CAPÍTULO 6
ESCORPIÃO NARRANDO
O pagode tava pegando fogo, o som vibrando nas caixas, o povo cantando junto, mas pra mim tudo ficou em segundo plano desde o momento que ela apareceu.
Bibi.
Aquela porrä de menina que eu vi crescer, entrando no meio da multidão como se tivesse pronta pra encarar o mundo.
O vestido preto colado, o cabelo solto, o sorriso leve… parecia que ela tinha feito de propósito.
— Caralhø... — murmurei, com o maxilar travado.
O Júlio ainda ria, levantando o copo.
— Relaxa, irmão, deixa a menina curtir. Ela tá com a Kelly, não vai fazer merdä. Eu tô de olho nela. Minha irmã não é nenhuma boba.
Balancei a cabeça devagar, sem tirar os olhos dela.
— Cê acha que eu vou conseguir ficar tranquilo vendo minha cria no meio desse tanto de maloqueiro? — rosnei, o baseado queimando rápido entre os dedos.
— Tua cria, não. — Júlio riu. — É minha irmã.
Engoli seco e desviei o olhar, tentando disfarçar.
Mas a verdade é que ele tinha razão… e, ao mesmo tempo, não tinha. Porque, por mais que eu tentasse repetir na cabeça que ela era só a irmã dele, o corpo não obedecia. O olhar dela me desmontava.
– Tu sabe que a Bibi é como se fosse minha irmã. Eu sempre cuidei dela.
– Tô ligado – Ele disse. – Mas a Bibi não é mais uma criança não, pô. – ele disse e eu neguei com a cabeça.
Vi quando ela passou no meio das mesas, os cara cochichando, olhando demais.
Um deles, o tal do Gordo, olhou pra ela com um sorriso safadø, e isso foi a gota d’água.
— Júlio, segura aqui. — falei, jogando o copo na mesa e me levantando.
— Ih, vai fazer merdä, escorpikão? — ele perguntou, meio rindo, meio apreensivo.
— Vou botar ordem.
Comecei a andar no meio da pista. O som estourando, a galera dançando, mas cada passo que eu dava parecia mais pesado. O olhar dela me achou de longe.
Bateu.
E o jeito que ela me olhou… porrä. Era como se dissesse “eu sabia que tu ia vir”.
Cheguei perto da mesa delas. A Kelly arregalou os olhos na hora.
— Ih, fødeu. — ouvi ela sussurrar.
Bibi me encarou, firme, mas eu vi o coração dela disparar.
— Que porrä tu tá fazendo aqui, Bibi? — falei baixo, a voz carregada. — Eu te avisei que esse lugar não é pra tu.
Ela cruzou os braços, o queixo erguido, sem se intimidar.
— Eu vim dançar, Escorpião. Só isso.
— Dançar? — dei uma risada curta, sem humor. — Tu chama isso aqui de lugar pra dançar? Olha em volta, porrä.
Kelly tentou aliviar o clima.
— Calma, escorpião, ela não tá fazendo nada demais.
— Fica quieta, Kelly. — falei sem nem olhar pra ela.
Voltei o olhar pra Bibi.
— Bora pra casa, agora.
Ela respirou fundo, os olhos brilhando, e respondeu num tom que me acertou em cheio:
— Eu não sou tua filha pra tu mandar em mim, Escorpião.
As palavras vieram como tapa na cara. O sangue ferveu. A vontade era de pegar ela no colo e sair dali, mas a razão gritava pra eu não dar brecha na frente de todo mundo. Fiquei um tempo em silêncio, só encarando ela. O pagode continuava tocando, mas pra mim o som já era só barulho.
— Tu não sabe o que tá fazendo, Bibi. — falei por fim, baixo, firme. — Esse mundo aqui destrói quem é puro. E tu ainda tem pureza. Não joga isso fora por teimosia.
Ela não respondeu. Só me olhou — e o olhar dela era um desafio. Virei de costas, respirei fundo e voltei pra mesa com o Júlio, o corpo tremendo de raiva e desejo. E no fundo, eu sabia:
se ela quisesse me provocar, conseguiu.
Voltei pra mesa ainda com o sangue queimando na veia, tentando puxar o ar devagar. Ainda sentia o olhar dela me queimando por trás, e isso me deixou mais alerta que panela de pressão.
