Abel ainda dormia todo torto ao meu lado, com o pézinho por cima da minha perna, a boca entreaberta, respirando fundo. Sorri sem querer. Aquela era minha paz. Levantei devagar, tentando não acordar ele, e fui direto abrir as janelas pra dar uma arejada na casinha. Pequena, sim. Mas era nossa. Liguei o rádio velho na cozinha, deixei no forró baixinho, daqueles que lembrava minha vó varrendo o terreiro lá na Bahia. Peguei a vassoura e comecei: varri o chão, limpei os cantinhos, sacudi os tapetes no varal improvisado. A gente não tinha muito, mas a limpeza era sagrada. Era o que me fazia sentir no controle. Lavei os pratos da noite anterior, deixei o feijão no fogo baixinho. Abel acordou quando eu tava terminando de passar um pano na sala. Veio meio zonzo, cabelo arrepiado, chupando o dedo

