Decisão

1121 Words
Olívia saiu do prédio batendo os pés no chão, cada passo ecoando sua indignação. Sua mente fervilhava com as palavras de Vicente. Ele era um homem ousado, confiante, e sua proposta não era apenas absurda — era ultrajante. — Aquele homem perdeu completamente o juízo — murmurou para si mesma, apertando a bolsa contra o corpo enquanto atravessava a rua com passos rápidos. O calor do dia começava a ceder, mas seu rosto ainda estava quente, não pela temperatura, mas pela raiva. Depois de caminhar por alguns quarteirões, Olívia parou em frente a uma pequena lanchonete de esquina. As luzes amarelas iluminavam o ambiente simples, e o cheiro de fritura invadia suas narinas. — É disso que eu preciso — disse baixinho, quase como uma desculpa para si mesma. Ela entrou no lugar, sentou-se em um dos bancos altos junto ao balcão e pediu sem hesitar: — Um hambúrguer duplo com tudo e um refrigerante grande, por favor. O atendente assentiu, anotando o pedido. Enquanto esperava, Olívia tamborilava os dedos na mesa, ainda processando a conversa com Vicente. — Um contrato de um ano... — murmurou, lembrando-se das palavras dele. Por mais que quisesse ignorar, sua mente insistia em analisar a proposta. Era loucura, sim, mas ele sabia exatamente como apresentar a ideia de forma tentadora. O alívio financeiro para a empresa, a chance de salvar o legado da família... Tudo parecia tão simples quando ele falava, mas, para Olívia, aquilo era um labirinto moral. O prato foi colocado à sua frente, e o aroma do hambúrguer ajudou a desviar sua atenção. Ela deu uma mordida generosa, o sabor salgado e suculento acalmando um pouco sua tensão. Era um hábito antigo. Sempre que estava estressada ou sobrecarregada, comida era sua válvula de escape. — Aqui está a sua conta — disse o atendente, colocando o papelzinho ao lado dela. Olívia pegou a conta, notando como até mesmo uma refeição simples parecia mais cara agora. Sua mente voltou imediatamente às dívidas da empresa, aos gastos descontrolados da família e à sensação sufocante de estar à beira do abismo. Enquanto tomava um gole do refrigerante, pensou em como seria fácil simplesmente aceitar a proposta de Vicente. Ele resolveria tudo. Mas, ao mesmo tempo, seria como vender sua liberdade, sua dignidade. Ela suspirou, sentindo o peso das escolhas que precisava fazer. O mundo parecia mais caótico a cada dia, e, naquele momento, a única coisa que podia controlar era o hambúrguer à sua frente. Quando terminou, deixou o pagamento no balcão e saiu da lanchonete. O vento fresco da rua bateu em seu rosto, trazendo um alívio momentâneo. Mas as palavras de Vicente continuavam ecoando em sua mente, como uma sombra que ela não conseguia afastar. Olívia sabia que, por mais que quisesse ignorar, teria que tomar uma decisão em breve. Depois de um longo banho, Olívia enrolou-se no roupão e deixou-se cair na cama. A água quente havia ajudado a aliviar parte da tensão em seu corpo, mas sua mente continuava um turbilhão. Vicente Falcão. A proposta absurda. As dívidas que a sufocavam. Era demais para processar. Ela pegou o celular sobre o criado-mudo, hesitando por um momento antes de abrir a lista de contatos. Seus dedos pararam sobre o nome de Sávio. Ele era uma das poucas pessoas em quem confiava o suficiente para desabafar, e, mais importante, ele trabalhava no Grupo Falcão. Talvez pudesse ajudá-la a entender melhor o que estava acontecendo. Após um momento de hesitação, pressionou o botão de chamada. O telefone tocou algumas vezes antes de ele atender. — Olívia? — A voz de Sávio era descontraída, mas carregava um tom de surpresa. — Que honra receber sua ligação. Aconteceu alguma coisa? Ela respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. — Sávio, eu preciso de um conselho... ou talvez só de alguém para me ouvir. Você tem tempo? — Claro, sempre tenho tempo para você. Quer que a gente se encontre ou prefere falar por telefone? — Pode ser por telefone mesmo. — Certo. Estou todo ouvidos. Olívia fechou os olhos, tentando controlar o tremor em sua voz. — Hoje à tarde eu tive uma reunião com Vicente Falcão. Ele... Ele fez uma proposta completamente absurda, Sávio. Do outro lado da linha, Sávio ficou em silêncio por um momento, mas Olívia podia ouvir sua respiração. — Proposta? Que tipo de proposta? Ela suspirou, levantando-se da cama para andar pelo quarto. — Ele quer que eu me case com ele. Um contrato de um ano. Ele diz que isso resolveria meus problemas financeiros e ajudaria com os dele também. — Uau. — Sávio soltou uma risada baixa, mas não parecia debochado, e sim incrédulo. — Ele foi direto assim? — Direto, objetivo e com um sorriso que me irritou profundamente. — E o que você respondeu? — Claro que recusei! Saí de lá revoltada. Mas agora... — Ela parou, olhando pela janela. — Agora estou aqui pensando. Ele está oferecendo uma solução que eu não consigo encontrar de outra forma. — Olívia, você sabe que esse tipo de acordo não é incomum no mundo dos negócios, certo? Casamentos por conveniência são quase tradições em famílias como a dele. — Isso não torna a situação menos absurda. — Ela bufou, cruzando os braços. — Não, não torna. Mas, pensando friamente, talvez não seja tão r**m quanto parece. Vicente não é um homem de joguinhos. Se ele fez essa proposta, ele deve ter uma boa razão. — E você acha que eu deveria aceitar? — A voz de Olívia soou mais afiada do que ela pretendia. — Eu não estou dizendo isso, Olívia. Só acho que você precisa pensar com calma antes de descartar completamente a ideia. Ela apertou os olhos, sentindo a frustração crescer. — Eu não sei, Sávio. Tudo isso é tão insano. — Olha, eu conheço o Vicente há anos. Ele não é do tipo que age sem pensar. Se ele escolheu você, é porque viu algo em você que acredita ser a melhor opção. Olívia não respondeu de imediato. Em vez disso, sentou-se novamente na cama, sentindo o peso das palavras de Sávio. — Eu só queria uma vida normal, Sávio. Queria poder resolver tudo isso sem precisar me envolver em algo assim. — E talvez você ainda consiga. Mas, se decidir ouvir Vicente de novo, certifique-se de que todas as cartas estejam na mesa. Negocie. Faça valer a pena para você também. Ela suspirou, agradecendo silenciosamente por Sávio ser tão racional. — Obrigada por me ouvir. — Sempre, Olívia. E, se precisar, sabe onde me encontrar. Quando a ligação terminou, Olívia deixou o celular de lado e deitou-se na cama novamente, encarando o teto. As palavras de Sávio ecoavam em sua mente, misturando-se à proposta de Vicente.
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