"Naquele lugar, a lei não era escrita em livros, mas gravada no som da madeira rangendo sob o peso de quem não tinha mais para onde fugir."
Mariana
Eu podia sentir as pernas tremerem, querendo perder as forças enquanto o medo de apanhar começava a tomar conta de mim.
— Eu queria conversar... — agradeci mentalmente quando a voz de Bia soou calma, completamente diferente do tom que ela usou para xinga-lo enquanto bebia e ria com Juliana há alguns minutos atrás. — Amor, sabe que não consigo ficar brigada contigo.
Por um momento, o pânico deu lugar a incredulidade ao ouvir a voz feminina se tornar um ronronado manhoso e ridículo. Porém continuei em silencio, pois a artimanha de Bia pareceu surtir efeito quando o pai do ano afrouxou o aperto em seu braço.
— Po.rra, tinha que meter uma dessas logo hoje?! — Apesar do suspiro impaciente e da cara fechada, ele se limitou a agarrar a mão dela e sair rebocando-a em direção a uma das casinhas ma.l acabadas que tinha ali.
Juliana fez menção de segui-los, mas, antes que ela se movesse, agarrei sua mão e a puxei de volta.
— Não. — foi tudo o que consegui dizer, pois, depois do breve espetáculo dos dois, as atenções se voltaram para nós e o medo congelante voltou a tomar conta com força. — Não me deixe aqui sozinha. Eu não vou entrar ali. E... E acho que... Acho que não consigo me mexer tão cedo. — cochichei perto dela e, apesar de tentar fazer uma gracinha no final, eu sentia que tinha um fundinho de verdade em minhas palavras.
— Mary, acho que é melhor a gente entrar também. É mais seguro lá, do que aqui, vai por mim. — A encarei confusa depois de suas palavras e quando ela me olhou de volta, finalmente percebi que o costumeiro sorriso de zombaria não estava estampado em seu rosto.
Geralmente, Juliana conseguia disfarçar bem, mas eu sabia quando ela estava começando a ficar com medo. E, naquele momento, pude reconhecer nela, um pouco do que eu estava sentindo.
— Mer.da. — Estava prestes a abrir a boca e dizer que tudo bem, podíamos ir para onde Bianca tinha sido levada pelo cara, quando a voz de Juliana ecoou.
Tarde demais percebi que os cochichos tinham parado e que agora um silencio nauseante nos cercava. Só restava o som do vento fraco, farfalhando os galhos das arvores e trazendo consigo o odor forte do mangue.
Meus olhos se arregalaram quando passos pesados pareciam ecoar por todos os lados e virei a cabeça de um lado para o outro, em busca do som, tentando fazer com que a minha visão se acostumasse a escuridão e enxergasse o que estava por vim.
Não precisei de muito esforço. Logo o som se tornava cada vez mais alto. Tabuas rangiam com o peso de pés batendo no chão e, se Juliana não tivesse me puxado para fora do caminho, eu teria sido atropelada pela procissão de gente que passou por nós duas sem parecer nos enxergar, enquanto carregava algo entre eles.
Meu estomago embrulhou, meus olhos se arregalaram e eu tinha certeza de que teria caído sem forças se não fosse o braço de minha irmã entrelaçado com o meu. Nem toda a escuridão que nos cercava era capaz de fazer com que eu confundisse aquela visão.
— Pelo amor de Deus, não grita. — A voz de Juliana ecoou em meu ouvido e eu nem mesmo consegui balançar a cabeça para confirmar suas palavras. — Vem comigo...
— Ninguém sai, até que eu mande. — não percebi que um deles tinha ficado para trás, até que escutei a voz que fez a minha espinha gelar. — Ali. — apontou com a cabeça para um canto e senti Juliana começar a tentar me arrastar para onde o homem tinha indicado, porém minhas pernas pareciam não querer funcionar. — E é bom não dar nem um pio.
— Mary, vem. Por favor. — Foi o “por favor” temeroso dela que me acordou e me fez segui-la em silencio.
Observei o cara assustador caminhar tranquilamente até o centro daquele assoalho de madeira. De repente, luzes foram ligadas e pude observar com clareza a estranha estrutura que tinha ali.
Um tronco grosso de arvore servia como banco e foi onde alguns dos caras sentaram. Alguns tinham armas em suas mãos, outros estavam de mãos vazias. A maioria usava bermudas e chinelos, como se não sentissem frio. Alguns estavam sem blusa e exibiam várias tatuagens pelo corpo. Consegui notar que uns três ou quatro, tinham pistolas no cós das bermudas. E por mais que eu tentasse me focar nesses detalhes, eu não conseguia.
Meus olhos insistiam em se voltar para o homem que tinha nos mandado ficar quieta. Ele era o único que estava vestido com uma calça moletom e camiseta, como se tivesse sido interrompido de seu sono.
— Isso não costuma ser assim, mas hoje vocês vão assistir e ver o que acontece com quem se junta com ver.me.
Ele não precisou gritar para ser ouvido, e acredito que nem precisaria. Sua presença tão onipotente parecia hipnotizar há todos, fazendo com que até mesmo as respirações saíssem o mais silenciosamente possível.
Preciso admitir que até eu estava hipnotizada e tal qual as outras pessoas, também não desviava o olhar do homem no centro daquele assoalho de madeira, que atraia toda a atenção para si como se estivesse prestes a mostrar um espetáculo imperdível. Porém, diferente dos outros que deixavam transparecer sua curiosidade e até mesmo um quê de ansiedade, eu não conseguia me mover ou desviar por estar tomada pelo puro pânico.
Não precisava ser um gênio para saber que nada de bom aconteceria dali para frente. Eu sabia. Podia sentir aquilo em cada pelinho que se arrepiava no meu corpo.
E quando a “coisa” que eles arrastavam escondido entre eles foi jogada com brusquidão no chão e depois forçado a ficar de joelhos em frente aquele homem, percebi o quanto aquilo estava prestes a ficar pior.
A luz improvisada que iluminava o assoalho de madeira oscilava, criando sombras assustadoras que eu tinha certeza de que iria me assombrar pelo resto da vida. Na verdade, eu sabia que todo aquele horrível dia iria me assombrar para sempre. Por um segundo, eu quis fechar meus olhos e fingir que ainda estava no breu dos inúmeros becos escuros que caminhamos, mas o som do impacto, o joelho do homem batendo no chão contra a madeira dura... Fui obrigada a olhar.
E foi então que o meu mundo parou completamente.