Capítulo 7 – A Outra Face

1552 Words
"Eu estava preparada para enfrentar um monstro, mas não sabia como me defender de um homem que me oferecia um copo de cerveja e um pedido de desculpas." Mariana O trajeto até o morro do p**a-p*u não foi demorado. Apesar da rua ser estreita e de alguns moradores disputar o espaço da rua com os veículos, Marcola não teve dificuldade alguma em conduzir. Logo estávamos subindo o morro íngreme e parávamos por um momento em frente a um portão preto enorme. Alguns homens armados estavam frente ao portão, que logo se abriu, revelando uma casa imponente. Não era um barraco ou uma casa modesta. Era uma fortaleza de luxo, com muros altos, um quintal enorme e uma piscina que refletia as luzes da sacada. — Pode entrar. Ele tá te esperando lá dentro. — m*l reparei que o carro tinha parado, até que a voz de Marcola ecoou, mantendo aquela gentileza inicial que agora eu sabia ser apenas o preludio de algo maior. Me restou somente acenar com a cabeça e sair do veiculo com as pernas tremulas. A porta estava aberta e, apesar querer dar meia volta e sair correndo, respirei fundo e adentrei a casa. O ambiente era amplo, bem decorado, mas eu só conseguia focar no homem sentado à mesa de jantar. Eduardo não parecia em nada com o carrasco do mangue. Ele vestia uma camiseta branca que parecia colar em seu corpo, evidenciando cada musculo de seu peito e dos braços. Estava de calça moletom, chinelos e seus cabelos estavam úmidos. O cheiro de banho recém tomado e de um perfume amadeirado, marcante e caro, invadiu minhas narinas, me deixando tonta por um segundo. — Chegou na hora certa. Tá com fome? — ele perguntou, sem levantar os olhos do prato. — O jantar tá bom. — Eu não quero comer, Eduardo. — minha voz saiu mais firme do que eu esperava, apesar do nó no estômago. — Quero saber por que estou aqui. Por que não me deixa em paz? Não vou falar nada do que vi naquele dia. Eu juro! Ele largou os talheres e finalmente me encarou. Não havia fúria nos olhos dele, apenas uma curiosidade calma. Inevitavelmente, aquilo me acalmou um pouco também. Procurei respirar fundo e me mantive em silencio, observando-o ascender um cigarro, tragando devagar e expulsando a fumaça que subia lentamente, enquanto ele dava um gole em uma cerveja gelada. — Senta aí, Mariana. Por favor. Obedeci, mas me mantive na pontinha da cadeira, pronta para correr se fosse preciso. — Eu queria te pedir desculpas. — Ele soltou, voltando a tragar o cigarro, enquanto me encarava e me mantinha presa sob aquele olhar inquietante. Acabei rindo por puro nervosismo e aquilo não pareceu incomoda-lo nem um pouco. — Você praticamente o matou na minha frente! — Não tô pedindo desculpas por ter matado o Léo. — ele me interrompeu, a voz finalmente adquirindo aquele tom frio que eu me recordava com perfeição. — Ele conhecia as regras da favela. Ele nasceu aqui, mas escolheu ser um nóia que rouba a própria mãe pra sustentar o vício. E o pior de tudo, escolheu passar a visão pros canas. Ele fez a escolha dele e sabia o que aconteceria se fosse pego. Eu não me arrependo disso. Ele inclinou pra frente e eu praticamente prendi a respiração quando o cheiro do perfume dele, misturado ao cheiro do tabaco, ficou ainda mais forte, inebriando meu raciocínio. — Eu tô pedindo desculpas por ter envolvido você nisso tudo. Me explicaram quem você é depois... Mariana, a menina que estuda, que trabalha, que não se mete com ninguém. Você nunca tinha visto esse lado da vida e eu te causei um pânico que você não merecia. Eu tô aqui pra fazer meus corre, mas também tô aqui pra proteger quem é morador de verdade da minha favela. E você é. Não conseguir emitir um som sequer. As palavras dele bateram em mim de um jeito estranho. Eduardo falava com uma logica brutal, mas também honesta. Aquele era o lado que Juliana insistia em me falar, mas que eu recusava a acreditar: o “chefe” que também era o protetor. — Quer beber alguma coisa? — ele ofereceu, percebendo que minha guarda estava baixa. — Ou prefere fumar? — Eu não fumo. — minha voz ainda soava meio perdida com o rumo daquela conversa. Confesso que cheguei ali sem saber o que esperar, mas, com certeza, eu não imaginava que a conversa tomaria aquele rumo meio... Agradável. — E não costumo beber. — Não consegui manter o contato visual e deixei que meus olhos vagassem, percebendo ser uma péssima ideia quando comecei a notar o jeito que a camiseta