Alexia
O vazio que sentia era enorme. Eu estava tentando amenizar a minha dor com trabalho e com as minhas duas princesas que tinha em casa. Fiquei perdida quando Matt morreu. Desolada sem saber com duas bebês para criar.
Eu tinha uma vida feliz ao lado dele, apesar de senti-lo triste pelo seu problema, nós éramos felizes. Mais de três anos desse vazio, e ele não pôde conhecer nossas meninas que estão com um ano e quatro meses. Lutamos muito para tê-las, porém a adoção foi concretizada tarde demais para Matt, pois o mesmo não estava mais vivo quando essa adoção foi aprovada.
No começo eu não sabia o que fazer. Não queria desistir da adoção, mas estava desolada ainda com a morte do meu marido. Tinha medo de não conseguir criar minhas meninas sozinhas, tinha medo que o sentimento de perda ainda afligisse meu coração e eu não pudesse passar para elas a segurança que tanto precisava. Porém resolvi seguir em frente, e hoje estou mais que bem com meus dois anjinhos. Minhas duas vidas e faria qualquer coisa por elas.
Sou médica neurologista no hospital de Dubai. Antes trabalhava como residente na Rússia e foi lá que Matt morreu de uma doença grave que descobrimos tarde demais.
Eu como médica me sentir impotente por não salvar o meu próprio marido. Pensei em até desistir da minha profissão devido a isso, pensei que eu não servia para esse ramo mais, porém ergui minha cabeça e segui em frente. Matt não tinha jeito, nem se eu pudesse fazer algo por ele. Sua doença já tinha acabado com seus órgãos e tudo foi questão de esperar.
Assim que Matt morreu, tratei de vir para Dubai, convidada por um amigo para começar a trabalhar em sua equipe no hospital de Dubai, tem pouco exato três anos que trabalho aqui.
Fui designada para cuidar de um homem que sofreu um atentado em Londres, na verdade foi designada uma equipe médica composta por três médicos, sendo dois clínicos e eu neurologista, pois ele entrou em coma desde de Londres.
Como sou bem comunicativa, sempre que estava com ele tratava de conversar com o mesmo. Eu como neurologista, sei que uma pessoa em coma costuma escuta tudo que a gente fala, pode só não processar da mesma forma que uma pessoa acordada.
Não sabia muito dele, a não ser o nome, mas pelos traços do seu rosto, ele é um homem muito bonito, bem cuidado, por mais que esteja no hospital, tenho certeza que teve berço de ouro.
Trabalho no hospital um dia sim e outro não. Tenho consultório particular em Dubai, onde atendo somente na parte da manhã e o resto do dia fico com as minhas pequenas.
Elas precisam demais de mim, e se eu ficasse no hospital cumprindo a escala de trabalho, e não teria tempo para elas, então prefiro assim. Acabo com mais um dia no hospital depois de passar para ver meu paciente bonito.
A mente não tem explicação para ter entrado em coma. No começo resolvi deixar ele em coma por 72hs, mas depois não tínhamos mais porque fazê—lo, e acabamos tirando e torcendo para que ele voltasse, porém nesses três anos nada aconteceu. Ele não reagiu e sua família tem vindo constantemente para saber como ele está.
Espero realmente que ele volte para a vida, até mesmo para acalmar sua família.
Chego no meu apto e já dou de cara com meus dois amores assim que abro a porta. Elas estão tão lindas.
— Ei meus amores. Mamãe chegou. Digo e elas já vem correndo, quase caindo com essas perninhas gordinhas fofas.
— Mama. Sophia fala com seu jeito meigo.
— Oi, meu amor. Sentiu saudades da mamãe? Mamãe estava morrendo de saudades das duas princesas dela. Falo pegando as duas no colo e beijando cada uma. Elas morrem de rir.
— Gaga neca Soso. Amber diz toda agitada.
— A Gaga pegou a boneca da Soso? Mas onde estava boneca da Soso? Peço sentando com as duas no sofá. Elas estão bem pesadas.
— No Tato. Soso solou uito.
— Estava no quarto e a Soso chorou muito? Mas agora está tudo bem Soso? Sophia mostra seus poucos dentes sorrindo e escondendo seu rostinho em meu peito.
— Alexia. Boa noite. Gabriela me comprometa sorrindo.
— Oi, Gabi. Tudo bem por aqui hoje? Indago para Gabriela que trabalha comigo desde que mudei para cá.
— Sim. As duas bagunceiras não deram trabalho em nada.