Mal sentei e já veio uma mina se abrindo no meu canto — dessas que andam com perfume barato e sorriso ensaiado.
— E aí, Escorpião, posso sentar aqui? — ela pediu de boa, jogando o corpo como quem não tem medo de nada.
Olhei pra ela com aquele jeito seco que eu guardo pra ocasião. Não tava no clima de papo fiado.
— Hoje não, mina. Tô de boa. — falei curto, virando o copo. — Vai lá, procura teu rolê, porque hoje tô com clima não.
Ela fez cara de surpresa, piscou, tentou um sorriso mais aberto, achando que eu tava de zoeira. Aí eu repeti, mais firme:
— Sério, senta não. Hoje eu não tô pra conversa.
A mina até quis puxar papo, meter um elogio, alguma cantada pronta, mas já viu que ali não ia rolar. Acabou recuando, trocou uma olhadinha com umas das amigas e foi embora no rebolado, mais uma que aprendeu a não chegar dando mole pro patrão.
O Júlio, do lado, riu baixinho e deu um tapa no ombro meu:
— Tu é bruto demais, irmão. Deixa a mina, pô.
— Bruto é quem tem tempo pra perder com essas porrä. Hoje eu não tô bom não. — respondi, sem tirar o olho do movimento.
Mas por trás daquela cara dura, o que me queimava mesmo era outra cena: a Bibi, rindo com a Kelly, virando pro DJ, dançando do jeito dela. Cada risada dela era faixa na minha garganta. E quanto mais eu me recusava a admitir, mais ela ocupava o centro da minha atenção. Bibi passou por ali de novo, perto da mesa, e por um segundo o mundo parecia que ia estourar, e eu me vi forçando um gole na cerveja só pra não levantar e pegar ela no colo — coisa que eu juro que tava querendo fazer sem nem planejar.
Peguei a garrafa e virei no copo, deixando a cerveja cair gelada, espumando. O som ainda batia forte, mas eu só via ela. A Bibi. Rindo, dançando com a Kelly, girando o cabelo como se não tivesse ninguém olhando — e todo mundo tava.
Dei um gole longo, tentando engolir junto o incômodo que já tinha virado nó na garganta.
— Tá estranho, irmão. — Júlio falou, me encarando de canto. — Que que tá pegando?
Virei o olhar pra ele, tentando manter a expressão neutra.
— Nada, pô. Tá tudo certo. — respondi, sem firmeza nenhuma.
Ele riu, balançando a cabeça.
— Nada, né? Tu tá olhando pra mesma direção faz meia hora, Escorpião. Se eu não te conhecesse, até diria que tu tá com ciúme.
Dei um meio sorriso torto, forçando o deboche.
— Tá viajando, Júlio. Eu só tô de olho no movimento, é meu trampo.
— Teu trampo? — ele provocou. — Desde quando tu monitora pista de dança?
Respirei fundo, segurando a raiva e a verdade junto.
— Desde que tem gente que não devia tá aqui, dançando no meio de vagabundo.
Ele arqueou a sobrancelha, já entendendo.
— Cê tá falando da Bibi, né?
Dei outro gole, sem responder. Só o silêncio bastou pra ele confirmar o que pensava.
— Ela tá crescendo, irmão… — Júlio disse, mais calmo. — Tu tem que entender que ela não é mais criança.
— Crescendo é o caralhø. — cortei seco. — Isso aqui não é lugar pra ela.
Júlio encostou na cadeira, cruzando os braços.
— E o que tu vai fazer? Mandar ela pra casa no meio da festa?
— Se depender de mim, sim. — falei, firme, batendo o copo na mesa. — Já tá tarde, e ela não tem que tá aqui no meio desses caras.
Ele me olhou com aquele sorrisinho de quem sabe mais do que devia.
— Tu não percebe, né? Tu fala dela como se tivesse falando de uma mina que fosse sua. Cê liga escorpião.
Olhei pra ele de volta, o sangue já fervendo.
— Fala merdä não, Júlio. Eu só tô cuidando da tua irmã.
— Cuidando? — ele deu uma risada curta. — Tu tá é perdendo a linha, irmão.
Fiquei quieto. Peguei o baseado e acendi, tragando fundo pra não responder.
Continua.....