CAPÍTULO 3
BIBI NARRANDO
Cheguei em casa com o Júlio, o barulho da moto ainda ecoando na minha cabeça. Ele estacionou na frente da nossa casinha, tirou o capacete e me olhou com aquele jeito de irmão mais velho que não precisa falar muito pra me passar segurança.
— Se cuida, maninha. — disse, encostando a mão na minha nuca e me dando um beijo na testa. — Vou pro trampo, mas qualquer coisa me chama no rádio.
Assenti, tentando segurar o sorriso.
— Vai com Deus, Júlio.
Ele ajeitou a arma na cintura, subiu de novo na moto e saiu, desaparecendo na curva do beco. Fiquei parada uns segundos, vendo a poeira levantar, até empurrar o portão e entrar.
A casa era simples, mas era nosso cantinho. Duas peças, quintal pequeno, parede pintada de azul claro. Ali dentro, eu sentia um pouco de paz, mesmo com o barulho do morro lá fora.
Larguei a mochila na cama, fui direto pro banheiro e deixei a água cair sobre mim. Banho de fim de tarde sempre levava junto o peso da escola, o cansaço, e até um pouco da tristeza que eu escondia. Enrolei a toalha no corpo e voltei pro quarto, botei uma roupa leve, cabelo preso de qualquer jeito.
Depois, peguei o pano de chão e comecei a dar um jeito na casa. Passei pano, lavei a louça da manhã, organizei as coisas. Eu gostava de deixar tudo limpo pro Júlio, já que ele fazia de tudo pra não faltar nada pra mim. Era o mínimo que eu podia retribuir.
Quando terminei, fui pra cozinha. Peguei macarrão, cortei salsicha e joguei na panela com molho pronto e deixei o cheiro invadir o ar. Aquilo ali era simples, mas era a nossa comida de sempre. Comida de gente de verdade, feita no corre, com gosto de lar.
Enquanto mexia a panela, pensei em como a vida podia ser tranquila se fosse só isso: escola, casa limpa, comida quente e Júlio por perto. Mas eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, a tempestade sempre batia na nossa porta.
Terminei de preparar o macarrão e fui arrumando a mesa com calma. Coloquei os pratos, talheres, o copo de suco que eu mesma tinha feito, tentando deixar tudo ajeitadinho. Eu sabia que o Júlio ia chegar cansado, e queria que ele se sentisse em casa, com aquele mínimo de conforto que a gente tinha.
Já tava quase servindo meu prato quando ouvi o barulho da moto estacionando de novo. Corri até a janela e vi o Júlio descendo… mas não tava sozinho. Do lado dele vinha o Escorpião. Com o boné pra trás, aquela postura de patrão que fazia o morro inteiro baixar a cabeça.
Meu coração acelerou na hora, e eu voltei rápido pra cozinha fingindo naturalidade. Segundos depois, eles entraram.
— Ô, maninha, olha quem eu trouxe pra janta. — Júlio falou, batendo a mão no ombro do Escorpião.
— E aí, Bibi. — ele soltou a voz rouca.
— Fiz macarrão com salsicha… tá simples, mas tá bom. — falei baixinho, sem conseguir encarar ele muito tempo.
— Simples nada. — Escorpião riu de canto, puxando a cadeira e se sentando. — Se for tu que fez, sei que tá de primeira. Tu sempre teve mão boa pra cozinha, Bibi.
Senti meu rosto esquentar, mas tentei disfarçar, servindo a comida nos pratos. Júlio se jogou na cadeira, esfomeado, enquanto o Escorpião me olhava de canto, daquele jeito que eu nunca sabia decifrar se era só educação ou se tinha algo a mais.
A gente comeu junto, os três. Júlio falando do trampo, do movimento no morro, e eu só ouvindo, de vez em quando sorrindo das piadas dele. Mas por dentro, eu só conseguia sentir o peso do olhar do Escorpião e o gosto diferente que aquela noite tinha ganhado por ele estar ali, sentado na minha mesa, comendo a comida que eu tinha feito. A gente terminou de comer, e logo o Júlio se levantou, deixando o prato na pia.
— Vou subir, tomar um banho e me arrumar… mais tarde a gente cola no pagode. — ele falou, já sumindo pelo corredor.
Fiquei só eu e o Escorpião na mesa, silêncio cortado pelo barulho da cadeira dele raspando no chão. Ele acendeu um baseado, me encarando por cima da fumaça.
— E aí, vocês vão mesmo no pagode hoje? — perguntei, tentando puxar assunto.
— Vamos sim. — ele respondeu curto, soltando a fumaça de lado.
Abaixei os olhos, mexendo no copo de suco quase vazio.
— Queria ir também… — soltei baixinho, quase num sussurro.
Ele deu uma risada curta, mas o olhar ficou sério logo depois.
— Lá não é lugar pra tu, Bibi. Tu é moça direita. — falou firme, sem espaço pra contestar. — Lá só tem cara querendo pegar piranhä, e tu não é isso.
Senti meu peito apertar. Ao mesmo tempo que doía ouvir ele me afastando daquele mundo, tinha uma pontinha de conforto em saber que, pelo menos, ele ainda me via diferente das outras. Só que… eu queria mais. Queria ser notada de verdade, não só como a “menina direita” que ele protegia de longe. Fiquei quieta, mordendo o lábio, enquanto ele levantava da mesa. O cheiro do baseado e do perfume dele ficou no ar.
Fiquei quieta por alguns segundos, mordendo o lábio, mas a coragem foi crescendo dentro de mim. Ele sempre me via como a menininha da casa, a irmã do Júlio, a que precisava ser protegida. Só que eu não era mais criança.
Levantei o olhar e encarei ele, firme.
— Escorpião… eu não sou mais uma menina, não. Já sou mulher.
Ele arqueou a sobrancelha, tragou fundo o baseado e soltou a fumaça devagar, me olhando como se tentasse decifrar se eu tava falando sério ou só de zoação.
— Mulher? — ele repetiu, rindo de canto, mas sem deboche. — Tu ainda tá na escola, Bibi…
— E daí? Escola não define nada, não. — rebati, a voz saindo meio trêmula mas decidida. — Eu já vivi coisa demais, já segurei dor que muita gente não aguentaria. Não sou mais aquela pirralha que tu carregava no colo, não.
O silêncio ficou pesado entre nós. Meu coração parecia que ia explodir, mas eu não baixei a cabeça. Pela primeira vez eu quis que ele me enxergasse de verdade, sem o rótulo que sempre me colocou.
Ele apagou o baseado no cinzeiro improvisado em cima da mesa, inclinou o corpo pra frente e falou baixo, sério:
— Cuidado com as palavras, Bibi. Esse mundo aqui não perdoa. E se tu é mulher mesmo… então aprende que sentimento só atrapalha.
Meu peito doeu, mas ao mesmo tempo tinha um fogo queimando lá dentro, porque pelo menos… ele tinha me ouvido.
Continua .....
Aviso: Esse livro vai ter atualização diária a partir do dia 10. Por enquanto vou postando quando der 😘