— Imagino. Elas estão tão espertas que acho que não falta mais nada. Se você quiser pode ir, que agora é comigo.
— Obrigada! Até amanhã.
— Eu que te agradeço. Até amanhã. Vamos dar tchau para a Gaga? Tete Gaga. Falo balançando as mãos das meninas para dar tchau.
— Tete meus amores. Amanhã Gaga estará de volta. Gabriela beija cada uma e depois vai embora.
— Então meus amores. Agora é só nós três. O que vamos fazer?
— Neca. Amber grita. Ela é mais agitada que Sophia.
— Vamos brincar de boneca. Tudo bem Soso? Sophia balança a cabeça.
Como todos os dias que chego do hospital ou do consultório, eu acabo sentando com elas e brincando. É um momento só nosso, já que na minha profissão eu não tenho tanto tempo para dedicar a elas. E o pouco que tenho prefiro me dedicar a elas.
Brincamos de boneca na maioria das vezes. Elas adoram, e acabo remetendo a minha infância. E também lembrando que como foi difícil realizar a adoção delas sem Matt.
Quando ele ainda estava vivo demos entrada no processo de adoção. Queríamos um bebê, e não encontrávamos. Andamos para lá e pra cá na Rússia para encontrar, porém nada. Só encontrávamos crianças mais velhas. E não queríamos.
Matt queria se sentir pai desde o começo. Queria ver como é ter um bebê em seus braços. E eu não me opus. Queria vê-lo feliz e faria tudo para que pudéssemos realizar o sonho de sermos pais. Porém a doença veio primeiro e Matt não pode realizar esse sonho comigo.
Ele morreu e o processo continuou e mesmo desolada depois de dois anos, um lar aditivo entrou em contato comigo dizendo que tinha um bebê para eu realizar a adoção. Não sabia se ainda estava dentro dos critérios para ainda realizar a adoção, mas fui.
Chegando lá tive a surpresa de ser essas duas pessoinhas com dois meses. Me disseram que a mãe havia morrido no parto e que elas não tinham nenhum parente vivo, que uma vizinha havia entregado as mesmas para adoção. Fiquei encantada de cara, e claro que não iria separar as duas.
Fiz o possível e o impossível para tê-las comigo. Mesmo que Matt não tivesse mais entre nós, eu seria a mãe e o pai delas. Tive que fazer todo processo novamente, pois como tinha dado entrada como casal, agora eu seria uma viúva, novamente solteira depois de anos.
Claro que não foi nada fácil adotá-las, mas enfim conseguir e hoje são as minhas realizações. Não peço mais nada para mim, só para elas. Elas merecem serem felizes e amadas sempre.
Estão já tombadas de sono no tapete. Pego cada uma e levo para o quarto delas que mandei fazer com tanto carinho. Dou um beijo em cada uma delas e deixo somente a luz do abajur acesa. Saio do quarto e volto para sala e junto todos os brinquedos.
Tomo e banho e como um sanduíche. Depois cama, porque amanhã tenho que está no consultório as oito da manhã.
Minha manhã no consultório foi cansativa.
Vários pacientes com problemas neurológicos, alguns mais graves que tive que mandar para o hospital e outros mais simples, que resolvi ali no consultório mesmo.
Voltei para casa a uma da tarde foi só alegria com aquelas duas bagunceiras e falantes. Elas eram iguais a papagaios falantes. Meu Deus, onde tinham tanta energia. Fomos dormir esgotadas.
Hoje era meu dia de dar plantão no hospital até tarde.
Cheguei cedo e já fui fazer a minha ronda do dia.
— Bom dia, Alexia! Willian me cumprimenta chegando perto de mim.
— Bom dia, Will! Essa semana nossos plantões são juntos? Indago. Eu e ele começamos a trabalhar juntos no hospital. Gosto muito dele, como um irmão que não tenho.
— Achei ótimo. Assim podemos fazer tudo juntos. Você sabe que amo sua companhia. Ele pisca para mim.
— Eu também. Agora deixa eu ir, porque tenho vários pacientes para olhar hoje, fora que mais tarde estou na emergência.
— Que pena. Eu estou light hoje, mas se tiver um tempinho me manda mensagem para gente tomar um café ou até almoçarmos juntos.
— Pode deixar. Até mais. Falo e mando um beijo para ele.
Olho todos os pacientes do hospital e depois vou para área afastada. O quarto do meu paciente bonito fica afastado e ainda com segurança na porta. Eu não sei o que houve com ele, mas a família pediu para todos da equipe médica não divulgar nada. Nenhuma foto dele.
