5- PAGODE

1058 Words
CAPÍTULO 5 BIBI NARRANDO Assim que o Júlio saiu com o Escorpião, o silêncio tomou conta da casa. Fiquei ali parada, olhando pra porta ainda aberta, sentindo o cheiro do perfume dele no ar e o eco das palavras que ele tinha me dito: – Tu é moça direita, lá só tem cara querendo pegar piranhä. Revirei os olhos, bufando sozinha. — Moça direita, é? Tá achando que eu vou ficar trancada pra sempre dentro de casa, porrä? Sentei na beira da cama, peguei o celular e abri o contato da Kelly. — Amiga… — mandei mensagem — cê topa ir no pagode hoje? Nem deu dois minutos, o celular vibrou. — Cê tá doida, Bibi? Teu irmão vai tá lá, e o Escorpião também! Sorri de canto, já esperando a resposta dela. — Sei disso. Mas hoje eu quero sair, quero me sentir viva, não vou ficar aqui presa. Kelly mandou um áudio rindo. — Tá, sua doida, tô indo aí! Me espera, que hoje a gente vai causar. Levantei num pulo, o coração acelerando igual tambor de samba. Fui até o guarda-roupa, abri e fiquei olhando as roupas que eu tinha. Quase tudo simples, mas peguei um vestidinho preto justo, aquele que eu usava pouco por medo do Júlio implicar. Soltei o cabelo, deixei ele cair livre nas costas e passei um batom vermelho, bem de leve. Olhei no espelho e nem reconheci direito quem tava ali. Era eu, mas com outro olhar — o de quem tava cansada de ser tratada como criança. Quando a Kelly chegou, já veio daquele jeito barulhento de sempre, batendo palma no portão. — Abre, mulher! — gritou rindo. — Olha essa ousada pronta pra dar problema, meu Deus do céu! — Cala a boca, Kelly. — falei rindo, puxando ela pra dentro. — Júlio pode ter deixado alguém de olho por aqui. Ela entrou e me olhou de cima a baixo. — Porrä, Bibi… se o Escorpião te ver assim, vai infartar. Ele sempre foi tão ciumento, pior do que o seu irmão Fingi que não liguei, mas o sorriso escapou. — Não tô nem aí pra ele, não. Quero é dançar. A Kelly riu alto, jogando o cabelo pro lado. — Aham, sei… dançar. Tu quer é provocar a segunda guerra mundial. — Cala a boca, sua peste. — falei empurrando ela, rindo. Ela tirou o casaco, sentou na cama e começou a se arrumar ali comigo. Passou rímel, ajeitou o top, colocou um shortinho jeans e uma blusa colada. As duas se olhando no espelho, rindo igual duas adolescentes que sabiam que iam aprontar. Quando terminamos, peguei minha bolsinha pequena e o celular. — Pronta? — perguntei. — Nasci pronta. — Kelly respondeu, piscando. — E hoje a gente vai fazer o pagode parar. Fechei o portão devagar, o coração batendo rápido, mas não era medo… era adrenalina. E enquanto a gente descia o beco iluminado pelas luzes coloridas do pagode lá embaixo, eu só pensava numa coisa, que se ele me acha menina, hoje eu vou mostrar que ele tá bem enganado. O som do pagode já dava pra ouvir de longe, vibrando nas paredes do beco e batendo no peito. Cada passo que a gente dava, mais perto ficava o barulho, as risadas, as luzes piscando e o cheiro forte de cerveja e fumaça. Quando chegamos na entrada, o segurança da quebrada — um dos menor da contenção — olhou pra mim com cara de espanto. — Ô, Bibi… teu irmão tá aí dentro, tu sabe, né? Sorri de canto, ajeitando o vestido. — Sei. Mas hoje quem tá no comando sou eu. Kelly gargalhou, empurrando ele de leve. — Relaxa, cria. A gente só veio dançar, ninguém vai arrumar confusão. Entramos. O pagode tava lotado, uma energia pesada e boa ao mesmo tempo. A música estourando nas caixas, o vocal mandando brabo e o povo pulando no ritmo. As luzes coloridas cortavam o lugar, piscando entre os rostos, e o cheiro de perfume barato se misturava com o de bebida derramada no chão. Mas foi só dar uns passos pra dentro que eu vi eles. Lá no canto, na mesa com vista pra tudo, tavam o Júlio e o Escorpião. Ele sentado de costas pra parede, boné pra trás, baseado aceso e olhar atento pra cada canto do pagode. O tipo de presença que faz o ambiente inteiro mudar. O olhar dele cruzou com o meu, e por um segundo o tempo pareceu parar. O sorriso que eu tinha no rosto sumiu quando vi a cara dele fechar. Sério, pesado, olhar cortante. Era aquele tipo de expressão que só o Escorpião sabia ter — a mistura de raiva e controle, como se o mundo inteiro tivesse que pedir permissão pra existir. Júlio, do lado, até acenou pra mim, rindo, tranquilo. — Olha lá a Bibi! — ele gritou, levantando o copo. Mas o Escorpião? Nem se mexeu. Só acompanhava cada passo que eu dava, o maxilar travado, o baseado queimando devagar entre os dedos. Kelly percebeu na hora. — Eita, o homem fechou a cara bonito, viu? — sussurrou, segurando o riso. — Tu vai apanhar só com o olhar, menina. — Deixa ele. — respondi, tentando manter a pose, mesmo com o coração pulando no pescoço. — Quem mandou dizer que eu não podia vir? A gente foi andando entre as mesas, e os vapores cochichavam quando eu passava. — Olha lá, é a irmã do Júlio… — Caralhø, tá bonita, hein… — Escorpião vai arrancar a cabeça de alguém hoje. Nem olha pra ela que é protegida dele. Fingi que não ouvi, mas cada palavra batia fundo. Era estranho — parte de mim se sentia poderosa, outra parte tremia por dentro. A gente achou uma mesa mais pro fundo, longe deles, e sentamos. Kelly pediu duas cervejas e um espetinho. — Relaxa, Bibi… finge que não viu ninguém. — ela disse, me servindo um copo. — Se ele quiser vir brigar, deixa vir. Peguei o copo, dei um gole e soltei o ar devagar. — Eu só vim me divertir, Kelly. É isso que ele não entende. Mas, mesmo falando isso, eu sentia o olhar dele queimando em mim. De longe, dava pra ver o Escorpião, sentado, sério, com a cerveja na mão, mas o foco dele… era todo meu. Continua .....
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