As pernas em cada lado da minha cintura, o peso dela inteiro em cima de mim.
Minha mão subiu pela coxa dela sem permissão. A pele quente, arrepiada. A outra mão foi direto pra nuca, puxando o cabelo dela, colando nossas bocas mais fundo.
Ela gemeu baixo, contra minha boca. As mãos dela agarradas na minha nuca, unhas arranhando de leve.
Meu corpo reagiu inteiro. Imediato. Violento.
Faz tempo que eu não perdia o controle assim. Faz tempo que eu não deixava.
E foi quando eu percebi que se eu não parasse agora, eu não ia parar mais.
Que eu ia levar ela pra dentro. Ia subir aquelas escadas. Ia esquecer quem eu era, quem ela era, o que isso significava.
Ia colocar ela em risco.
Respirei fundo contra a boca dela.
E afastei.
Segurei os dois braços dela, colocando espaço entre a gente. Ela tava ofegante, batom borrado, cabelo bagunçado, olhos verdes vidrados em mim. Confusa. p**a.
— Boa noite, DJ — falei. A voz saiu falha. Pela primeira vez na noite.
Ela piscou, como se tivesse levando um tapa. Ficou me olhando por três segundos.
Aí saiu de cima de mim sem falar nada. Ajeitou o vestido, pegou a bolsa que tinha caído no chão do carro e abriu a porta.
— Boa noite, Nilo — respondeu, baixo.
Bateu a porta.
Fiquei parado, vendo ela atravessar a rua, abrir o portão, sumir pra dentro de casa. Só quando a luz do corredor acendeu lá dentro que eu dei partida de novo.
O carro tava quente. Abafado. Com o cheiro dela em tudo.
Dirigi duas quadras em silêncio, tentando colocar a cabeça no lugar.
Foi quando vi.
No banco do passageiro, meio enfiado entre o banco e o console, tinha um pen drive preto. Pequeno.
Parei o carro no meio da rua.
Peguei.
Devia ser dela. Caiu da bolsa quando ela subiu em cima de mim.
Girei aquela merda na mão.
Setlist. Música. Trabalho. A vida dela inteira devia tá aí dentro.
Guardei no bolso da calça.
Engatei a primeira e acelerei.
Destino: morro.
Porque horas demais fora do Alemão, e isso já vira notícia. Já vira fraqueza. Já vira alvo.
E eu não podia me dar a esse luxo.
Nem por ela.
Principalmente por ela.