Capítulo 19 — Estefany
Eu devia estar exausta.
Já eram quase três da manhã, eu tinha tocado por duas horas seguidas.
Mas eu não estava exausta.
Eu estava leve.
Leve de um jeito que eu nem lembrava mais como era.
A música no camarote não era a minha, era um remix qualquer que o DJ residente tinha colocado, mas o grave batia no meu peito e me fazia querer mexer o corpo. Então eu mexi.
Simples assim.
Faziam meses que eu não dançava numa festa sem estar trabalhando. Sem estar analisando transição, BPM, resposta da pista. Hoje eu só… dançava.
O suor descia pela minha nuca e grudava alguns fios do cabelo na pele. O salto me matava, mas eu ignorava. Larissa estava do meu lado, de braços pro alto, cantando a letra errada e rindo da própria voz.
— Você tá diferente hoje! — ela gritou no meu ouvido pra competir com a música.
— Diferente como?
— Solta! Bonita! Gostosa!
Revirei os olhos e empurrei o ombro dela de leve.
— Cala a boca, Lari.
Ela gargalhou e me puxou pra girar. Eu girei. E por um segundo, juro, eu esqueci de tudo. Esqueci de contrato, de Lucas me mandando mensagem perguntando onde eu estava, esqueci até… dele.
Mas aí eu olhei pro camarote.
E ele estava lá.
Apoiado na grade, copo na mão, me olhando como se não tivesse mais ninguém naquela boate.
Nilo.
Só Nilo. Nenhum sobrenome, nenhuma explicação. O cara que apareceu do nada no meu último show, que sumiu, que reapareceu e me tirou de uma enrascada com aquele babaca insistente. O cara que me beijou no estacionamento e depois agiu como se nada tivesse acontecido.
Desviei o olhar na hora. Voltei a dançar, mas a leveza já tinha um peso em cima. Porque mesmo sem olhar, eu sentia. Sentia ele acompanhando cada passo meu, cada vez que eu jogava o cabelo pro lado, cada gole da minha bebida.
Insuportável.
— Vou no banheiro rapidinho! — Larissa avisou, já se afastando.
— Quer que eu vá com você?
— Consigo mijar sozinha, Stef! Relaxa!
E sumiu no meio das pessoas.
Fiquei ali parada um segundo, balançando o corpo no ritmo da música sozinha. Uma menina veio tirar foto, eu sorri, fiz pose, agradeci. Quando ela saiu, percebi que não fazia sentido ficar no meio da pista sem Larissa. Resolvi ir no banheiro também. Retocar o batom, pelo menos.
O corredor do camarote era mais escuro, mais abafado. Tinha gente passando, mas era aquele fluxo lento, de quem vai pro banheiro ou pro fumódromo. Empurrei a porta do banheiro feminino.
O ar condicionado ali dentro era uma benção. Me olhei no espelho.
Meu Deus, eu estava bonita mesmo.
Cabelo um pouco bagunçado do jeito certo, maquiagem ainda intacta, só o batom que tinha saído quase todo. Peguei o vermelho na bolsa, passei com calma. Ajeitei os fios na frente, passei a mão pela cintura do vestido só pra tirar qualquer amassado.
Respirei fundo.
“Tá tudo bem, Estefany. É só uma noite. Você tá curtindo. Ponto.”
Joguei a bolsa no ombro e saí.
Não dei três passos.
Uma mão fechou no meu braço. Firme. Quente. Me puxando pra lateral do corredor, pra parte mais escura, onde a luz da boate m*l batia.
Meu corpo inteiro tensionou na hora. Eu ia xingar, ia virar, ia dar uma joelhada se precisasse.
Aí eu senti.
O perfume.
Amadeirado, forte, daquele jeito que gruda na roupa, na pele, na memória.
Meu estômago virou.
Eu já sabia quem era antes mesmo de olhar.
— Solta meu braço, Nilo.
Ele não soltou. Pelo contrário. Me puxou mais um pouco, até minhas costas baterem na parede fria. O corpo dele não encostou no meu, mas ficou perto o suficiente pra eu sentir o calor.
— Tá se divertindo? — a voz dele veio baixa, rouca, quase um sussurro pra ninguém ouvir.
Revirei os olhos. Clássico.
— Uau. Que criativo. Veio até aqui pra perguntar isso?
O canto da boca dele subiu. Aquele maldito sorriso de lado que ele sabe que me irrita.
— Responde.
— Tô. Muito. Incrível. Agora solta que eu vou voltar pra minha amiga.
Ele não soltou.
A mão dele continuava no meu braço, o dedão roçando de leve na minha pele. Era pouco, mas era o suficiente pra me arrepiar inteira e eu odiava que meu corpo reagisse assim.
— Por que você veio hoje? — ele perguntou.
— Porque eu trabalho com isso, caso você não tenha notado — cruzei os braços, mesmo com ele ainda segurando um deles. — A pergunta é: por que você vive aparecendo nos meus shows?
O canto da boca dele subiu de novo.
— Vai ver eu gosto de música.
