Capítulo 5 – Ponto Cego

1061 Words
"A loira na garupa apertava minha cintura, mas meu pensamento ainda tava no vulto que sumiu no beco. Pela primeira vez, eu tinha um ponto cego. E o pior é que eu Não queria desviar o olhar." Eduardo Todo aquele cheiro de sangue misturado com mangue, não me incomodava mais. Eram ossos do oficio. O tal do Leonardo achou que era malandro. Achou que podia passar a visão pros vermes e continuar dormindo tranquilo e confortável na sua cama. O.tário. Não na minha favela. Comigo, verme não tem sono, tem sentença. Já estava pronto pra começar o serviço, quando bati o olho nela. No meio daquele bando de fofoqueiro, tinha uma que não batia com a paisagem. Toda coberta, quando as marmitas costumavam a andar no “jeito”, de shortinho mostrando o ra.bo e blusas que ma.l cobriam os pei.tos. Olhos arregalados de quem nunca viu o bicho pegar de verdade. Achei que era só mais uma emocionada querendo ver o circo pegar fogo. Mas aí, ela chorou. E não era fingimento para ganhar atenção. Era um choro que mais parecia que tava rasgando ela por dentro. E aquilo me irritou para um ca.ra.lho. Quem ela pensava que era pra chorar por verme? A intenção era fazer de Leonardo um exemplo. Não queria fazer daquilo um show. Mas me peguei querendo ver até onde iria a marra daquela “santinha”. Quando mandei arrastarem ela dali, Juliana, que já era conhecida da rapaziada, começou a berrar. Um escândalo que já tava me dando dor de cabeça. — Cala a boca, po.rra! — Marcola sentou a mão na cara dela, que o estalo ecoou longe. — Mais um pio e o próximo corretivo é em tu. Tá pensando que tá aonde? Se liga, filha da pu.ta! Fiquei ali, limpando o sangue dos tênis, enquanto Marcola encostava do meu lado. O resto do pessoal já tinha botado os poucos fofoqueiros para correr e tinham sumido com o lixo, que em breve descansaria em uma cova no nosso cemitério. — Conheço aquela ali, mano. — Marcola soltou, acendendo um cigarro. — A Mary é firmeza. A mãe morreu há alguns anos, o vacilão do pai deu no pé e ela que segurou o rojão da casa sozinha. Enquanto Juliana vivia nos bailes, Mary tana estudando e trampando pra não deixar faltar o rango. A minha é trabalhadeira, nunca deu moral pros “irmãos”. Confesso que aquilo ficou buzinando na minha cabeça. Quando entrei na casinha onde ela estava e a vi encolhida em um canto, parecendo um bichinho assustado, senti uma parada meio estranha. Um aperto que eu não sentia há muito tempo. Dei um susto final, liberei a mina, mas a imagem continuou na minha mente. Nos dias seguintes, passei a reparar um pouco mais. Eu mandava e desmandava naquele bairro, conhecia cada beco da minha favela, mas nunca tinha reparado na “santinha”. Agora, eu a reconhecia de longe! Ela me via e abaixava a cabeça na hora, o corpinho todo tenso, desviando o caminho como se fosse o dia.bo fugindo da cruz. E eu achava graça, mas no fundo, o relato do Marcola de que ela não saiu de casa por dias por puro trauma... Aquilo pesou um pouco na minha mente. Nunca fui de pedir desculpas, mas aquela mina... Com ela era diferente. (...) 5:42 da manhã. Sábado. O sol até que tava querendo dar as caras, mas a neblina da Baixada ainda tava meio baixa. O baile na rua de baixo tava no talo, o som do paredão fazia as vidraças tremerem, enquanto geral curtia. De longe, avistei Juliana acompanhada de um grupinho de emocionadas. Os manos patrocinavam a bebida e as dro.gas, enquanto as safa.das rebolavam a bun.da na direção deles, instigando e sensu.alizando ao som da batida do funk. Eu estava descendo da minha moto, o vendo frio batendo no rosto pra ver se espantava a ressaca da noite, enquanto o olhar esquadrinhava ansiosamente o grupinho. Não queria admitir, mas estava à procura dela. Não demorou muito para constatar que ela não estava ali. E não era nenhuma novidade. Já tava prestes a me juntar a galera, quando vi um vulto no ponto de ônibus. Era ela. Mochila nas costas, uma calça jeans toda preta e um casaco com, no mínimo, uns dois tamanhos maior que ela. O rosto dela estava cansado e eu reprimi um sorriso ao vê-la levar a mão a boca. Aposto que estava morrendo de sono. Ela batia o pé no chão ansiosamente e olhava para o celular a cada minuto. Ri baixo comigo mesmo, pois eu sabia que o ônibus não ia passar nem fo.dendo, a molecada tinha atravessado uns carros na principal pra poder fechar o baile. Voltei a ligar a moto e parei ao lado dela. O motor roncando alto, enquanto ela dava um pulo, o susto estampado na cara. — E, aí, santinha. — Desci a viseira do capacete. — Tá moscando aí, por que? O busão não vai passar não. O acesso tá travado por causa do baile. — Ela não disse absolutamente nada. Só apertou a alça da mochila com força, os dedos ficando quase brancos, enquanto ela ainda me encarava. — Sobe aí. Eu te deixo na avenida. É caminho. Não era caminho, mas mandei mesmo assim, tentando manter o tom de voz de boa, quase como um pedido de desculpas sem usar as palavras corretas. Ela me olhou por um segundo e eu vi o olhar dela se encher de pânico. O mesmo pavor do dia do mangue. Sem dizer uma palavra, ela deu as costas e enquanto apressava o passo, a vi sumir em um beco que cortava para outra rua. Fiquei ali, parado, olhando o rastro dela. Mas por fim, dei um riso amargo enquanto balançava a cabeça. Não iria correr atrás de quem tinha medo de mim. Dali mesmo avistei uma loirinha qualquer que saia do baile. O short curto e o olhar já me chamando. Fiz um sinal com a cabeça e ela já se aproximou toda sorridente, subindo na garupa e abraçando a minha cintura com força enquanto eu acelerava e deixava o ponto de ônibus vazio pra trás. Embora, no fundo, parecia que eu ainda podia sentir o cheiro da colônia que Mariana usava, se misturando com o ar frio da manhã.
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