O silêncio que se seguiu após o sussurro pareceu se alongar de uma forma quase insuportável, como se o próprio ar dentro da casa tivesse se tornado mais denso e pesado, pressionando os ouvidos e os pensamentos de Lívia e Daniel ao mesmo tempo. Nenhum dos dois se moveu imediatamente, pois havia algo naquele momento que parecia exigir cautela absoluta, como se qualquer gesto precipitado pudesse provocar uma reação invisível da própria casa.
Daniel apertou a lanterna com mais força, e o feixe de luz tremulou levemente enquanto ele tentava manter o controle da própria respiração.
— Você ouviu… — começou ele, a voz baixa, quase um sussurro.
— Ouvi — respondeu Lívia antes que ele pudesse terminar.
O sussurro havia sido claro demais para ser ignorado.
Alguém — ou algo — havia pronunciado seu nome.
Não fora o vento.
Não fora imaginação.
O corredor diante deles permanecia silencioso agora, mas a sensação de que estavam sendo observados continuava ali, tão forte que parecia quase física.
Lívia sentia isso na pele, na nuca, como uma presença invisível que se aproximava lentamente pelas sombras.
Daniel deu um passo cauteloso em direção à porta que havia se aberto sozinha.
A madeira ainda rangia suavemente, como se estivesse se movendo milímetro por milímetro mesmo sem que ninguém a tocasse.
— Talvez tenha sido alguém dentro da casa — murmurou ele, embora sua voz não demonstrasse muita convicção.
Lívia não respondeu.
Ela estava olhando para dentro do quarto.
A lanterna iluminou lentamente o interior do cômodo.
Era menor do que a sala anterior, mas ainda assim parecia grande demais para o espaço que a casa aparentava ter do lado de fora. As paredes eram revestidas por um papel antigo que havia desbotado com o tempo, revelando manchas escuras que se espalhavam como sombras congeladas.
No centro do quarto havia um único móvel.
Uma cama.
Pequena.
De ferro.
Coberta por um colchão antigo cuja superfície estava marcada por manchas que o tempo havia tornado impossíveis de identificar.
Daniel entrou primeiro.
O assoalho rangeu sob seus pés, emitindo um som seco que ecoou pelo quarto como um estalo dentro de uma caverna silenciosa.
Lívia o seguiu logo atrás.
O ar ali dentro era ainda mais frio.
Mais parado.
Como se aquele cômodo estivesse completamente isolado do resto da casa, preservado dentro de um silêncio que havia se acumulado durante décadas.
Daniel iluminou as paredes.
Quadros.
Havia vários quadros pendurados ali.
Fotografias antigas.
Lívia aproximou-se lentamente.
A poeira cobria os vidros das molduras, mas ainda era possível ver os rostos.
Uma família.
Homem.
Mulher.
Duas crianças.
As roupas eram claramente de outra época, elegantes e formais, como aquelas usadas em retratos antigos do início do século passado.
— A família Montenegro — murmurou Daniel.
Lívia aproximou o rosto de uma das fotografias.
As duas crianças estavam lado a lado.
Uma menina e um menino.
Os olhos deles pareciam seguir quem olhasse para a foto, algo comum em retratos antigos, mas que naquele momento causava uma sensação desconfortável.
Ela estava prestes a comentar isso quando algo chamou sua atenção.
Havia um quadro diferente.
Uma moldura maior.
Ela limpou parte da poeira com a mão.
Era uma fotografia da casa.
A mesma casa onde eles estavam agora.
Mas a imagem parecia… errada.
A casa na fotografia parecia nova, perfeitamente conservada, e os jardins ao redor estavam cheios de flores e árvores bem cuidadas. A varanda onde eles haviam passado poucos minutos antes parecia intacta, sem rachaduras ou tábuas quebradas.
Mas havia algo mais.
Uma figura.
Uma sombra.
Lá no fundo da varanda da fotografia.
Uma silhueta indistinta parada perto da porta.
Lívia franziu a testa.
— Daniel…
Ele se aproximou.
— O que foi?
Ela apontou para a imagem.
— Aquilo estava ali antes?
Daniel estreitou os olhos.
A lanterna iluminou a fotografia.
Por um momento ele não disse nada.
— Não sei — respondeu finalmente.
Mas havia algo no tom de sua voz que denunciava a mesma inquietação que Lívia estava sentindo.
O silêncio voltou a dominar o quarto.
Então…
TOC.
Os dois se viraram ao mesmo tempo.
O som havia vindo do corredor.
Um estalo seco.
Como se alguém tivesse pisado em uma tábua solta do assoalho.
Daniel levantou a lanterna rapidamente e apontou para a porta.
— Tem alguém aqui — disse ele.
Eles saíram do quarto.
O corredor parecia ainda mais escuro agora.
Mais longo.
Mais profundo.
Lívia teve a sensação de que o teto estava ligeiramente mais alto do que antes, e as paredes pareciam se estender para longe de uma forma que não fazia sentido.
Daniel avançou alguns passos.
— Alguém aí? — chamou ele.
Nenhuma resposta.
Apenas o eco distante de sua própria voz.
E então…
O sussurro voltou.
Mas desta vez não era apenas um murmúrio indistinto.
Parecia mais próximo.
Mais claro.
Mais… consciente.
Várias vozes.
Falando ao mesmo tempo.
Palavras que se misturavam umas às outras.
Daniel girou a lanterna de um lado para o outro, tentando encontrar a origem do som.
O feixe de luz atravessou as paredes, as portas fechadas, o chão coberto de poeira.
Nada.
Mas o sussurro estava ali.
E estava se aproximando.
Lívia sentiu um frio intenso subir pela espinha.
Era como se as próprias paredes estivessem falando.
Como se o som estivesse vindo de todos os lugares ao mesmo tempo.
Então, de repente, uma das portas do corredor bateu.
BAM.
O som ecoou pela casa inteira.
Daniel girou a lanterna na direção da porta.
Ela estava fechada.
Mas…
Lentamente.
Muito lentamente.
A maçaneta começou a girar sozinha.
Os dois ficaram imóveis.
O metal produziu um pequeno clique.
E a porta começou a se abrir.
Centímetro por centímetro.
A escuridão dentro do cômodo parecia mais profunda do que o resto da casa.
E enquanto a porta se abria completamente, os sussurros cessaram de repente.
Silêncio absoluto.
Lívia sentiu o coração bater tão forte que parecia ecoar em seus ouvidos.
Então algo se moveu lá dentro.
Uma sombra.
Alta.
Imóvel.
Parada no fundo do quarto.
Daniel deu um passo para trás.
A lanterna tremia levemente em sua mão.
— Lívia… — murmurou ele.
Mas antes que qualquer um dos dois pudesse reagir…
A luz da lanterna piscou.
Uma vez.
Duas vezes.
E então…
Apagou.
A escuridão engoliu completamente o corredor.
E dentro daquela escuridão profunda, onde nem mesmo as paredes podiam mais ser vistas…
Algo começou a se mover.