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Capítulo 18 — Nilo
Eu devia estar em qualquer lugar.
Menos ali.
Era isso que eu repetia para mim mesmo enquanto observava a movimentação da casa de festas.
Gente entrando.
Segurança circulando.
Música ambiente.
Garçons passando.
Tudo normal.
Tudo funcionando.
Mas minha cabeça estava longe dali.
Porque eu sabia quem iria subir naquele palco.
E isso já era motivo suficiente para me deixar irritado.
Comigo mesmo.
Não com ela.
Comigo.
Porque eu continuava quebrando regras que levei anos para criar.
Homem no meu lugar não repete rotina.
Não frequenta os mesmos lugares.
Não chama atenção.
Não cria padrões.
E, ultimamente, eu estava fazendo exatamente o contrário.
— Tu tá muito quieto.
A voz de Betinho veio do meu lado.
Ignorei.
— Tô falando contigo.
— Eu ouvi.
— Então responde.
— Não.
Ele soltou uma risada.
— Tá piorando.
Revirei os olhos.
Larissa apareceu segundos depois segurando uma bebida.
— Vocês são muito velhos.
— Tenho vinte e seis anos.
— Exatamente.
— Vai pra lá.
Ela mostrou a língua.
Dezoito anos e continuava agindo como criança às vezes.
Minha irmã se afastou para encontrar algumas amigas enquanto eu permanecia apoiado na grade do camarote.
Observando.
Sempre observando.
Era um hábito.
Uma necessidade.
No meu mundo, distração custava caro.
Muito caro.
Por isso eu prestava atenção em tudo.
Em todos.
Em cada detalhe.
Mas naquela noite...
Havia uma pessoa específica ocupando espaço demais na minha cabeça.
E eu odiava admitir isso.
As luzes diminuíram.
O som aumentou.
A movimentação da pista mudou.
E eu soube.
Ela estava entrando.
O público também percebeu.
Os gritos começaram quase imediatamente.
Celulares foram levantados.
Pessoas se aproximaram do palco.
E então ela apareceu.
Estefany.
Porra.
Mesmo preparado, eu fiquei olhando.
Cabelo loiro caindo pelos ombros.
Postura firme.
Segura.
Confiante.
Ela parecia pertencer àquele lugar.
Como se tivesse nascido para aquilo.
E talvez tivesse mesmo.
Pegou o microfone.
Cumprimentou o público.
Sorriu.
E a pista respondeu na mesma hora.
Era impressionante.
Ela não precisava pedir atenção.
Não precisava forçar presença.
As pessoas simplesmente olhavam.
Escutavam.
Seguiam.
Betinho percebeu meu silêncio.
Claro que percebeu.
— Tá ferrado.
— Cala a boca.
— Nem falei nada.
— Mas pensou.
— Pensei mesmo.
Ignorei.
Mas ele continuava rindo.
Desgraçado.
Voltei minha atenção para o palco.
A música começou.
A pista enlouqueceu.
E eu fiquei observando.
Não só ela.
Tudo.
O jeito que comandava o ambiente.
O jeito que interagia com o público.
O jeito que parecia completamente viva quando estava trabalhando.
Era diferente.
Muito diferente das mulheres que eu costumava conhecer.
Porque Estefany tinha ambição.
Objetivo.
Paixão pelo que fazia.
Dava para ver.
Dava para sentir.
Aquilo não era personagem.
Era real.
— Ela é boa mesmo.
Betinho comentou.
— É.
— Só isso?
— Só.
Ele riu.
— Tu tá apaixonado.
Olhei para ele.
Sério.
Muito sério.
— Quer morrer?
— Tá vendo?
— Bruno.
— Nadson.
Idiota.
Voltei para o palco.
Mas as palavras dele ficaram ali.
Incomodando.
Porque eu não estava apaixonado.
Não podia estar.
Não fazia sentido.
Eu m*l conhecia aquela mulher.
O problema era justamente esse.
Quanto mais eu repetia aquilo...
Menos convicto parecia.
As horas passaram rápido.
Música atrás de música.
A energia da casa só aumentava.
E eu continuava ali.
Observando.
Às vezes a pista.
Às vezes os camarotes.
Mas quase sempre ela.
E isso começou a me irritar.
Porque eu percebia outros homens olhando também.
Filmando.
Comentando.
Tentando chamar atenção.
E uma parte de mim não gostava nem um pouco disso.
Ridículo.
Completamente ridículo.
Ela não era minha.
