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3120 Words
GIOVANNA NARRANDO Estou tremendo e com medo. Estou ao lado de um homem que desconheço e ele está me levando para um quarto longe dos olhos das outras pessoas. Isso me assusta, obviamente. Eu tenho um passado difícil, não é moleza confiar em quem quer que seja. — Se você precisar de alguma coisa, por favor, vá no meu quarto e peça. Não vá embora daqui antes de falar comigo. — Ele me pediu com educação e saiu. Na manhã seguinte, eu acordei como de costume e não havia ninguém acordado, mas levei um grande susto ao olhar no relógio: Eram sete da manhã. Eu tenho que acordar antes das seis e fazer as coisas... Deixar tudo pronto. Quer dizer, eu tinha que fazer isso... Como será que as coisas funcionam aqui? Eu estava parada no meio da sala, sem saber o que fazer, quando aquele homem chegou na sala com cara de sono, vestindo apenas um short. Ele é alto, talvez mais de um e noventa de altura. Todo tatuado, forte, tem cara de malvadão e cabelo raspado nas laterais. Tremi na base ao perceber que ele podia me quebrar na porrada muito mais fácil que o Joel. — Por que tá me olhando assim, com essa cara de assustada? — Murilo perguntou. — Desculpa. — Abaixei a cabeça, evitando olhá-lo. — Véi, eu preciso entender um pouco de onde caralhos você veio e como é que uma moça bonita como você é tão insegura. Vamos aproveitar que a praga da minha irmã tá dormindo, assim a gente consegue conversar direito. — Tá... — Ele começou a andar até a cozinha e eu fui atrás. — Quer que eu prepare seu café da manhã? — Não precisa, eu faço. Senta aí. — Ele apontou para uma banqueta em frente a um balcão e eu sentei, obediente. — Gosta de ovos? — Vai fazer café pra mim, também? — Ele concordou. — É claro. Gosta ou não? — Gosto. — Acho que nunca, na minha vida, alguém fez café da manhã pra mim. Enquanto Murilo cozinhava, eu o observava. Logo ele começou a me fazer perguntas. — Bom, me fala... De onde você é? Quem é você, Giovanna, e o que caralhos você tá fazendo no meu morro? — Questionou. — Eu sou uruguaia. Acho que você deve ter notado meu sotaque... — Ele concordou com a cabeça. — Eu... Ah, minha história é meio longa e complicada. Tem certeza que quer saber? — Quero, claro que quero. Você está na minha casa, eu te socorri, acho que o mínimo é eu saber de onde você brotou, guria. — Eu concordei com a cabeça. — Ok, bom... Meus pais me entregaram para uma família que tinha um pouco mais de dinheiro para eu ser empregada, sabe? A promessa era eles me darem uma vida com alimentação e educação enquanto eu fazia as tarefas de casa, mas não foi assim. Eu não tenho estudo, virei uma ninguém. Servia todos daquela casa, cozinhava, alimentava... Até que os abusos do Joel começaram. Ele começou a fazer coisas inapropriadas comigo e aí... Eu engravidei. E ele decidiu que eu não servia pra mais nada. — Finalizei. Limpei meus olhos e neguei com a cabeça. — Tenho medo que ele me pegue de volta. — Quantos anos você tem? — Ele questionou. — Dezoito. — E já passou por tudo isso, Giovanna? — Suspirei de forma pesada. Concordei com a cabeça e ele parecia incomodado. — Se você soubesse como eu odeio esse tipo de coisa... — Deixa pra lá. O ódio só faz m*l pra nós mesmos. — Ele ergueu as sobrancelhas e me olhou, indignado. — Você passa por tudo isso e ainda diz que o ódio só faz m*l para nós? Não tem vontade de se vingar, Giovanna? Se eu fosse você, iria querer ver os pedaços desse tal de Joel espalhados um em cada canto. — Olha... — Eu suspirei. Ele colocou um prato na minha frente, com ovos mexidos e um pãozinho. Também colocou um copo de suco de laranja, e eu agradeci a Deus mentalmente por aquilo. — Eu só quero paz. E paz significa estar longe dele. Montei meu pão, e comecei a comer de forma vagarosa. Fazia tanto tempo que não comia algo tão gostoso assim! Eu tomei o suco, me deliciando com cada pedacinho do pão e com os goles de suco. Ele me olhava com atenção. — Tava com fome? — Questionou. — Aham. E você está me olhando como se eu fosse uma esquisita. — Ele olhou pra baixo e deu risada de si mesmo. — Estou só tentando