Como não cabia a mim saber o motivo, só me preocupei e me preocupo com a saúde dele.
Entro no quarto e vejo que ele está acordado. Fico muito feliz com isso. Me vejo sorrindo nem sei o porquê.
Seus pais estão com ele que parecem triste. Deveriam estar felizes. Não era garantia nenhuma que ele recuperasse, talvez pudesse ficar nesse coma durante anos, e vê-lo assim, é um milagre.
— Bom dia, meu paciente bonito! Ele me olha em desespero. Não entendo o motivo e chego mais perto dele.
— A. L.E.X.I. A. Soletra meu nome com uma dificuldade enorme e também uma angústia. O que houve aqui com ele?
— O que foi? Porque ele está assim? Peço pegando a mão dele. Seus olhos estão vidrados em mim. Vejo um desespero e um nervosismo neles.
— Ele acha que tem uma vida, sendo que tem outra. Franzo a testa.
— Ele perdeu a memória? Desde quando ele está acordado? Vou para beirada da cama e pego a prancheta. Olho que foi feito exames e nada foi constatado.
— V. O. C. Ê É M. I. N. H. A E. S. P. O. S. A. Olho para ele em choque. O que não entendo é, onde ele tirou que sou esposa dele.
— Do que você está falando? Indago intrigada.
— Ele acha que você é esposa dele e tem três filhos juntos. Onde ele tirou isso?
— Não. Que confusão é essa? Olho para ele que deixa uma lágrima cair dos seus olhos. Meu Deus, o que houve com a mente dele?
— F. O. M. O. S. F. E. L. I. Z. E. S. T. E. M. O. S. U. M. A. F. A. M. I. L. I. A. Me sinto impotente, m*l por ele pensar. Ele está chorando e não gosto de vê-lo dessa forma. Respiro fundo, eu tenho que deixá-lo calmo, tranquilo.
— Sr Coleman, fique calmo. Toma essa água. Entrego um copo de água que acabei de pegar para ele. Ele não tira seus olhos de mim e eu não sei como vou contornar essa situação, a não ser que chame Will. Sim. Will como psicólogo pode me ajudar com ele. Pego meu celular, e mando uma mensagem para ele vir até o quarto do Sr Coleman.
— Porque ele está com essa visão? Porque ele acha que é casado com você? Vocês não se conheciam, nunca se falaram. Então não vejo o motivo dele achar que vocês dois tenham algo. O pai dele questiona meio irritado. Só quero saber o motivo da irritação dele.
— Primeiro Sr Coleman, não venha jogar a responsabilidade em cima de mim. Eu não disse ao seu filho que é meu paciente, que somos casados em momento algum, então fique calmo. Já chamei um psicólogo para nos orientar quanto a essa parte da mente dele.
— Dra, você acha que ele precise de um psicólogo tão cedo? Ele acabou de acordar, deve estar confuso. Podemos esperar mais uns dias para isso não? A mãe dele pede.
— Dra Leah, a Sra é médica, e sabe muito bem que nestes casos quanto mais rápido ele tiver acompanhamento de um psicólogo e melhor. Ele não perdeu só a memória, ele acredita em uma vida que ele não teve. Ainda pior, comigo, que como seu marido disse não o conhecia, nunca o vi antes de começar o tratamento dele aqui.
— N. Ã. O. Ele grita chorando. Nunca tinha visto uma situação dessa. Ouço batida na porta e Will entra.
— Filho, calma. Leah abraça o filho.
— O que está havendo? Will questiona.
— Ele perdeu a memória e acha que tem uma vida diferente. Will franze a testa. Não me olhe assim, o psicólogo aqui é você.
— É, mas tem coisas da mente que são inexplicáveis, nem um médico especialista pode explicar.
— Você está querendo dizer que não pode dar uma luz na mente dele?
— Vou avaliá-lo primeiro. Depois dou o diagnóstico.
— Dra Alexia, acho melhor não fazermos nada com ele neste momento. Ele está nervoso. O pai dele pede eu concordo. Ele realmente está muito alterado.
— Vamos sair para deixá-lo se tranquilizar. Informo.
— Peço a vocês que não toquem em assunto nenhum. Nem antes da perda de memória. Will pede e todos assentem. Saímos do quarto Will e eu. Me conte o que ele pensa.
— Não lembra da vida dele e acha que nós dois somos casados e temos filhos. Digo e Will me olha em choque.