— Ah, claro — revirei os olhos. — Você tem cara de quem sai de casa às três da manhã pra apreciar arte. Conta outra.
Ele deu um passo, diminuindo o espaço entre a gente. Minhas costas já estavam na parede, não tinha pra onde fugir.
— E se eu disser que gosto de te ver trabalhando?
Minha garganta secou. Desgraçado.
— Aí eu digo que você precisa de um hobby — rebati, tentando soar firme. — Ou de terapia.
Ele soltou uma risada baixa, sem humor nenhum.
— Engraçadinha.
— Eu tento — dei de ombros. — Agora solta meu braço que eu vou voltar pra minha amiga.
Ele não soltou.
Antes que eu pudesse responder com todo o vocabulário de palavrão que eu conhecia, a mão dele largou meu braço e subiu direto pro meu rosto. Dedos firmes no meu queixo, me obrigando a olhar pra ele.
E aí ele me beijou.
Não foi doce. Não foi pedido. Foi invasão.
A boca dele encaixou na minha com fome, com raiva, com tudo que ele não falava. O gosto era de bebida cara e de algo que eu não conseguia nomear. Minha bolsa caiu no chão, eu fiz menção de empurrar, mas minhas mãos travaram no tecido da camisa dele.
Por dois segundos, três, eu esqueci meu nome.
A língua dele pediu passagem e eu dei. Burra. Muito burra.
Foi intenso, rápido, roubado. A música da boate sumiu. Só existia a parede fria nas minhas costas, a mão dele na minha nuca e aquele beijo que parecia briga.
Quando ele se afastou, nós dois estávamos ofegantes.
Eu pisquei, tentando voltar pro meu corpo. Ele continuava perto, testa quase encostando na minha, olhos escuros me analisando como se eu fosse um problema que ele não sabia resolver.
Meu coração batia na boca.
E eu fiz a única coisa que consegui pensar.
Empurrei o peito dele com força.
— Você tem que parar com isso — minha voz saiu mais baixa do que eu queria. Mais trêmula.
Ele não respondeu. Só me olhou. E naquele olhar tinha alguma coisa que eu não soube ler. Raiva? Diversão? Dor?
Não esperei pra descobrir.
Abaixei, peguei minha bolsa do chão e saí andando rápido pelo corredor, sem olhar pra trás.
Quando voltei pro camarote, Larissa estava lá com dois copos na mão.
— Onde você tava, mulher? Te procurei!
— Banheiro — menti, pegando o copo da mão dela. Virei metade num gole só. A bebida desceu queimando, mas era melhor que sentir o gosto dele ainda na minha boca.
— Tá tudo bem? — ela franziu a testa, me analisando.
— Tô — menti de novo, forçando um sorriso. — Só cansada.
— Quer ir embora?
— Não! Deixa eu beber mais um pouco.
Ela riu e voltou a dançar. Eu fui junto. Bebi. Dancei. Cantei. Fiz tudo que uma pessoa normal faz numa festa.
Só que nada estava normal.
Porque cada vez que eu virava o rosto, eu sentia.
Ele estava lá.
Na mesma grade de antes. Mesmo copo na mão. Mesmo olhar em cima de mim.
Não sorria. Não acenava. Só olhava.
E quanto mais eu bebia, mais aquele olhar pesava. Mais o beijo queimava na minha boca. Mais a raiva crescia.
Raiva dele. Raiva de mim.
Uma hora o salto começou a ficar insuportável. O camarote começou a girar um pouquinho de lado. A voz da Larissa veio duplicada quando ela gritou “ESSA É A MINHA MÚSICA!”.
Foi aí que eu entendi.
A bebida tinha pegado.
E eu não podia ficar vulnerável ali. Não com ele me olhando daquele jeito. Não com meu corpo lembrando da parede fria e da mão dele na minha nuca.
— Lari — puxei o braço dela no meio da música. — Eu vou embora.
— O quê? Agora? Tá maluca?
— Tô cansada. E bebi demais. Melhor ir.
— Quer que eu peça pro meu irmão te levar? Ou pro Betinho?
Meu sangue gelou.
— Não! — falei rápido demais. Respirei. — Não. Vou de Uber. Já tô pedindo.
Ela me abraçou apertado, beijou minha bochecha, disse pra mandar mensagem quando chegasse. Eu prometi que sim.
Desci as escadas do camarote com as pernas meio bambas. O segurança abriu a porta lateral pra mim. O ar frio da madrugada bateu no meu rosto e me deu um choque de realidade.
Rua. Movimento. Gente saindo, fumando, rindo.
Abri o app do Uber. Digitei meu endereço. “Procurando motorista…”
Fiquei ali, parada na calçada, abraçando meu próprio corpo por causa do vento. O vestido que parecia perfeito lá dentro, agora parecia curto demais pro frio da rua.
Olhei pro celular. 4:17 da manhã.
“Nenhum motorista disponível no momento. Tentando novamente…”
Encostei na parede e fechei os olhos por um segundo.
E mesmo sem ver, eu sabia.
Em algum lugar lá em cima, naquele camarote, ele ainda estava me olhando.