entender quem é você. Eu sou muito observador, acostume-se. Murilo tem um sorriso lindo. — Coiote, tem uma mina querendo falar com você aqui na porta, mano. — Um rapaz bonito entrou pela porta com certa pressa e falou. — Ah, desculpa, não sabia que estava acompanhado. — Relaxa, Sorriso. É só uma amiga. — Eu acenei. — Ah, amiga? Se tu não tiver ciúme, assim, me apresenta. — Sorriso falou. Entendi porque seu apelido é sorriso: O sorriso desse homem é perfeito. — Se manca, c*****o, não é hora pra isso não. Te explico depois. Quem é a guria enchendo o saco lá embaixo? — Questionou. — Adivinha? — Isabella, é claro. Haja paciência. Ah, quer saber, resolve essa parada aí, Sorriso. Quero falar com a Isabella não, eu tô sem paciência. — Ele disse. — Fala que eu tô dormindo, sei lá. — Tu que sabe, irmão. Quer que eu fale isso mesmo? — Por favor. — Ele suspirou de forma pesada. Sorriso saiu e acenou para mim. Eu acenei de volta. Voltei a comer de forma tranquila e me senti tão, tão bem! Acho que é a primeira vez que eu me sinto realmente bem em anos! — Sobre o bebê... Você sabe que o perdeu, não sabe? — Ele falou. Meu coração doeu um pouco, mas concordei. — Sei, sei sim. Estou triste pelo bebê, ele não tinha culpa de nada. — Falei. Ele concordou com a cabeça. — Que bom que pensa assim. — Ele ficou em silêncio por alguns instantes. Parecia ter lembrado de algo que não queria. — Bom, eu tô cheio de coisa pra fazer, você acorda minha irmã umas nove, por favor? Essa filha da p**a não fez o dever, precisa fazer. — Eu concordei com a cabeça. — Sim, precisa de mais alguma coisa, senhor? — Eu falei, sério. Ele virou pra mim, como se tivesse indignado. — Eu não sou seu dono não pra me chamar de senhor, guria. Pelo amor de Deus, hein. Tu trabalha pra mim agora, só isso. E se quiser arrumar outro emprego e ir embora, tá livre. — Disse. — Não, eu não quis ofender, eu... — Ele respirou fundo. — Guria, relaxa. Sei que veio de um lugar r**m onde as pessoas te tratavam mal... Mas eu não sou assim. As coisas nunca mais serão assim, se depender de mim. Você é bem-vinda aqui e continuará sendo, contanto que não faça nenhuma merda. — Eu concordei com a cabeça. — Não se preocupe demais, sei que você tá assustada, mas... — Ele se aproximou de mim. Abaixei a cabeça imediatamente. — Olhe pra mim. — Disse, levando a mão até meu rosto. Levantou meu rosto pelo queixo e me fez olhá-lo nos olhos. — Desculpa. — Cara, você é muito arisca e assustada. Vou ter que te adestrar. — Brincou e riu. — Agora é sério, olhe pra mim. Está tudo bem, Giovanna. Você está segura aqui. Você pode comer o que quiser, pode conversar, pode sair pra dar uma volta... Você é livre. Só peço que não traga ninguém aqui dentro da minha casa sem minha autorização, tudo bem? — Tá. Obrigada por ser gentil comigo. — Falei e ele tirou a mão do meu queixo. Sorriu de volta, e eu senti algo queimar dentro de mim. Não gostei de sentir aquilo. Nunca senti por ninguém. Talvez eu esteja confusa por ele ser meu protetor, não sei. Mas... Eu já assisti um ou dois filmes de romance, e eles falam sobre essa sensação. As bochechas queimam, o coração bate mais rápido. O cheio da pessoa parece o melhor do mundo... Eu não posso me apaixonar por ele, não posso. De jeito nenhum. Primeiro, eu m*l o conheço. Segundo, ele parece alguém muito poderoso e terceiro, eu sou uma ninguém. Ele jamais teria olhos para alguém como eu. Quando deu o horário, eu fui acordar Luíza, a irmã dele. Ela já acordou mexendo no celular. — Bom dia, Luíza. Seu irmão pediu que eu te acordasse pra tomar café e fazer o dever. — Eu falei. Ela me olhou e girou os olhos. — Mais uma que tá querendo dar pro meu irmão fingindo que quer cuidar de mim. Que ótimo! — Reclamou. Ela passou por mim e foi até a cozinha. Sentou e começou a comer, tudo mexendo no celular. — Eu não sou o que você está pensando. — Avisei. — Sei. Igualzinho todas. — Girou os olhos, e deu uma garfada nos ovos que o irmão havia preparado. — Vai se fingir de boa moça nos primeiros dois dias, dar pra ele porque ele só sabe t*****r com minhas babás, e depois vai embora. — Não... Por que