"Eu tinha passado a vida tentando ser invisível, mas sob aquele aperto de ferro no meu queixo e o cheiro de colônia misturado ao lodo, entendi que o meu maior crime para ele era o rastro de humanidade que eu ainda carregava no olhar."
Mariana
O rosto dele estava inchado e sujo, um corte profundo em sua têmpora fazia com que o sangue escorresse pelo seu rosto e pingasse pelo seu queixo, mas, ainda assim, eu seria capaz de reconhecer aqueles traços em qualquer lugar.
Aquele homem não era um desconhecido qualquer. Era Leonardo. Filho da dona da barraca de frutas. O garoto que brincou de amarelinha comigo e Juliana. O que sempre era café com leite nas brincadeiras de pega-pega. O rapaz que me ajudou a colocar minhas sacolas dentro do meu carrinho de feira no mês passado.
Um grito mudo entalou em minha garganta. Minhas mãos, que antes agarravam o braço de Juliana, agora cravavam as unhas em minha própria pele.
— Léo... — o nome dele escapou como um soluço sofrido que não consegui segurar, juntamente com as lágrimas que agora escorriam em abundancia pelo meu rosto.
Juliana tremeu ao meu lado e eu não soube dizer se aquilo foi devido ao fato de ter reconhecido o rosto do homem que cresceu conosco ou se era pelo medo de alguém ter me escutado. De qualquer forma, me forcei a descongelar e levei minha mão tremula até a boca, afim de abafar qualquer som histérico que poderia nos causar problemas.
O homem ao centro do assoalho, que até então parecia entediado, inclinou a cabeça levemente. Naquele momento, ele não olhou para Leonardo, ele olhou diretamente para mim.
Foi um olhar de alguns segundos, mas que pareceu revirar a minha alma. Ele tinha percebido. Ele sentiu o cheiro do meu reconhecimento, assim como um predador sente o cheiro do sangue da sua presa.
— Parece que alguém aqui conhece o nosso convidado de honra. — a voz dele ecoou calma e suave, quase melodiosa. O que só tornava tudo ainda mais doentio.
Não respondi a sua provocação. Ninguém falava nada, na verdade. O único som era o farfalhar das folhas das arvores, e o fungar de Leonardo que, apesar de tudo, se mantinha imóvel e de cabeça baixa. Era como se ele já tivesse aceitado o seu destino, enquanto a minha mente es.tupida não queria acreditar que eu estava presenciando tudo aquilo.
O homem perto de Leonardo desviou o olhar de mim somente para encarar um de seus comparsas e com um simples aceno de cabeça dele, Juliana e eu fomos cercadas. m*l tive tempo de raciocinar, quando mãos pesadas se fecharam em meu braço e fui levantada com brusquidão.
— O que...? Não! Não! Não! — meus gritos se misturaram ao de Juliana, que foi forçada a ficar aonde estava, enquanto eu era arrastada para o centro daquele assoalho. Tentei fincar os pés no chão, mas era como tentar lutar contra a maré.
Fui colocada frente a frente ao de.mônio e quando achei que perderia as forças das minhas pernas, a mão dele se fechou em meu queixo com força e eu engoli uma respiração.
Meu corpo todo tremia, as lagrimas agora saiam em abundancia, deslizando pelo meu rosto e se perdendo na enorme mão que parecia querer quebrar meu maxilar com aquele aperto de ferro. O cheiro de cigarro e colônia masculina que emanava dele, era um contraste gritante perto do forte odor do mangue, mas aquilo só serviu para fazer o meu estomago embrulhasse ainda mais.
Os olhos avaliativos pareciam me queimar, enquanto esquadrinhavam meu rosto. Funguei alto e o vi assumir uma cara de desdém, enquanto me soltava e dava um passo para trás, avaliando-me dos pés a cabeça com lentidão. Automaticamente, meus braços envolveram minha própria cintura, enquanto eu me encolhia e tentava parecer o mais insignificante possível. Eu poderia aturar seu desdém, deboche ou qualquer outra coisa que me fizesse sentir diminuída, desde que isso significasse sair viva daquele pesadelo.
— Quem trouxe essa boneca de porcelana pra cá? — não levantei o olhar para saber para quem ele fez a pergunta. — Tá achando que isso aqui é filme, é?
— É a irmã da Juliana. Se chama Mariana. Ela mora aqui, mas não costuma colar com nois. Vive de casa pro trabalho. — minha curiosidade ganhou e finalmente levantei o olhar para ver quem descrevia minha vida com tamanha precisão. Era um dos homens que ainda segurava Juliana pelo braço. — Acho que veio de ralo com as duas.
O que parecia comandar aquilo tudo ergueu uma sobrancelha, a expressão de desdém dando lugar para a de deboche, enquanto um interesse mali.cioso assumia o seu olhar. Ele encarou Juliana, que pareceu tremer no lugar ao estar diante da mira daquele homem.
— É verdade? — a voz dele abaixou perigosamente. — O que uma “menina de família” está fazendo no meio de duas marmitas emocionadas, vindo cobrar atenção de bandido uma hora dessas?
Juliana, com a voz embargada, explicou a história da Bianca e do namorado, enquanto ele escutava tudo em silencio, olhando de relance para o pai do ano, que confirmou a história com um aceno frenético de cabeça, morrendo de medo de sobrar para ele.
E quando eu comecei a acreditar na possibilidade de ser liberada para sair dali, me vi na mira daquele olhar frio novamente.
— Então você é a santinha da família? — Ele sorriu, mas era um sorriso que não trazia paz. — Pois bem, santinha. Já que você veio ver o show, vai aprender a primeira regra: aqui em cima, ter dó de ver.me é pecado.
Ele então se virou para o grupo de homens ao seu redor e, com um sorriso de canto que não chegava aos olhos, fez um sinal para que trouxessem o "instrumento". E enquanto eu era arrastada para perto do tronco, assisti ele receber o pedaço de madeira das mãos de um de seus comparsas, entendo, naquele momento, que a minha dor estava apenas começando.