marcava os ombros dele. — Passando pela vida sem aproveitar nada, Mary? — Eduardo deu um sorriso de lado, quase como um desafio e eu engoli em seco. — Bebe um pouco. Relaxa. Você tá segura aqui. — ele serviu um copo e, vendo a minha hesitação, deu um gole antes de me entregar. — Ó, não tá batizada não. Promessa de homem. Aquilo tudo era completamente desconcertante. Eu tinha chego ali toda armada, acreditando estar preparada para reagir ao monstro que conheci naquele dia. Mas eu não sabia o que fazer com a nova faceta do homem que se revelava a minha frente. O Eduardo cheio de gentileza e provocações estava me apavorando mais do que o Eduardo frio e cheio de sarcasmo sanguinário que vi naquele assoalho. Eu já reconhecia a sensação de medo que um dia ele me causou. Mas agora... Agora eu desconhecia as novas sensações que eu estava sentindo ao ser apresentada á esse novo lado dele. E então eu bebi. Ignorando todos os alertas que me mandavam levantar e sair correndo daquela casa, daquele olhar... E aceitando a queimação da bebida e da sensação de calor que se apoderava do meu corpo e começava a dissolver a tensão nos meus ombros. Acabamos engatando em uma conversa sobre coisas banais e Eduardo era... Poxa, ele era engraçado! Ele não era o monstro ignorante que eu tinha pintado em minha mente; ele sabia falar, sabia ouvir... Em algum momento da conversa e entre alguns copos de cervejas, me peguei rindo de uma história engraçada dele. O medo tinha evaporado completamente, sendo substituído por uma euforia perigosa causada pela bebida e pela presença dele. Quando eu estava tomada pelo medo, não tinha reparado em como ele era bonito. Mas agora... Agora eu estava ali, frente a frente com ele sendo todo sorriso e gentileza, e lamentava interiormente o fato de estar toda desarrumada e com cara de quem tinha passado por um dia cansativo no trabalho e no curso, enquanto ele me olhava como se pudesse enxergar a minha alma. Meu riso foi sessando aos poucos, enquanto meu coração começava a acelerar dentro do peito. — O que foi? — Murmurei desviando o olhar, enquanto suspirava e colocava uma mecha de cabelo atras da orelha. Eduardo ainda me encarava e aquilo estava começando a me deixar desconsertada. Ele não me olhava como as pessoas na rua olhavam. Ele me olhava como se eu fosse um enigma que ele estava finalmente decifrando. — Você é diferente. — ele respondeu ainda sem desviar. A voz baixa, enquanto uma musica de fundo preenchia os espaços. Ele não disse que eu era bonita, gostosa, ou qualquer adjetivo que eu esperava que os homens usassem para conquistar as garotas. Eu deveria saber que ele não precisava de nada aquilo. Não quando ele olhava para alguém daquele jeito... Um clima pesado, elétrico, se instalou entre nós. Não existia mais graça, ou a descontração de momentos atrás. Existia somente um de.sejo súbito e imo.ral. Eu sabia aonde ele queria chegar e, naquele momento, de.sejei o mesmo. Ele se aproximou, o rosto a cêntimos do meu e eu fechei os olhos, somente esperando pelo beijo que selaria a minha per.dição. Eu sempre poderia culpar a bebida..., pensei enquanto aguardava. Mas o beijo não veio. Finalmente abri os olhos e ele ainda estava próximo, me observando com um conflito nítido em seu olhar. Por fim, Eduardo suspirou e se afastou um pouco, passando a mão no rosto e bagunçando os cabelos ainda úmidos. — É melhor você ir, Mariana. — a voz dele estava rouca e mais um suspiro, agora impaciente, surgiu dele. — Você bebeu, tá cansada... E eu não quero te arrastar mais do que já te arrastei. Você é... boa demais pra isso. Fiquei em silencio, sentindo o frio do ar-condicionado na pele, enquanto ele fazia uma ligação garantindo que eu teria uma escolta para casa. Eu queria dizer alguma coisa. A sensação de alivio e indignação gritavam dentro de mim, mas quando Marcola apareceu, vi a minha chance passar. Me levantei e nos despedimos com um clima estranho pairando sobre nós. Ao fechar a porta daquela casa, percebi o quanto eu estava fo.dida. O homem que tirou o sono das minhas noites, era o mesmo que, por um instante, me fez sentir que eu nunca estaria tão segura quanto nos seus braços. Eu fui até lá acreditando que teria respostas para o meu terror, mas voltei com uma pergunta que me assombrava ainda mais: como eu poderia temer alguém que acabara de me proteger da sua própria vontade?
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