você está me tratando assim? — Eu questionei, a olhando. — Eu não sou daqui do morro. Não conheço vocês, nem sei quem seu irmão é. Ele parece ser uma pessoa importante, mas não faço ideia de quem seja, então, Luíza, sinto te decepcionar, mas eu estou aqui porque seu irmão me ofereceu ajuda, e não porque quero dar pra ele. Ela ergueu as sobrancelhas e me olhou de cima a baixo. Eu estava com algumas roupas que me doaram, uma calça e uma camiseta, chinelos e nada mais. — Você se veste muito m*l, não tem como ser daqui, mesmo. As meninas que meu irmão come, geralmente são muito mais bem vestidas que você. É, gostei de você. — Ela sorriu. — Eu sou Luíza, e minha missão nessa vida é tirar todas as babás de dentro da minha casa. Já tenho quase onze anos, não preciso de babá. — Resmungou. — Tudo bem, vamos fazer assim: Eu não vou incomodar você, se você fizer as coisas direito. E você não tenta me tirar daqui, porque eu realmente não tenho para onde ir. — Pedi. Caramba, essa tal de Luíza me assusta. Que praga! — Como não tem? Você não tem casa, garota? — Não. Eu vou te contar um segredo, tá? Eu sou uruguaia. — Percebi que era de outro país pelo sotaque horroroso. — Ela deu os ombros. O jeito que ela me trata me lembra meus pais. Mas, ela é só uma criança. Ainda dá tempo de mudar. — Tudo bem, meu sotaque é horroroso mesmo. Abusaram de mim e me jogaram aqui como se eu fosse uma c****a grávida. Seu irmão foi gentil e me ajudou... E agora eu vou ajudar ele com você, entendeu? Eu não quero nada do seu irmão. Só quero retribuir o favor que ele fez em salvar minha vida. — Ela deu os ombros. — Tanto faz. — Ela fingia não se importar. Eu poderia ter ficado com raiva da Luíza, mas tive misericórdia. Ela tem dez anos e perdeu a mãe para as bebidas alcoólicas, tem um irmão ocupado e as pessoas que vem aqui, pelo visto, estão interessadas em ficar com o irmão dela, não em cuidar dela. Talvez eu esteja aqui para mudar de vida, mas junto, mudar a vida da Luíza. — Luíza, você sabia que eu parei de estudar na sua idade? — Ela ergueu as sobrancelhas. — Eu queria estudar com você, se você deixasse. — É sério? — Ela questionou. — É, é sim. Eles não me deixavam estudar onde eu estava. Se você puder me ensinar algo... Ela sorriu de forma sincera. Depois que terminou de comer, me levou para o quarto dela, que é lindo e cheio de brinquedos e coisas cor de rosa. Deus, como eu queria ter tido um quarto desse na infância! A escrivaninha de estudo é enorme, e ela tem muitos livros. Temos uma viciada em leitura por aqui. — Gostou do meu quarto? — Perguntou. — Sim, eu amei. Olha... Posso pegar essa boneca? — Falei, apontando para uma linda boneca que estava na prateleira. — Claro. — Ela respondeu e eu peguei. Acariciei os cabelos da boneca, sorrindo. Vi que ela estava sorrindo também. — Muito linda. — Eu te empresto se você quiser. Não brinco mais com ela. Gosto mais de brincar com as barbies que eu tenho. — Ela apontou para uma estante de barbies, e eu sorri. — Caramba, quantas! — Me aproximei e sorri. — Você é uma garota muito sortuda. — É... Obrigada. Eu realmente tenho todos os brinquedos que quero. — Disse. Ela tem tudo que quer, mas parece triste. Talvez ela precise de atenção. — Bom, vamos fazer seu dever? — Questionei e ela concordou. — Vou buscar uma cadeira e já volto. Nós fizemos a lição de casa dela, juntas. Os livros que ela usa são excelentes, muito fáceis de entender, e isso me deixou contente. A educação aqui parece ser boa. Quando acabamos, já era quase hora do almoço. Ela balançou a mão como se estivesse doendo. — Nunca mais deixo a lição de casa da semana toda acumular. Tô com dor na mão, que horror! — Disse e riu. — Tá vendo? O melhor é fazer um pouquinho por vez. Hoje, quando você chegar... Se você quiser, posso fazer a lição com você de novo. Ou amanhã de manhã. Você quem sabe. — Obrigada, Ahn... Esqueci seu nome. Vou te chamar de Gringa, por causa do seu sotaque. — Bom, meu nome é Giovanna, mas Gringa serve! — Respondi. Deu a hora da menina ir para a escola, pelo que ela disse, ela almoça lá. Eu fiz questão de leva-la. Acho que posso conquistar