Eu não tinha direito nenhum de me incomodar.
Mas mesmo assim me incomodava.
Muito.
— Tu tá encarando aquele cara faz cinco minutos.
Betinho comentou.
Olhei para ele.
— Qual cara?
— O que tá filmando ela.
Desviei o olhar imediatamente.
Filho da mãe.
Ele tinha percebido.
Claro que tinha.
— Tu tá imaginando coisa.
— Tô sim.
— Tá.
— Tô.
Os dois sabíamos que ele estava certo.
E isso me deixava ainda mais irritado.
Quando finalmente o show começou a terminar, percebi uma coisa.
Eu não queria ir embora.
Merda.
Mais uma coisa errada para a lista.
Ela agradeceu ao público.
Recebeu aplausos.
Sorriu.
E deixou o palco.
A pista continuou animada.
Mas alguma coisa mudou.
Pelo menos para mim.
Larissa reapareceu logo depois.
Animada como sempre.
— Ela foi incrível.
— Foi.
— Vocês viram?
— Todo mundo viu.
— Eu vou chamar ela aqui.
Quase engasguei.
Betinho virou o rosto para esconder o sorriso.
Traidor.
— Chamar quem?
Perguntei.
— A Stef.
— Pra quê?
— Porque ela é minha amiga.
Simples.
Natural.
Como se não estivesse prestes a complicar minha vida inteira.
Antes que eu pudesse responder, Larissa já tinha desaparecido novamente.
Eu fechei os olhos.
Respirei fundo.
— Fudeu.
Betinho gargalhou.
— Muito.
— Eu te odeio.
— Não mais do que eu tô gostando disso.
Cinco minutos depois elas apareceram.
E foi aí que eu percebi uma coisa.
Ver Estefany no palco era uma coisa.
Ver ela perto era outra completamente diferente.
Ela estava sorrindo.
Conversando com Larissa.
Relaxada.
Sem a postura profissional do palco.
Sem a distância.
Sem as luzes.
Só ela.
E isso era perigoso.
Muito perigoso.
— Gente, olha quem eu trouxe!
Larissa anunciou.
Meu Deus.
Eu merecia aquilo.
— Stef, esse é meu irmão chato.
Levantei o olhar.
E encontrei o dela.
Por um segundo o resto desapareceu.
A música.
As pessoas.
O camarote.
Tudo.
Só existia aquele olhar.
A lembrança do estacionamento.
Do beijo.
Da forma como ela tinha ficado sem reação depois.
Ela sorriu primeiro.
Pequeno.
Controlado.
Eu respondi com um sorriso de canto.
O máximo que podia fazer sem levantar suspeitas.
— Prazer.
Ela disse.
— O prazer é meu.
Mentira.
Nós dois sabíamos.
Mas Larissa não.
Graças a Deus.
— E esse é o Betinho.
Meu olhar foi para Bruno.
Ele estendeu a mão.
Estefany segurou.
E alguma coisa aconteceu.
Foi rápido.
Mas eu percebi.
Os dois também.
Aquele segundo estranho.
Aquela pausa.
Aquela sensação que nenhum deles entendia.
Franzi levemente a testa.
Estranho.
Muito estranho.
Mas antes que eu pudesse pensar mais sobre isso, Larissa já estava puxando Estefany novamente.
— Vem dançar.
— Larissa...
— Sem desculpa.
E lá foram elas.
Rindo.
Conversando.
Como amigas de anos.
Eu fiquei observando.
Em silêncio.
A bebida esquecida na mão.
Os pensamentos cada vez mais bagunçados.
Porque até aquele momento o problema era só meu.
Era eu tentando lidar com o que sentia.
Eu tentando entender aquela mulher.
Eu tentando decidir se devia me afastar.
Mas agora...
Agora ela estava ali.
Ao lado da minha irmã.
Rindo com ela.
Fazendo parte daquele ambiente.
Fazendo parte da minha vida de um jeito que eu nunca tinha planejado.
E isso mudava tudo.
Completamente tudo.
— Tá pensando demais.
Betinho falou ao meu lado.
— Talvez.
— Isso nunca termina bem.
Soltei um riso curto.
— Eu sei.
E sabia mesmo.
Porque quanto mais eu observava Estefany dançando ao lado da Larissa...
Mais uma certeza crescia dentro de mim.
Antes ela já era um problema.
Agora estava começando a virar parte da minha vida.
E eu tinha a sensação de que aquilo ainda estava muito longe de acabar.