"Naquele dia, aprendi que o medo também tem rosto."
Mariana
A primeira pancada ecoou pelo mangue, seca e brutal. E, junto com ela, a primeira lágrima escapou do meu controle.
O som da madeira atingindo a costela de Leonardo, era como se algo estivesse se quebrando dentro de mim também. Ele se encolheu, soltando o primeiro gemido engasgado, enquanto a poeira do assoalho subia com o impacto do golpe.
— Não... por favor... — murmurei, minhas pernas falhando e obrigando que um dos capangas me segurasse pelo braço para que eu me mantivesse de pé.
O demônio parou, girando o pedaço de madeira na mão com uma calma que me dava náuseas. Seus olhos se cravaram nos meus, brilhando sob a luz amarelada.
— "Por favor"? — Ele repetiu, dando uma risada curta e sem vida. — Você ouviu isso, Léo? A menina está pedindo por você. Que bonitinho.
Ele então caminhou em minha direção. Cada passo dele fazia o assoalho ranger sob o peso do meu pavor e quando ele se aproximou o suficiente, agarrando o meu braço com seus dedos gelados, não ofereci resistência e, apesar do medo que sentia, deixei que me arrastasse com ele até Leonado estirado no chão.
Queria gritar, me beliscar, estapear... Qualquer coisa que me fizesse acordar daquele pesa.delo. Mas enquanto eu encarava o assoalho sujo começando a ficar pintado com o sangue de Leonardo, me restou morder a língua e juntar cada pedacinho de controle que me restava para calar a boca e tentar sair dali sem provoca-lo ainda mais.
— Já que você tem tanta pena... Vamos ver se esse seu coração é tão grande de perto. Bate nele. — ele estendeu o pedaço de madeira para mim.
— O quê? Não! Eu não... eu não posso.
O rosto dele se transformou. O deboche deu lugar a uma rigidez absoluta. Ele se inclinou sobre o meu ombro, o hálito quente na minha orelha.
— Você está assistindo a um julgamento, santinha. Ter dó de verme é crime aqui. E cada crime tem sua punição. Se você não punir ele... — ele fez uma pausa dramática, e eu senti as lágrimas transbordarem, quentes e salgadas — ...eu puno. E eu garanto que a minha mão pesa muito mais que a sua.
Solucei, as lágrimas borrando minha visão.
— Olha só... — O demônio exclamou para os outros homens, rindo e apontando para o meu rosto como se eu fosse uma atração de circo. — Ela está chorando pelo traidor. Firmeza, vamos fazer um trato, já que você gosta de drama.
Ele pegou a madeira de volta com um movimento brusco.
— A cada lágrima que você deixar cair, Mariana, vai ser uma paulada extra que ele vai levar. Quer chorar? Chora. Mas saiba que o preço do seu choro quem paga é o lombo dele.
Naquele momento eu travei. Minha mão subiu institivamente para a minha boca, tentando sufocar o soluço que queria escapar. Meus olhos ardiam, mas eu precisava segurar. Precisava ser de pedra ou acabaria matando Leonardo somente de olhar para ele.
Então eu lutei. Lutei contra cada musculo do meu rosto, apertando os olhos com tanta força, que via pontos brancos. Mas era inútil. O pavor ainda era maior que a minha vontade e quando o primeiro soluço escapou, baixo e agoniado, o som da madeira estalando contra a carne de Leo veio logo em seguida.
Um.
— Não! — Berrei e o movimento fez outra lagrima traiçoeira saltar.
Dois. Ele não tinha pressa alguma. Golpeava com uma precisão cirúrgica, enquanto mantinha os olhos fixos em mim, parecendo saborear a dor que ele causava em nós dois.
Leonardo já nem gritava mais, apenas emitia um gemido sôfrego a cada paulada, para depois ofegar contra o assoalho sujo aguardando pelo pior. Observei o rosto dele se virar e quando seu olhar agoniado se encontrou com o meu, completamente chocado, perdi completamente as forças.
— Para... por favor... eu imploro... — minha voz quase não ecoava, enquanto eu cobria o rosto com as mãos e deixava que soluços altos e feios escapassem sem que eu conseguisse evitar.
— Levem ela daqui — Ele ordenou subitamente, o tom de voz voltando a ficar frio e desinteressado, como se tivesse se cansado do brinquedo novo. — Já deu de show por hoje.
Dois homens me seguraram pelos braços e eu não ofereci resistência alguma, minhas pernas pareciam feitas de gelatina. Enquanto me arrastavam para fora do assoalho, o som da madeira batendo contra a carne de Leonardo voltou a ecoar. Fechei os olhos com força e agradeci mentalmente quando fui jogada dentro de uma casinha com cheiro de mofo e paredes de madeira descascadas.
Fiquei ali, encolhida no chão, abraçando os joelhos e balançando o corpo, tentando desesperadamente limpar o sangue imaginário que sentia na pele. Eu estava sozinha e apesar do som do horror que acontecia fora dessas paredes não chegar ate mim, aquilo de nada adiantava. Estava gravado na minha memória e eu sabia que me renderia muitos pesadelos.
Horas depois – ou talvez minutos, eu já nem sabia mais –, a porta rangeu e meu coração voltou a disparar com força. Observei em silencio ele entrar. Tinha trocado a camisa; a de agora estava impecavelmente limpa. Ele se agachou a minha frente, observando o meu estado deplorável com um sorrisinho de deboche no canto de sua boca.
— Sobreviveu, Mariana? — perguntou, estendendo a mão para secar o rastro de uma lagrima seca em meu rosto. Eu tentei recuar, mas ele foi mais rápido, segurando o meu queixo com firmeza. — Sua sorte é que achei graça da sua cara de pavor. Se fosse outro no meu lugar, você estaria cavando a sua cova do lado da dele por ser toda sentimental com esse vacilão.
— Você matou ele... — não consegui conter o sussurro, muito menos o horror que vibrava em minha voz.
— Eu limpei o lugar. — ele corrigiu, soltando o meu rosto e se levantando. — Eu detesto gente que se mete onde não é chamada. Mas você... tu não tem cara de quem procura encrenca. Só tem cara de ser burra o suficiente pra seguir gente errada. Vê se coloca uma coisa nessa tua cabeça, santinha: coração mole pra cima de va.gabun.do, é convite pra virar peneira.
Ele caminhou até a porta, mas parou no umbral, olhando para fora antes de lançar o aviso final por cima do ombro.
— Tá liberada. Mas guarda esse choro pra quem merece. Se continuar tentando proteger passarinho caído, qualquer dia desses eu perco a paciência... E aí, não vai ter lagrima no mundo que te salve da encrenca que tu vai encontrar. Vaza logo, mina. Antes que eu mude de ideia e resolva contar quantas pauladas vale esse teu soluço aí.
Saí daquela casa sentindo o frio do mangue cortar a minha alma.
Eu tinha entrado ali sendo uma Mariana que temia becos escuros e poças d'água. Saí sendo alguém que agora conhecia o peso real de uma lágrima.