essa menina com um pouco de amor. — Obrigada por me trazer. Você foi a primeira que fez isso. — Ela disse, sorrindo. Estávamos no carro, a garotinha tem um motorista. A comunidade parece pobre, mas o Murilo parece ser bem rico. — De nada, Luíza. Até mais tarde. De volta a casa de Murilo, ele chegou com alguns pacotes marrons nas mãos e colocou em cima da bancada. — E aí, guria. Deu bom? — Como assim? — Questionei. — Ah, esqueço que você não é daqui. Quero saber se deu certo com a Luíza. — Ah, sim, deu sim. Ela é meio difícil, mas consegui que ela fizesse a lição de casa. — Caramba! Sério? É um milagre. Essa praga tá o ano todo dando trabalho com isso. — Reclamou. — Não chama ela assim. Eu acho que a Luíza é muito sozinha, sente falta de amor. — Ele ergueu as sobrancelhas. — É sério? — Sim, bem sério, Murilo. Ela é arisca, mas é uma menina doce. Ela me emprestou uma boneca dela só porque eu gostei... Entende? — Ele concordou com a cabeça. — Vou ver isso aí. MURILO NARRANDO Pesquisei muito sobre Giovanna e não descobri muita coisa. Ela parece ser só uma garota pobre e sem sorte. Mas, só pelo fato dela ter conseguido fazer a Luíza terminar as lições de casa, já sei que ela é alguém especial. Ninguém tem paciência com a Luíza, nem eu. E eu amo ela de todo meu coração, porque ela é minha irmã. Sei que a Luíza teve uma vida difícil. Nós somos irmãos por parte de mãe, mas nem ela nem eu sabemos quem é nosso pai. Minha mãe me criou dizendo que eu era fruto de um estupro, e que eu não devia ter nascido. Pra provar que ela estava enganada, eu comecei a trabalhar que nem um louco aqui e cheguei aonde cheguei. Eu sou o cara, a comunidade me ama... Mas minha mãe escolheu outro caminho: A bebida. Eu tenho vinte e cinco anos, cinco anos atrás eu já tinha vinte, mas minha irmãzinha tinha só cinco. Minha mãe fugiu, foi para o centro, por causa das bebidas, e nos abandonou. É bastante triste pensar que minha irmã ficou abandonada aos cinco anos porque a mãe escolheu se entregar de vez à cachaça. Mas foi o que aconteceu. Depois de um dia bem pesado, de resolver coisas, de tretar com alguns aviãozinho, eu fui pra casa exausto. A casa estava cheirosa e limpa. Fiquei surpreso, mas tudo estava perfeitamente arrumado. Os papelotes que deixei em cima da bancada ainda estavam lá, fechados. Sempre faço isso para testar as meninas que trabalham aqui na minha casa e bom, a Giovanna passou no teste. Luíza montou uma casa de bonecas na sala. Estava brincando, sob a supervisão de Giovanna, que penteava o cabelo de uma das bonecas. Luíza parecia feliz, pela primeira vez em muito tempo. Aquilo me fez olhar para Giovanna com carinho, pela primeira vez. Mais a noite, quando já era hora de dormir, eu vi Luíza indo para a cama acompanhada por Giovanna. Ela ajeitou as cobertas por cima da minha irmã e deu um pequeno beijo em sua testa. Achei bonita a atitude, e pensei em elogiá-la. — Giovanna? — Chamei, depois que ela saiu do quarto de Luíza e fechou a porta. — Sim? — Obrigado por cuidar direito da minha irmã. Você pensa em ir embora? — Ela negou com a cabeça. — Não, eu não tenho para onde ir. — Disse. — Por favor... Não me manda embora. — Não! Eu não vou te mandar embora. Na verdade, estou muito feliz que você está aqui. — Sorri. — É? Ahn... Eu fico feliz também. — Boa noite. — Falei e saí. Depois que saí, fiquei a observando. Giovanna é uma mulher linda, de corpo escultural, loira de olhos claros, típica uruguaia do interior. Fui para o meu quarto e me deitei. Foi aí que meus problemas começaram, e eles começaram com a p***a de um sonho... Nesse sonho, eu estava comendo a Giovanna em todas as posições possíveis, e quando acordei, eu estava tão duro que não sabia o que fazer. — Droga. — Respirei fundo. É, vai ser difícil conviver com uma mulher bonita dessa sem deseja-la. Eu não acho que ela esteja interessada em alguém no momento, depois de tudo que sofreu. E eu não posso ser um o****o, só porque sou dono do morro, e exigir que ela me queira. Terei que ficar quieto, na minha... E tirar essa menina da minha cabeça.
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