CAPÍTULO 7
BIBI NARRANDO
O pagode tava pegando fogo, a batida subindo pelo corpo igual corrente elétrica. Eu tentava me manter tranquila, fingir que não sentia o olhar dele grudado em mim, mas era impossível. A cada passo que eu dava, parecia que o Escorpião me seguia com os olhos, mesmo de longe.
— Ele tá quase pegando fogo ali, Bibi. — Kelly falou no meu ouvido, rindo. — O homem tá roxo de raiva, olha aquilo!
Eu fingi que não ligava, mas o coração já batia no ritmo do tamborim.
— Problema é dele. — falei, forçando um sorriso. — Quem mandou dizer que aqui não era lugar pra mim? Agora vai ter que me ver dançando.
Kelly gargalhou.
— Tu é doida, mulher. Isso é cutucar cobra com vara curta.
— Que seja. — respondi, virando um gole da cerveja. — Hoje eu tô cansada de ser boazinha.
O vocalista começou a puxar um pagodão daqueles pesados, e a galera foi pra pista. A luz piscava, o povo se empurrava, o cheiro de suor e perfume se misturava com a fumaça dos baseados no ar. Eu e Kelly entramos no meio, rindo, dançando, rodando o cabelo.
Por um instante, esqueci tudo. Esqueci o morro, o passado, até o medo. Eu só queria sentir a batida e ser eu mesma. Mas quando virei de lado, vi ele.
Escorpião.
Sentado, copo na mão, olhar cravado em mim. Aquele tipo de olhar que fala sem precisar abrir a boca. Parecia bravo, mas tinha alguma coisa ali… uma mistura de raiva e desejo que me dava arrepio.
Kelly notou também.
— Menina… ele vai te comer com os olhos.
— Que coma. — falei, provocando, girando o quadril de propósito, sem quebrar o contato com o olhar dele.
E foi ali que eu percebi que, por mais que eu quisesse fugir daquele sentimento, já era tarde. Ele me tirava do eixo. O homem conseguia me deixar nervosa e viva ao mesmo tempo.
Dancei mais um pouco, sentindo o corpo solto, até o olhar dele mudar — ficou mais escuro, pesado, perigoso.
— Vixe, Bibi… — Kelly sussurrou —, ele vai levantar, eu tô te falando.
— Que levante. — respondi, mas a voz saiu trêmula.
Porque, no fundo, eu queria que ele viesse.
As luzes piscavam, o pagode pegava no refrão, e o Escorpião continuava me encarando, sem piscar. Ele tragava o baseado, soltava a fumaça e ainda me olhava daquele jeito que desmontava qualquer defesa que eu tentava ter.
A gente dançava, o pagode pegando pesado, o chão tremendo, o suor misturado com perfume e fumaça. Eu tentava manter o sorriso, aproveitar, fingir que nada me abalava. Mas no fundo… eu sentia o olhar dele queimando minhas costas.
Kelly se aproximou, cutucando meu braço com o cotovelo.
— Olha pra lá, sem virar muito — disse baixinho, já rindo. — Duas piranhäs acabaram de sentar na mesa deles.
Meu corpo travou na hora. Virei de leve, só o suficiente pra ver. E lá estavam elas. Duas mina que todo mundo do morro conhecia, daquelas que viviam se jogando pra cima de quem tem poder. Curtinhas, decotadas, e uma delas já jogando o cabelo pro lado, tentando chamar atenção dele. O meu coração apertou, a raiva veio quente. O Escorpião ainda me olhava, mas agora as duas tavam ali, falando qualquer coisa pra ele, rindo alto.
Ele não ria, mas também não mandava elas embora.
Kelly percebeu meu semblante mudar.
— Ih, não fica bolada, Bibi. Tu queria provocar, não queria? Agora segura o rojão.
Respirei fundo, tentando disfarçar.
— Eu não tô nem aí, Kelly. — falei, fingindo descaso. — Ele faz o que quiser da vida dele.
— Sei… — ela respondeu, com aquele sorrisinho debochado. — Teu olho diz o contrário.
Dei outro gole na cerveja, virando de costas pra mesa deles, tentando focar na música.
Mas era impossível. O som já não entrava direito no ouvido, o peito batia mais rápido que o tambor, e a imagem das duas ali, perto dele, grudava na minha cabeça.
— Vamo dançar, vai. — falei, fingindo leveza. — Hoje eu não quero pensar em nada.
