CAPÍTULO 4
ESCORPIÃO NARRANDO
Quando ela falou aquilo — já sou mulher — o bagulho travou aqui dentro. Fiquei sem saber se ria, se dava bronca ou se levantava e ia embora. Aquela moleca, que eu vi crescer dentro da minha casa, me olhando daquele jeito firme, com a voz embargada, dizendo que era mulher... mexeu comigo de um jeito que eu não esperava.
Bibi sempre foi diferente. Enquanto as mina do morro se perdem cedo, ela sempre manteve a cabeça no lugar. Nunca deu papo pra ninguém, sempre estudando, cuidando da casa, respeitando o Júlio e a minha coroa. Eu olhava pra ela e via pureza — coisa rara nesse mundo sujo que a gente vive.
Mas naquele momento, sentado na mesa, com o cheiro da comida dela ainda no ar, eu percebi que a Bibi não era mais a garotinha de antes. Tinha olhar de mulher. Firme, desafiando o meu sem medo. E isso, pra um cara como eu, era perigoso.
Acendi outro baseado só pra disfarçar o incômodo.
— Essa mina tá brincando com fogo — pensei, soltando a fumaça devagar.
O Júlio desceu logo depois, cheiro de perfume forte e roupa alinhada.
— Partiu, Escorpião? — ele perguntou, pegando o boné na estante.
— Partiu. — respondi seco, me levantando.
Antes de sair, olhei pra ela mais uma vez. Ela fingia mexer nos pratos, mas eu percebi o tremor leve das mãos. E o pior é que aquele tremor ficou ecoando em mim.
— Fecha a casa direito, Bibi. — falei, só pra quebrar o silêncio.
— Pode deixar. — respondeu baixo, sem olhar pra mim.
Saí com o Júlio, mas a cabeça ficou lá dentro. O beco parecia mais escuro do que o normal, o som do morro abafado, e cada passo que eu dava só aumentava o peso do que ela tinha dito.
– Eu já sou mulher.
Essas palavras ficaram rodando na minha mente o caminho inteiro até o pagode.
E por mais que eu tentasse me convencer de que era errado, que ela era a irmã do meu braço direito, uma parte de mim sabia: aquela mina tava começando a mexer com o tipo de fogo que nem eu sei apagar.
Cheguei na frente do pagode com a minha moto, o Júlio veio logo atrás na dele. O barulho dos motores abafou o som das caixas por uns segundos, mas assim que a gente parou, o funk já voltou com força, fazendo o chão tremer.
Descemos devagar, cada um tirando o capacete no estilo. Eu botei a Glock por dentro da blusa e olhei em volta. O beco que dava pro pagode tava lotado — gente dançando, copo de bebida na mão, riso alto, cheiro de perfume barato misturado com fumaça e cerveja gelada.
As luzes coloridas piscando deixavam tudo com aquele ar de perigo e diversão que só o morro sabe ter. O som estourando, o DJ gritando o nome da quebrada, e as piranhäs já virando o pescoço quando viram a gente chegar.
— Olha o Escorpião aí, porrä! — ouvi um cara gritar lá do canto, levantando o copo.
As mina começaram a se ajeitar, mexendo no cabelo, empinando o corpo. Algumas já vieram andando devagar, rebolando, tentando chamar atenção. Uma delas passou perto e soltou um
– Boa noite, patrão – com aquele sorriso malicioso.
Eu só dei um meio sorriso de canto.
— Boa noite. — respondi, seco, continuando a andar.
Júlio riu, já conhecendo meu jeito.
— Tu não muda, hein, irmão. Essas mina se jogando e tu nem aí.
— Eu não vim pra caçar, vim pra beber. — falei, ajeitando o boné. — Piranhä é igual bala perdida: se tu der brecha, te acerta.
Entramos no pagode. O som do tambor ecoava no peito, o ar pesado de fumaça, as luzes piscando e o povo vibrando como se o mundo acabasse amanhã. Era o tipo de lugar que fazia qualquer um esquecer dos problemas — menos eu.
Eu e o Júlio fomos abrindo caminho no meio da galera até achar uma mesa mais afastada, mas com vista boa do movimento. O som tava estourando, a batida do pagode vibrando no peito e o povo cantando junto, copo pra cima, gargalhada solta.