— Porque ele pensa isso? Olho para ele.
— Não sei, Will. Gostaria que você me desse respostas.
— Vou consultar uns livros para ter uma ideia, mas não sei te dar um diagnóstico agora.
— Ótimo. Faça isso, porque ele vai precisar muito de você. Agora deixa eu trabalhar mais um pouco.
Vou para emergência e não tem nada de novo para olhar, então resolvo ligar para casa e ver como está as minhas pequenas. Gabi me diz que elas não param de correr, e acho que tenho que providenciar uma casa logo. Elas precisam de um ambiente maior.
Volto ao meu trabalho e a emergência foi bem movimentada na parte da tarde.
Eu estava cansada e não via hora de ir embora. Mas antes de ir resolvi ver como o Sr Coleman estava. Entrei em seu quarto e ele estava triste deitado. Olhando para o nada. Queria muito não vê-lo assim.
— Como se sente? Ele me olha e não tem nada em seus olhos que não seja tristeza. Pega um papel e caneta.
" Me diz que não é verdade. Me diz que temos uma vida juntos, que temos três filhos juntos. Eu não posso ter imaginado uma vida com você sem te conhecer. Essa visão não apareceu do nada em minha mente". Leio assim que ele me entrega o papel.
— Não é verdade nada que você imagina. Eu sinto muito por isso que você está passando. Sei que está confuso, sei que você pode ter criado uma vida longe do que você vivia, mas eu não estou na sua vida. Nunca estive. Vejo lágrimas começarem a sair dos seus olhos. Não fica assim. Vamos encontrar uma solução para essa confusão que você está. Ele pega outro papel. Fico esperando até ele terminar de escrever. Ele me entrega o papel.
" Uma solução para minha confusão é me colocar em coma de novo para que eu possa voltar a ser feliz. Eu fui feliz com você e nossos filhos. Fui feliz por três anos com você. Namoramos, casamos e tivemos três filhos lindos. Isso para mim foi real e não uma confusão".
— Eu não sei como você pode ter criado isso em sua mente. E também não sei como era sua vida antes do acidente, mas meu amigo Will vai tentar entender e trazer uma resposta plausível para que você possa seguir em frente. Ele volta a escrever.
" Eu não vou conseguir seguir em frente sabendo que fui feliz com uma mulher e com filhos que foram tirados de mim somente por eu acordar. Essa realidade para você pode não ter sentido algum, mas para mim tem, o que não tem sentido para mim é vocês quererem me convencer do contrário. Eu espero mesmo que seu amigo descubra o motivo disso tudo e que me traga o que eu perdi. E não quero a vida antes do acidente que nem sei como era, mas sim você e nossos filhos". Leio e fico espantada. Como vou fazer para ele entender que não temos nada. Nunca tivemos.
Esperarei Will ter uma noção do que aconteceu para ele ficar assim. Não pode ser que isso dure para sempre. Tem que ter uma explicação clara para que ele pense que fomos marido e mulher.
— Eu vou deixar você descansar. Espero que esteja melhor amanhã. Não fique pensando tanto nisso, uma hora sua memória pode voltar e você vai esquecer tudo que sua mente criou. Digo. E ele pega o papel e caneta mais uma vez. Espero e não demora para ele me entregar.
" Eu não quero outra vida a não ser a que tive com você. Eu não posso e nem quero esquecer cada momento que vivemos. Como disse antes. Foram três anos maravilhosos com você e nossos filhos. Eu vi você grávida e não quero apagar esse momento, eu vi todos os seus sorrisos ao acordar e ao dormir e não quero apagar isso. Eu vi sua dor de não poder ter filhos, e sofri junto. Nada que você disser vai apagar isso da minha mente, sabe porquê? Porque diante de tantos problemas que vivemos, nossa felicidade foi maior. Nosso amor foi maior". Eu não tenho resposta para isso. Eu não sei como ele vai esquecer isso, e também reagir a vida que ele realmente tem.
— Boa noite! Espero que você esteja melhor amanhã. Digo e saio. Eu estou chocada. Cada palavra escrita ali me deixou sem reação. Nunca esperei que um paciente reagisse dessa forma ao acordar de um coma. Nunca ouvi dizer que a mente cria uma vida diferente da que ele tinha. Perda de memória é normal em muitos casos, mas perda de memória e ter uma vida alternativa que ele não viveu, nunca vi isso. Espero que Will o ajude mesmo com isso. Ele vai precisar.