E voltei a me mexer no ritmo da música, o corpo tentando seguir o som, mas a mente ainda presa naquela mesa — e naquele olhar que, mesmo distante, continuava me puxando sem eu querer.
Porque por mais que eu dissesse que não tava nem aí, a verdade é que eu tava e muito.
Tentei dançar, juro que tentei. Me forcei a rir das besteiras da Kelly, a seguir o ritmo do pagode, mas a cabeça não saía de lá — da porrä daquela mesa.
De canto de olho, vi uma das meninas se inclinar mais, falar alguma coisa no ouvido dele. O Escorpião não respondeu, mas também não afastou. A outra gargalhou alto, jogando o cabelo pro lado e… antes que eu pudesse acreditar, sentou no colo dele.
Foi a gota d’água.
O estômago virou, o sangue ferveu e o peito apertou de um jeito que doeu. Parecia que alguém tinha me dado um soco no meio do coração.
Fiquei parada por uns segundos, tentando segurar a pose. Kelly percebeu na hora.
— Ih, caralhø, Bibi… — ela disse baixinho, vendo minha expressão mudar. — Não pira, tá? Ele tá só pagando de durão.
Engoli seco, respirando fundo, mas a voz saiu falha.
— Kelly, vamos embora. — falei, sem encarar ela. — Tá me dando dor de cabeça.
Ela franziu o cenho, surpresa.
— Dor de cabeça nada, tu tá é com ciúme.
— Cala a boca e vamo logo. — falei, mais ríspida do que queria.
Peguei minha bolsa, passei o copo pra qualquer canto e saí pisando firme, o som do pagode ficando pra trás enquanto meu peito parecia que ia explodir. Não olhei pra trás, mas eu sabia que ele tava me olhando — dava pra sentir.
Cada passo que eu dava, parecia que aquele olhar me seguia, pesado, quente, querendo me fazer voltar.
Mas eu não voltei.
Nem que fosse pra me proteger de mim mesma.
Saí do pagode com a cabeça fervendo, o coração aos pedaços. A gente subia o morro devagar, os saltinhos batendo no asfalto molhado e o som do pagode ficando cada vez mais longe. A noite tava abafada, o vento quente misturado com o cheiro de comida das casas, cachorro latindo no fundo e a minha cabeça… uma bagunça.
Kelly vinha do meu lado, falando sem parar, tentando me animar.
— Eu te falei, Bibi. Escorpião não presta, mulher. Tu é nova, linda, tem que esquecer esse cara.
Suspirei fundo, chutando uma pedrinha no meio da rua.
— Não é fácil, Kelly. Ele sempre fez parte da minha vida, desde que eu me entendo por gente.
— E daí? — ela retrucou. — Ele é patrão, vive cercado de piranhä. Tu vai ficar sofrendo por um cara que nunca vai te assumir? Que nem te olhando como mulher, ou pelo menos fingi que não vê. Acorda, amiga. Tu merece coisa melhor.
Olhei pro chão, tentando esconder o que eu sentia.
— Eu sei… mas não consigo.
Kelly bufou, balançando a cabeça.
— Então faz o seguinte: arruma outro. Beija um, sai, se distrai. É o único jeito de esquecer homem assim.
Parei por um segundo, olhando pra ela.
— Eu nunca nem beijei ninguém, Kelly. — confessei, a voz baixa, meio envergonhada. — Como é que eu vou esquecer alguém se eu nem sei o que é isso direito?
Ela arregalou os olhos.
— Nunca? Nem um beijinho escondido?
Neguei, com um sorriso sem graça.
— Nunca.
Kelly parou, me encarando com espanto.
— Porrä, Bibi… agora tudo faz sentido. Tu tá lascada, menina. Tá apaixonada por ele até o último fio de cabelo.
Ri fraco, mas era riso de nervoso.
— Talvez. Ou talvez eu só seja i****a mesmo.
Ela passou o braço pelo meu ombro, puxando leve.
— Tu não é i****a, não. Só tá sentindo demais por quem não devia. Mas relaxa, uma hora esse peso sai.
Continuei andando, o morro quieto, só o som distante dos rádios nas janelas. Mas lá dentro, o que batia era mais alto que qualquer batida de funk — o coração, doendo e teimoso, ainda preso naquele homem que eu queria tanto aprender a esquecer.
Continua.....
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