A gente se sentou, e logo o garçom veio.
— Desce duas cervejas e uma porção de batata com calabresa — falei, tirando umas notas do bolso e largando na mesa.
O Júlio já se jogou na cadeira, rindo.
— Cê viu, patrão? Hoje o bagulho tá cheio, geral colando.
— Tá bom o clima. — respondi, acendendo outro baseado e observando o salão. — Parece que até o morro esqueceu das desgraças por umas horas.
Em volta, os cara vinham chegando pra cumprimentar. Um por um, com respeito.
— Salve, Escorpião.
— Tranquilidade, patrão.
— Tamo junto, chefe.
Apertei a mão de cada um, firme, daquele jeito que impõe presença. Todo mundo no morro sabia: quando eu aparecia, era pra mostrar que o comando tava de olho, mas sem precisar falar muito.
O garçom voltou com a cerveja suando e a porção fumegando. Abri a garrafa, enchi os copos e brindei com o Júlio.
— Pela paz que nunca vem, irmão. —
Ele riu, batendo o copo no meu.
— E pela grana que nunca falta.
Dei um gole gelado, o gosto amargo descendo redondo. O pagode tava top: o vocalista mandando brabo, as mina dançando no ritmo, o pessoal vibrando junto. Tinha um clima leve, mas eu continuava de olho em tudo — velho costume de quem já viu o chão virar campo de guerra do nada.
Mesmo com toda a farra em volta, a cabeça insistia em voltar pra casa da Bibi. A voz dela, o olhar, as palavras...
– Eu já sou mulher.
Porrä. Aquilo não saía da mente nem com cerveja gelada e música alta.
— Tá onde, Escorpião? — Júlio perguntou, percebendo meu silêncio.
— Tô aqui, parceiro. Só pensando nas parada do corre. — menti, girando o copo na mão.
O tempo foi passando, o som ficando mais alto, a cerveja descendo redonda. O pagode já tava no auge — negø dançando no meio, gargalhada de um lado, briga por mulher do outro, tudo junto misturado.
Eu e o Júlio rindo de besteira, trocando ideia com uns parceiros, quando um dos cara da contenção, o Ligeiro, bateu no meu ombro e falou animado:
— Caralhø… olha aquela morena ali, patrão! Cê tá doido, que visão!
Olhei sem dar muita importância no começo, só acompanhando o olhar dele. Mas quando vi… o bagulho travou.
Era ela.
Bibi.
Entrando no pagode com a Kelly do lado, andando devagar, segura, sorriso no rosto. Cabelo solto, aquele vestido simples, mas que grudava no corpo do jeito certo. A luz batendo fazia o olho verde dela brilhar ainda mais.
O coração bateu diferente, e o sangue subiu. De raiva, de surpresa, de tudo junto.
— Tá de s*******m comigo… — murmurei, cerrando o maxilar.
O Júlio virou pra olhar também e abriu um sorriso.
— Ahhh, olha aí, a minha irmã! A mandada veio escondida, hein? — falou rindo, como se fosse brincadeira.
Mas pra mim, não tinha graça nenhuma.
Senti o corpo esquentar. O ciúme veio pesado, sem eu nem entender direito de onde.
— Que porrä essa mina tá fazendo aqui? — rosnei, levantando um pouco da cadeira.
— Calma, patrão… deixa a mina se divertir, pô. — Júlio respondeu, rindo ainda, sem imaginar o que passava na minha cabeça. – Eu tô de olho nela.
Mas eu sabia. Aquele lugar não era pra ela. Eu tinha dito isso poucas horas atrás, olhando dentro dos olhos dela. E agora ela tava ali, no meio das piranhäs, chamando atenção… e linda pra caralhø.
Fiquei sem saber se ia até ela pra tirar dali no braço, ou se ficava onde tava pra não mostrar o quanto aquilo me mexia. Dei um trago fundo no baseado, o peito pegando fogo.
Porque uma coisa é certa: o mundo podia girar, o pagode podia tá estourando, mas naquele momento… o meu foco era só ela.
Continua....